Aves brasileiras superpoderosas e supermães!

Superpoderosas, românticas, inteligentes ou altruístas, as milhares de aves em nossos céus nos lembram todo dia que mãe é uma só.

Com vocês, as 5 supermães do mundo das aves brasileiras! Com qual delas sua mãe (ou você) se identifica?

A romântica Cisne

Surpreendentemente uma das mais belas e menos conhecidas mamães entre as aves brasileiras é a Cisne-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus) que habita as áreas úmidas do Sul do país.

Após inúmeras expedições de caiaque no habitat destas aves, a pesquisadora Carmem Silva, publicou artigo científico completo na revista Ornitologia Neotropical sobre a biologia reprodutiva da espécie: Reproductive biology and pair behavior during incubation of the Black-necked swan (Cygnus melanocoryphus). Nele, conta que descobriu que as mamães cisnes são 100% responsáveis por chocar os nove ovos que, muito em breve, trarão amor e alegria ao dia a dia de seus pais.

Totalmente vegetarianas, estas antenadas mães buscam oferecer uma dieta saudável aos filhotes, se alimentando quase exclusivamente de uma das maiores iguarias da natureza, ao menos para algumas aves aquáticas de bom gosto. Ingerem diariamente quilos e mais quilos de Elódeas (Egeria densa), uma das plantas aquáticas mais abundantes no Brasil.

Uma saúde de ferro é essencial para estas mamães, afinal a cisne é uma das poucas espécies de aves que permanecem ao lado dos filhotes por um dos maiores períodos de tempo. Em seu estudo Functional aspects of prolonged parental care in Bewick’s swans, o biólogo David Scott conta como foi sua investigação sobre o cuidado parental dos Cisnes: ele descobriu que espécies do gênero Cygnus cuidam dos seus filhotes por anos chegando, até mesmo, a receber a visita dos filhotes mais velhos.

Os cisnes também são uma das poucas espécies de aves que formam casais para toda a vida, adotando um estilo de vida denominado de monogamia por nós. Por este motivo, a famosa imagem dos casais de cisnes com os pescoços unidos em forma de coração se tornou um dos símbolos românticos mais populares.

A poderosa Harpia

harpy

Uma das mais poderosas mães entre as aves brasileiras é ninguém menos que, uma das maiores águias do mundo, a Harpia (Harpia harpyja).

Alimentar seus filhotes, não é uma tarefa fácil, para isso a Harpia precisa dar vários pulinhos no supermercado da floresta tropical e, literalmente, agarrar os alimentos que irão compor uma das dietas mais bem diversificadas entre os superpredadores tropicais.

Estudo como Food Habits of the Harpy Eagle, a Top Predator from the Amazonian Rainforest Canopy, publicado pela cientista Helena Aguiar-Silva sobre os hábitos alimentares das Harpias apontam que as aves adotam uma dieta que inclui 69 espécies de mamíferos, aves e répteis.

Artigos publicados por pesquisadores como Neil Rettig – que, acompanhou de perto o comportamento reprodutivo destas aves, descrevem que, para agradar as pequenas Harpias, a supermamãe precisa caçar nada menos que dois Gambás-comuns (Didelphis marsupialis), treze Macacos-prego (Cebus sp.), um Bugio (Alouatta seniculus), dois Macacos Parauacu (Pithecia pithecia), dois Macacos Cuxiú-preto (Chiropotes satanas), quatro Juparás (Potos flavus), um Quati (Nasua nasua), um Gogó-de-sola (Bassaricyon beddarti), uma Irara (Eira barbara), cinco Cutias (Dasyprocta aguti), três Ouriços-cacheiros (Coendou prehensilis), seis Preguiças-de-três-dedos (Bradypus tridactylus), quinze Preguiças-reais (Choloepus didactylus), um Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) e um Veado-mateiro (Mazama americana).

Ufa! Mas claro que os desafios de ser mãe não se restringem à alimentação. Antes do nascimento dos pequenos, o casal de Harpias já se dedica à construção de um singelo ninho sobre nada menos que uma Samaúma (Ceiba pentandra), a maior árvore da Amazônia.

Esta exuberante espécie de árvore de 60 metros de altura foi a escolhida pela família de Harpias observada por Neil Rettig, para abrigar seu ninho com 137 centímetros de diâmetro e 78,7 centímetros de altura, dimensões dignas de uma águia.

A genial Beija-flor

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Uma das mais delicadas e, certamente, a mais rápida de todas as aves das Américas, o beija-flor é a única espécie de ave capaz de se manter parada no ar, se deslocar verticalmente, e até dar marcha à ré, de forma tão veloz que pode bater as asas 80 vezes por segundo e voar a 45 km por hora.

Com estes superpoderes, poderíamos imaginar que criar alguns filhotes seria uma tarefa pra lá de trivial para as mamães das mais de 300 espécies de beija-flores… nada disso!

A maratona da mamãe beija-flor começa muito antes do nascimento dos seus bebês. Curiosamente, são as fêmeas dos beija-flores e não os machos, que constroem os ninhos, de forma totalmente independente, utilizando enorme variedade de materiais que desempenharão funções especificas como pequenos galhos, folhas, musgos, líquens e fibras de sementes amarradas cuidadosamente por fios de teias de aranha.

