As crianças querem brincar com a natureza, seja onde for

As crianças querem brincar com a natureza, seja onde for

Já escrevemos muitas e muitas vezes aqui, no blog Ser Criança é Natural, que a interação entre criança e natureza acontece quando elas pedem pra que isso aconteça, quando indicam esse caminho. Isso é o que dizemos também em nossas oficinas e sempre que temos oportunidade de falar de nosso trabalho e deste tema tão urgente e necessário. E afirmamos isso com total certeza porque estamos sempre atentas aos gestos, aos olhares, aos movimentos e ao corpo das crianças.

Foi assim, outro dia, com a Ana Carol, uma das autoras deste blog. Ao passar pelo corredor de um shopping, ela se deparou com a cena abaixo, que capturou rapidamente com seu celular.

Em vez de se render aos apelos consumistas de um lugar como este “templo do consumo”, duas crianças brincavam no canteiro de plantas no meio do corredor. O que não aparece na imagem são os adultos que as acompanhavam e estavam num quiosque, ali perto, conversando e envolvidíssimos em uma compra.

Ana Carol não se conteve e, logo após fazer a foto, parou para observá-los. Os meninos brincavam com bolinhas de argila expandida espalhadas pelo canteiro. Colocavam-nas nas palmas das mãos, fechavam, abriam e as bolinhas voltavam para a terra, se juntando às outras. Dali a pouco, notaram as plantas que ali estavam e a brincadeira se modificou: as bolinhas de argila os acompanharam. Os meninos as colocavam sobre as folhas e tentavam equilibrá-las. “Cai. Cai. Cai. Ficou! Ficou uma, cabe mais uma!”. E os meninos tentavam equilibrar várias bolinhas de argila entre as folhas da espécie Zamioculca.

Compra feita, os adultos “resgataram” as crianças. Pegaram-nas pela mão e seguiram pelo corredor, sem se dar conta da alegria que os acompanhava por causa daqueles minutos de brincadeira na terra, com bolinhas de argila e plantas. Com a natureza. Os adultos estavam distraídos, não prestaram atenção nas crianças, como a maioria, hoje.

O que fica desta experiência e observação? O interesse dos meninos. E isso em um local tão cheio de luzes, cores, sons chamando para o consumo. Num local pensado para o consumo, em que todos estão ali para comprar – talvez em prestações – o que for possível, comer alimentos processados ou ficar admirando as vitrines e se manter apenas no desejo de adquirir algo.

Foi na brincadeira com a natureza que os meninos se entregaram inteiros e com ela ficaram envolvidos. Investigaram, criaram, brincaram, riram. Quantas possibilidades viveram, ali!

Neste caso, o fato de os adultos deixarem as crianças brincarem sem supervisão garantiu total liberdade à imaginação. Ficamos pensando que, se um adulto nesse contexto tivesse visto as crianças indo em direção ao canteiro, provavelmente chegaria a dizer “NÃO!” ou “Saiam daí, meninos!”.

A experiência no shopping veio reforçar o que sempre dizemos em nossos textos, aqui, e ao vivo: as crianças estão nos dizendo o que elas precisam, o que elas querem. A todo momento, elas nos mostram o caminho. Por isso, precisamos estar atentos para ouví-las e observá-las, permitindo que vivam a infância em uma sociedade urbana, industrializada e tecnológica sem perder o que é essencial: o contato com a natureza.

Fotos: Annie Spratt/Unsplash (destaque) e Ana Carol Thomé (crianças no shopping)

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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