Asfalto não é lugar para sementes nativas

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As árvores da biodiversidade brasileira também frequentam as zonas urbanas, enchendo de cor alamedas, avenidas e praças. Nesses meses de primavera, não dá para ignorar todas as cores dos ipês; o vivo verde-amarelo das sibipirunas; os muitos matizes do branco ao lilás das patas-de-vaca; o show cor-de-rosa das paineiras; o laranja afogueado dos mulungus e o roxo marcante dos jacarandás.

Passado o espetáculo, tais árvores dão frutos em profusão e logo enchem seus arredores de sementes nativas. Mas, ao contrário das escandalosas floradas, essa parte do esforço anual de renovação passa quase despercebida do grande público. Ou, pior, é percebida como um incômodo por quem empunha vassouras contra o vento que espalha tudo.

Quando as sementes caem no asfalto, não há chance de germinar, já advertia o Padre Antônio Vieira, em seu famoso Sermão da Sexagésima (Capela Real, Lisboa, 1655): “Outra parte (das sementes) caiu sobre pedras e secou-se nas pedras por falta de umidade… Outra parte caiu no caminho e pisaram-no os homens”. Outra parte cai no asfalto e é triturada pelos veículos, acrescentaríamos, ajustando o sermão aos dias atuais.

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Felizmente existem homens – e mulheres – dispostos a dar um destino mais nobre a essas sementes, transformando-as em mudas para enriquecer matas, recompor a vegetação das margens de rios, arborizar praças e sítios ou só “por boniteza” mesmo, como se diz na roça.

Na Associação Mata Ciliar, com sede em Pedreira, no interior de São Paulo, de 15% a 20% das 300 mil mudas de árvores nativas produzidas neste ano vieram de zonas urbanas. “Felizmente tivemos um movimento de plantar mais espécies brasileiras em praças e avenidas, em vários municípios, e hoje podemos coletar sementes nativas nas cidades, não só de ipês, paineiras e quaresmeiras, mas também de madeiras nobres”, conta o engenheiro agrônomo Jorge Bellix de Campos, presidente da ONG.

Jorge enumera algumas espécies que se tornaram raras nas matas paulistas, por excesso de exploração, mas podem ser encontradas nas cidades, como a cabreúva (Myroxylon peruiferum) de madeira densa e vermelha; a bela caviúna (Machaerium scleroxylon); os imensos jequitibás (Cariniana estrellensis e C. legalis), a louveira (Cyclolobium vecchi), hoje rara em sua área de origem, no vale do rio Mogi, e o quase extinto pau-brasil (Caesalpinea echinata), há tempos incluído na Lista Oficial das Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção.

No Mato Grosso, diversos coletores também andam de olho nas árvores urbanas para compor a chamada “muvuca”, uma mistura de sementes nativas distribuída por tratores, que tornou mais barata e mais viável a recomposição de Áreas de Preservação Permanente (APPs) nas cabeceiras da Bacia do rio Xingu. Os coletores fazem parte da Rede de Sementes do Xingu, criada no âmbito da Campanha I Ikatu Xingu (ou Água Boa do Xingu) coordenada pelo Instituto Socioambiental.

Em Nova Xavantina (MT), um desses coletores com um pé na cidade e outro nas fazendas é o mineiro Santino Sena. Ao abraçar a nova atividade, ele aprendeu as “manhas” para fazer as sementes nativas germinarem e conseguiu passar de trabalhador rural a empresário, dono do próprio viveiro e dos próprios horários.

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Mesmo quem não pretende se profissionalizar pode recuperar sementes de árvores urbanas, antes que caiam no asfalto, e sair distribuindo mais verde por aí. O ideal é aprender a reconhecer as espécies nativas da região, para aprimorar sua contribuição à multiplicação da biodiversidade brasileira. Assim, seja onde for plantada, a nova árvore será bem recebida pela fauna silvestre e fará bem aos nossos olhos. Sem contar o adicional gratuito de sombra, que nesses dias de calor sempre faz uma boa diferença!

DICA
Para saber como produzir e plantar as mudas e conhecer as características de cada espécie há vários manuais e recursos on line:
Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU): no site, clique em Educação e Pesquisa, Trees are Good;
 Manual de Arborização, da Cemig;
Como plantar árvores nativas em Áreas de Preservação Permanente, da Embrapa.

Fotos: Liana John (muvuca de sementes montada por Santino Sena, ao alto; sementes de ipê no asfalto, centro, e muda de pau-brasil, a última)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

2 comentários em “Asfalto não é lugar para sementes nativas

  • 15 de outubro de 2015 em 3:38 PM
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    Matéria bem feita, como de hábito. Além disso, muito oportuna!

    Parabéns, Liana!

    Abraço,

    Ivan

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    • 22 de outubro de 2015 em 3:53 PM
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      Muito obrigada por nos acompanhar atentamente, Ivan!

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