Aumenta número de casos de Aids entre jovens de 15 a 24 anos

Aumenta número de casos de Aids entre jovens de 15 a 24 anos

O Brasil é o país da América Latina que mais concentra casos de novas infecções por HIV: 49% das pessoas contaminadas, em 2016, eram brasileiras, segundo estimativas mais recentes do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS).

O dado mais alarmante, entretanto, é que das 4.500 novas infecções pelo vírus HIV em adultos, 35% ocorreram entre jovens de 15 a 24 anos.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, que já considera que há uma “epidemia entre os jovens”, de 2006 a 2015, a taxa de detecção de casos de AIDS entre jovens do sexo masculino, com 15 a 19 anos, quase que triplicou, de 2,4 para 6,9 casos por 100 mil habitantes. Já entre aqueles na faixa dos 20 aos 24 anos, o índice mais do que dobrou: de 15,9 para 33,1 casos por 100 mil habitantes.

Diferentemente da geração dos anos 80, que viu seus ídolos morrerem de Aids – Cazuza, Renato Russo, Freddie Mercury, entre outros -, os jovens de hoje vivem uma realidade diferente. O tratamento para o HIV garante a qualidade de vida dos pacientes e fez com que o número de mortes caísse enormemente e tenha se mantido estável na última década.

Para falar sobre o assunto, o Conexão Planeta entrevistou o infectologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador médico do Projeto Prep Brasil, Ricardo Vasconcelos.

O especialista falou sobre a atual epidemia entre os jovens, as estratégias atuais de tratamento e contou como funciona o programa piloto “A Hora é Agora”, que está sendo testado em Curitiba e deve chegar em breve na capital paulista.

Existe um aumento dos casos de HIV entre os jovens? Entre que faixas etárias?
Sim. Entre os jovens, principalmente gays, de 15 a 24 anos.

Quando este crescimento começou a ser notado?
 Já faz dez anos que esse fenômeno está acontecendo. Nesse período, a taxa de incidência, ou seja, o número de novos casos por 100.000 habitantes quase que triplicou.

É um aumento mundial ou somente no Brasil?
É um fenômeno mundial, respeitando peculiaridades de cada país. Nos Estados Unidos, por exemplo, jovens afro-americanos são mais acometidos.

Qual a principal explicação para este crescimento?
Acredito que essa é uma pergunta que tem uma resposta complexa. De fato, é transar sem camisinha que acaba fazendo o HIV se transmitir por via sexual, mas não podemos simplesmente culpar quem realiza essa prática, e sim, compreender todos os fatores que acabam levando uma pessoa a ter relações desprotegidas. Os jovens de hoje estão pegando mais HIV que os jovens de 20 anos atrás porque eles são os jovens de hoje e não os de duas décadas atrás. São jovens que vivem num mundo diferente e interagem entre si, seguindo seus códigos, de maneira diferente do que faziam 20 anos atrás. O HIV é um dos aspectos dessa transformação, mas existem outros, como data de início da vida sexual, frequência de gravidez na adolescência, liberdade sexual, etc. Somado a isso, existe o fato de eles terem nascido quando o HIV já havia tratamento que mantinha a saúde de uma pessoa que vive com o vírus, o que fez com que o número de mortes caísse enormemente. Isso realmente faz com que as pessoas tenham menos medo do HIV, mas quando olhamos para a história da epidemia, vemos que o medo também não funcionou como estratégia de controle, então muito provavelmente, se os jovens de hoje vissem seus ídolos morrerem de Aids, ainda assim, haveria um aumento no número de casos entre eles.

Há uma incidência maior entre homens ou mulheres?
Entre os jovens, existe um acometimento desproporcional do homens gays, e ainda com uma tendência de aumento dessa concentração.

Os jovens de hoje acreditam que a doença está controlada? Que ela tem cura?
Talvez. Mas eles não enxergam a infecção por HIV como um abismo de mortes.

