As mentiras que as fotos contam

Fiz esta imagem em 2016 e postei no meu perfil do Facebook com a legenda: “O mais difícil da foto foi levitar sobre o jacaré”.

Foi bem engraçado manter o mistério no post para acompanhar a curiosidade e teorias que sugiram nos comentários, sobre como ela teria sido feita.

O fato de uma cena real ter sido registrada por uma câmera, não implica que a imagem produzida expresse, necessariamente, uma verdade completa. Algumas imagens têm capacidade de estabelecer relações intensas com as pessoas, provocando reações como curiosidade, emoção, empatia e, claro, fantasia. E nesse mix de sentimentos, uma realidade, por vezes simples e banal, pode ser totalmente transformada por uma composição fotográfica bem feita.

Costumo falar que, para fazer uma boa foto, muitas vezes é mais importante decidir o que irá ficar de fora do quadro, do que o que irá aparecer. A melhor e mais bem-humorada ilustração para o que digo, vem dos meus ídolos Calvin e Haroldo, na tirinha que segue, desenhada pelo genial Bill Waterson:

Tenho incontáveis imagens em que o contexto real era bem menos incrível do que o resultado obtido no lado de dentro das bordas do enquadramento. Já contei aqui um desses casos no post A onda e os selfies. Tenho também, por exemplo, uma foto de um coiote em uma paisagem nevada que dá uma sensação de ambiente super selvagem. Mas a realidade por trás das câmeras era eu e mais dois amigos nos acotovelando para fazer o registro pela janela do carro, pois o bicho estava sentadinho bem ao lado de uma estrada toda enlameada.

E a foto do jacaré, acima? Desculpem-me por desapontar os amantes das grandes traquitanas e perrengues fotográficos, mas a foto foi feita de cima de uma ponte no Refúgio Ecológico Caiman, bem ao lado do carro. O cuidado maior foi deixar de fora da composição o entorno pouco atraente em que o jacaré estava.

Sou totalmente contra mentir sobre a maneira como uma imagem foi feita. Mas não acho pecado omitir suas informações menos “charmosas”. Assim, deixamos que as pessoas inventem suas próprias realidades para tudo aquilo que não foi emoldurado pela composição. E se esse mundo paralelo criado for muito mais incrível do que o mundo real, tanto melhor! Afinal, a responsabilidade já não é mais do fotógrafo. E, sim, dessas pequenas mentiras que as fotos contam.

Dados da foto
– Câmera D750 + objetiva 24-70 f/2.8 @ 70mm + polarizador
– ISO 100 + abertura f/8 + tempo de exposição de 1/10s
– Parapeito da ponte usado para apoiar a câmera.

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

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