As mil e uma utilidades do abacaxi

as mil e uma utilidades do abacaxi

Às vezes queria comer um abacaxi pérola azedo. Deveria ter ficado feliz quando o mocinho da frutaria peremptoriamente garantiu: pérola é sempre doce. Levei dois por cinco reais, depois de passar um tempo maior que o normal escolhendo os menos batidos, menos podres, com mais daqueles odores celestes –não, não, maternais terrenos – de fruta tropical.

Aí levo para casa e como e como… Como não faz mal, como não estouram aftas, nem sei. Abacaxi é o já ganhou, é o melhor. Não tem casca, coroa à toa, faca menos boa que o desbanque.

Não ligo nem um pouco quando ele vai ficando na fruteira da casa familiar, esperando que eu chegue para cortar. Logo que chego o vejo em primeiro plano.

Não como Matisse (1869-1954), na tela que abre este post, que no calor das cores conferia mesmo valor ao tema e ao fundo. O abacaxi e as anêmonas e as folhas e a composição… Uma delícia de vermelho gustativo. A expressão que vem pela cor que deu no fauvismo. Cores fortes, puras. Uma fuga feroz da realidade e suas regras.

Um pouco como se esquecer da vida, cortando meu abacaxi. Não é uma imposição. É algo que eu conquistei. Não ria. Ninguém nunca me obrigou a descascar abacaxi. Foi uma aproximação natural. Não é, perdoe, um gostar desinteressado. Quem descasca pega a parte mais doce, aquela que cresceu bem perto da terra.

Fui me aperfeiçoando na técnica do descascar e hoje não fica nenhum olhinho para ferir a língua. Desce mais redondo que essas cervejas amargas e aguadas (comentariozinho parcial daquela para quem cerveja desce quadrada).

Estaria tudo bem se a culpa por ficar com as fatias mais doces não batesse de vez em quando. Concordo que é o prêmio instituído na inconsciência dos atos da convivência. Nem irmãos, nem mãe ou visitas reclamaram até hoje.

Pérola é sempre doce, afinal de contas. Nos dias em que a benevolência e o carinho batem, divido a mais doce das mais doces com minha mãe.  Mas, só quando estamos sozinhas porque a mais doce das mais doces não é suficiente para família toda.

Mantemos nossa ligação. O nosso cordão. E Renoir nos faz o favor de completar esse abacaxi de ligação com a terra. Às vezes é mais fácil voar com Matisse…

As mil e uma utilidades do abacaxi

Você deve estar esperando mais sobre a metáfora do descascar um abacaxi por dia. Acho que nem vou entrar para valer, não… Parto, não parto, para pieguice e deságuo na auto-ajuda dizendo que cada abacaxi que eu descasco me dá prazer, me faz mesmo esquecer dos pepinos (também gosto de descascar pepinos)?

Não dá. Já parti. Mais forte que eu. É como que se me atenuassem os problemas. Os esqueço, tomo distância, dou tempo para que eles se resolvam sem parecer que fui eu com a dor da responsabilidade. Dez formas de resolver problemas descascando um abacaxi. Podia me dar tão bem nisso. Não sei porque não me rendo a esse caminho da escrita com dogmas de como prender a atenção na internet, das palavras norteadas pelo SEO…

Poderia continuar a explanação sobre as maravilhas do abacaxi dizendo que o descascar insere-se num processo de terapia ocupacional, percebe? Tá bom. Já foi. Passou. Passou.  

Só mais uma. Só mais uma: eu venderia fantasias de abacaxi para o carnaval. A catarse do abacaxi. No final o folião, a foliã, pediria para alguém descascar porque ninguém é de ferro para cortar abacaxi sozinho a vida toda. Ainda que pérola seja sempre doce. 

Ah! A fantasia viria com uma placa: decifra-me ou devoro-te, convocando a sociedade a pensar – pensar em pleno carnaval, não sei se dá certo – sobre o mistério do abacaxi sempre doce. Porque, não querendo desconfiar da mãe natureza, mas essa história, sei lá… Tem uns tão, tão doces… Chego a desconfiar, sim, que injetam açúcar ou que o abacaxi da transgenia atingiu o pérola.

Procurei na internet, mas não encontrei nada sobre o assunto. Mas que o galo cantou, cantou. Não sei direito onde… Quem sabe no meu universo de sonhos. E no universo de sonhos que o Cícero Dias tanto recorreu em determinados momentos da vida.

As mil e uma utilidades do abacaxi

Teria o pintor pernambucano experimentado o pérola, como opção primeira no café da manhã, bem cedinho logo após o corococó do galo? E na mistura digestiva dos sentidos auditivo e gustativo teria se posto a criar, em 1940, um galo-abacaxi que ganhou um peito de casca como proteção contra um ataque de vizinho que não suporte acordar cedo? Se é coroa, se é crista a massa de tinta que ganha o espaço para fora do quadro, não, não é isso o que importa. Penso que nem sempre é bom querer classificar ou nominar.

Penso no todo, no novo, criado a partir do conhecido. Gosto da essência, sem denominação. Uma aura que envolve a criatura e que também protege, afasta do perigo. Não me atrevo a chegar perto da casca e da coroa espinhenta sem cuidado.

Empinar a crista para cantar de galo nas situações de defesa, às vezes funciona. Cada ser com seu instinto e caráter protetivo. E um na pele do outro. Casca e pena se confundem. Dureza e maciez, peso e leveza já não importam nesse que se faz como um ser outro, livre das adjetivações e… Preconceitos.

As mil e uma utilidades do abacaxi

Encaminhei o texto para esse ponto porque me lembrei de uma conversa que ouvi na fileira atrás da que eu estava, no intervalo de um concerto no Teatro Guaíra, em Curitiba.

Tem gente que acha que ir ao teatro é um abacaxi porque não tem roupa, não tem classe, tem vergonha, acha que não vai saber como se portar… Tudo balela. Vai. Para não gostar, para gostar. Para entender, para não entender. Só vai. Arte é para qualquer um, inclusive, para esse cara que falou os absurdos que vou reproduzir aqui. Na primeira frase, prestei atenção por ser um tema que sempre me incomoda nos concertos:

– Tem pouca mulher nessa orquestra, né? (Trinta homens e oito mulheres)

– Sim

– Tem até uma gorda lá.

O que faz um sujeito atentar para isso e produzir um comentário em tom tão desqualificante e jocoso? Estaria querendo lançar nuvem de fumaça em qual defeito seu? E ele continuou, dessa vez, respondendo sobre o fato do amigo ter encontrado cabelo na comida.

– E era liso? (Pensei que ele quisesse fazer uma piada sobre mastigar pentelho). Ou o nome do cozinheiro era Feijão? (Uma clara alusão, você percebeu, à cor da pessoa.)

É muito preconceito embutido em duas frases ditas em menos de cinco minutos. Da próxima vez vou levar na bolsa uma coroa de abacaxi bem espinhenta para espetar os tipos sem noção. Esses sim deveriam ter vergonha… De frequentar o mundo. Que abacaxi ter que aguentar esse povo mal resolvido.

Fotos dos abacaxis em pessoa: Karen Monteiro (com celular)

Fotos do Abacaxi-galo retiradas do site Metrópoles.

Agradeço à professora Christiane Pinheiro que me passou as fotos dos abacaxis de Matisse e Renoir. Aliás, ela tem um Canal em que fala tanta coisa legal… O Vomitando Arte é qualquer coisa…

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Deixe uma resposta