Bactéria e mandioca são pura limpeza

bactéria dos resíduos da fabricação da farinha de mandioca

Manipueira é o resíduo líquido da fabricação da brasileiríssima farinha de mandioca. Com alta carga de matéria orgânica, torna-se um poluente se for descartado na água de lagos ou rios. Por isso, os grandes fabricantes tratam o efluente e alguns pequenos produtores conscientes o reutilizam como adubo. Mas ainda há muitas casas de farinha por aí, despejando manipueira de maneira indevida, com prejuízo para o meio ambiente.

Assim, parece uma boa ideia encontrar serventia para esse caldo, rico demais em nutrientes. E, melhor ainda, é arrumar uma opção capaz de gerar um produto com mercado garantido, como fez a pesquisadora Marcia Nitschke, ao desenvolver sua tese de doutorado em Ciência de Alimentos, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela testou a manipueira como substrato para uma bactéria (Bacillus subtilis) produzir biossurfatantes. O sucesso obtido já atraiu diversas empresas, interessadas no produto final.

Os biossurfatantes são um tipo de detergente: eles reduzem a tensão superficial de soluções oleosas. E, neste caso, servem para biorremediação (limpeza de petróleo derramado na praia, por exemplo); emulsificação de graxas e óleos (limpeza de máquinas industriais e sondas) e como bactericidas e antivirais (limpeza de tubulações, linhas e ambientes hospitalares ou em produtos farmacêuticos, cosméticos e alimentícios).

A melhor opção de biossurfatante obtida pela pesquisadora demonstrou bom índice de emulsificação de hidrocarbonetos como hexano, tolueno, heptano, decano, tetradecano, hexadecano, querosene e petróleo, além de óleo de soja e gordura de coco. Um ensaio em areia saturada com querosene foi realizado, tendo o biosurfatante removido 60% do querosene da areia, contra apenas 10% da lavagem realizada apenas com água.

No caso específico da ação antimicrobiana, Marcia Nitschke testou e comprovou a eficácia de seus biossurfatantes contra Pseudomonas aeruginosa (associada a infecções hospitalares) e Micrococcus luteus (mucosas e trato respiratório), que foram as mais sensíveis. O produto também teve efeito inibidor, embora em menor grau, sobre Escherichia coli (a bactéria dos esgotos), Serratia marcescens (infecções urinárias); Salmonella choterasius e Bacillus cereus (ambas causadoras de intoxicação alimentar). Dois vírus foram testados, com resultados in vitro promissores: o VSIV (Vesicular Stomatitis Indiana Virus, da mesma família da raiva) e MHV (Mouse Hepatitis Virus). Os “detergentes da bactéria” só não tiveram muito efeito contra fungos e leveduras.

O “recrutamento” das bactérias B. subtilis para trabalhar no projeto de pesquisa foi feito em amostras de solo, junto à fábrica de farinha de mandioca onde foi coletada a manipueira. A sugestão de usar esse substrato como base para os biossurfatantes foi da orientadora de Marcia na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, Glaucia Maria Pastore. Ela se baseou nos bons resultados obtidos no trabalho de outra aluna, Cristine Fiore dos Santos, co-orientada por Marney Cereda, da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Botucatu).

O estudo já contava com recursos de um projeto sobre biossurfatantes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Marcia Nitschke também obteve uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Graças aos esforços coordenados dessas pesquisadoras – e a algumas iniciativas que deram continuidade ao estudo – as praias eventualmente afetadas por derramamentos de petróleo e os ambientes sobrecarregados de bactérias patogênicas agora podem ficar mais limpos. É só mandar os tais biossurfatantes neles!!

Foto: Bacillus subtillis (Creative Commons WMRapids)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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