Quais são os efeitos do coquetel de drogas na vida do portador?
Atualmente, praticamente nenhum. Uma pequena parte das pessoas em terapia antirretroviral pode apresentar uma alteração renal causada pelo antirretroviral, que é reversível, quando trocado o esquema usado.

A pessoa infectada será um transmissor pelo resto da vida? Precisará sempre usar camisinha?
Hoje se sabe que a camisinha não é a única estratégia de prevenção do HIV. Sabe-se também que uma pessoa que se trata corretamente e mantem sua carga viral indetectável no sangue não é capaz de transmitir seu vírus numa relação sexual desprotegida. Sabe-se ainda que o uso de antirretrovirais por pessoas soronegativas pode também protegê-las, seja depois de uma exposição de risco (Profilaxia Pós Exposição) ou seja diariamente (Profilaxia Pré Exposição).

Como funciona o tratamento Profilaxia Pós Exposição? Quais os riscos de ser administrado frequentemente?
Profilaxia Pós Exposição (PEP) é uma estratégia de prevenção contra o HIV que utiliza o uso de um esquema antirretroviral por uma pessoa soronegativa, que se expôs a uma situação com risco de infecção pelo vírus. Ela deve ser iniciada em até 72h da exposição e tomada por 28 dias. Funciona muito bem tanto para exposições sexuais, quanto para acidentes com material biológico (como por exemplo, uma enfermeira que se fura com uma agulha com sangue ou um cirurgião que se machucou numa cirurgia de uma pessoa que vive com HIV). Não há problema em usar a estratégia de maneira repetida, tanto que se as exposições de risco são frequentes, recomenda-se a Profilaxia Pré Exposição (PrEP), que consiste no uso diário de antirretrovirais como estratégia de prevenção contra o HIV.

Não há efeitos colaterais no uso sistemático da PEP e PrEP?
Não existe um evento adverso relacionado com o uso repetitivo. O evento adverso mais comum da PrEP é um enjôo nos primeiros dias, benigno e auto limitado. Apenas 1% dos pacientes em PrEP faz uma alteração renal que é reversível se suspensa a medicação, e que portanto, deve ser rastreada.

O que precisa ser feito para alertar os jovens do dia de hoje sobre o risco de contaminação?
A prevenção contra o HIV precisa entrar no contexto de vida de cada pessoa. E dessa maneira a tentativa de impor o que deve ser feito, como por exemplo “use camisinha”, não tem funcionado para todas as pessoas, o que permite que a epidemia continue crescendo. Melhor é dar autonomia para cada indivíduo escolher a estratégia ou as estratégias que mais se adaptam à sua vida. Com a diversificação das estratégias de prevenção (indetectável = intransmissível, PEP e PrEP) é possível oferecer um cardápio para que cada um possa escolher e combinar estratégias.

O que é o programa de autoteste “A Hora é Agora”? Como ele funciona?
Autoteste para HIV é uma tecnologia de busca de novos casos de infecção por HIV que é inteiramente realizada e interpretada pelo próprio indivíduo, dispensando um profissional da saúde. Ele tem especial importância quando se pretende aumentar a cobertura de testagem entre indivíduos que se constrangem de ter que falar com um profissional da saúde ou que não acessam o sistema de saúde habitual, como por exemplo, populações marginalizadas, como mulheres trans, travestis e trabalhadores do sexo. No Brasil, só temos um programa de autotestagem em fase de pesquisa, como o projeto “A Hora é Agora”, em Curitiba.

O projeto será expandido para outras cidades?
O “A Hora é Agora” está em vias de iniciar sua segunda etapa, agora na cidade de São Paulo, tentando avaliar a melhor logística de distribuição de kits de autoteste na população de homens gays. Mas já é possível comprar um kit de autoteste em algumas farmácias e pela internet. Seu nome é Action® e custa cerca de 70 reais o kit.

Foto: Warren Wong on unsplash

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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