Algumas destas mães levam o perfeccionismo a sério. Afinal, ninhos precisam ser ambientes extremamente seguros, tanto para a mamãe quanto para os pequenos ovinhos que levaram entre 14 e 23 dias para chocar.

Exatamente por este motivo as superprotetoras fêmeas do beija-flor Rabo-branco-rubro (Phaethornis ruber) se dedicam a construir muito mais do que incríveis obras da arquitetura. Estas mamães constroem um sistema de vigilância monitorado 24 horas por vespas.

Esta genial “inovação tecnológica” foi observada, pela primeira vez, pela pioneira bióloga Yoshika Oniki nas matas do município de Belém. Em seu estudo Brazilian Sphecid Wasps in Occupied Hummingbird Nests, Oniki descreveu a presença de vespas na parte inferior de oito dos treze ninhos estudados. Apesar de outros beija-flores possuírem ninhos muito semelhantes, apenas os ninhos da mamãe Rabo-branco-rubro levam a segurança a um outro patamar.

A super social Cuco

guira

Enquanto algumas mães do universo das aves prefere a privacidade de uma rotina singela em casal, outras – para ser preciso, 12 das mais de 9 mil espécies do mundo – optam, desde o início da maternidade, por uma vida compartilhada com outras mães, em um sistema que nós cientistas denominamos reprodução cooperativa.

Uma destas é a mamãe Anu-branco (Guira guira), que não apenas é uma das aves mais radicais em sua aparência, como também na forma de criar os filhos.

Os Anus-branco são os parentes brasileiros dos famosos cucos europeus, aqueles que inspiraram a criação dos relógios cuco. A espécie se distribui por toda a América do Sul habitando áreas de Cerrado, campos abertos e até mesmo áreas perturbadas que contam com a presença de algumas árvores na paisagem.

Diferente da vasta maioria de outras mães passarinhas, as Anus-branco cooperam em quase tudo. Em grupos de até treze indivíduos, se envolvem na construção de um mesmo ninho, literalmente compartilhado por todas as mães para abrigar e proteger seus filhotes. Esse comportamento já foi descrito por pesquisadores em estudos como Communal breeding in tropical Guira cuckoos Guira guira: sociality in the absence of a saturated habitat da cientista Regina Macedo, que vive em Brasília.

Além disso, os membros da comunidade acabam dividindo as tarefas do dia a dia, enquanto algumas mães desempenham o papel de verdadeiras sentinelas responsáveis pela, segurança do ninho, enquanto outras buscam diariamente uma variedade de alimentos para os pequenos bebês.

A generosa Tico-tico

molothrus

De todas as mães aladas, as Tico-ticos (Zonotrichia capensis) vão muito além da generosidade e altruísmo quando o assunto é filhos, estas pequenas aves não alimentam e protegem apenas os seus próprios filhotes, como também os filhotes de uma outra espécie de ave, os Chopins (Molothrus Bonariensis).

Todos os anos, durante a época reprodutiva, fêmeas de diferentes populações de Chopins exploram incansavelmente uma variedade de ambientes por toda a extensão da América do Sul, até finalmente encontrar algo muito precioso, os insubstituíveis ninhos de Tico-tico.

As fêmeas de Chopins não constroem ninhos ou, sequer, alimentam seus filhotes. Ao longo da evolução da espécie, estas aves perderam essa capacidade e, por este motivo, utilizam uma estratégia no mínimo singular: elas depositam seus ovos nos ninhos das mamães Tico-ticos.

Estudos como o da cientista Mariana Carro – Can nest predation explain the lack of defenses against cowbird brood parasitism in the Rufous-collared Sparrow (Zonotrichia capensis) –, publicado na revista The Auk, revelaram que, na realidade, as mamães Tico-ticos, além de não danificar estes novos ovos, não antecipam ou implementam nenhum tipo de defesa contra as ações das mães Chopins.

As Tico-ticos simplesmente acolhem os novos integrantes da família, e não abrem mão dos cuidados com os pequeninos filhotes de Chopim, investindo em uma busca ativa até encontrá-los, fenômeno descrito no artigo publicado na revista Ornitologia Neotropical por Augusto Florisvaldo Batisteli e Hugo M. P. de Morais Sarmento .

Segundo os pesquisadores, uma zelosa mãe Tico-tico foi registrada alimentando, limpando e protegendo três filhotes. Com um detalhe: não em seu ninho e, sim, no ninho de uma vizinha Sabiá‐barranco (Turdus leucomelas). Além dos filhotes de Sábia, encontrava-se também um jovem filhote de Chopim (Molothrus bonariensis).

Em termos de aves, o Brasil é um país privilegiado que possui 1919 espécies. De acordo com a última análise do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos são milhões de aves voando pelos céus das cidades e das florestas, nos lembrando todos os dias dos desafios que as mães enfrentam por seus filhos, sejam elas aves ou humanas, um feliz dia das mães para as verdadeiras heroínas do planeta.

Fotos: Yerko, Haui Ared, Lars Petersson, Peter van Zoest e Dario Sanches.

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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