As crianças e suas reflexões sobre o futuro

Já conversamos bastante, aqui, sobre as perguntas recorrentes que nos fazem durante as oficinas que promovemos. Em sua maioria, se referem à idade perfeita para se poder fazer isso ou aquilo: se pode expor a criança à natureza, de pode subir em árvore, de pode andar descalço… E nossas respostas são sempre iguais: vão sempre na direção da observação e da escuta, de deixar as crianças serem protagonistas de suas brincadeiras, de seus movimentos, de suas reflexões e de suas ações. 

E claro que, quando falamos de escuta, falamos das vozes da Infância, que podem vir em forma de palavras, mas também por meio de gestos, olhares, desenhos, brincadeiras e outras linguagens.

Nesta semana da Greve Mundial do Clima (que vai de 20 a 27 de setembro), nós nos perguntamos e perguntamos à vocês: a partir de que idade as crianças refletem sobre seu futuro e demandam de nós ações no presente? A partir de que idade elas próprias desejam agir?

A Escola da Árvore talvez possa nos ajudar a responder essas questões. Ela é uma escola situada em zona rural de Brasilia. Distrito Federal, e tem uma posição muito clara sobre o assunto. Na semana em que as queimadas na Amazônia eram destaque nas notícias e nas conversas, e que a fumaça tomou conta do céu de parte do país, durante uma roda de conversa uma das crianças se mostrou bastante preocupada com os fatos. E como acolher essa preocupação genuína de uma criança para com um assunto tão importante?!

E a conversa proposta pela escola foi orientada no sentido de ouvir as crianças sobre “o que podemos fazer”. As crianças sugeriram falar com o presidente. Pois as educadoras que mediaram a conversa decidiram levar as crianças até a Câmara dos Deputados para falar com Rodrigo Maia e pedir que ele se comprometesse a tomar decisões pela proteção das florestas.

As crianças se organizaram, convidaram outras salas, outras escolas da região. Fizeram cartas e cartazes. Se prepararam muito bem para sua visita à Câmara.

Chegou o dia! Um dos objetivos de educadores e educadoras era mostrar que esse local é público e que todos podem entrar. E, assim, depois da vistoria na entrada, que passou suas mochilas pelo raio-X, as crianças entraram no prédio do Congresso Nacional.

O primeiro compromisso definido por eles era ir até a sala da deputada indígena Joênia Wapichana, para que ela escutasse as crianças e as ajudasse na mediação do encontro com o presidente da Câmara.

As crianças andavam pela Câmara como qualquer outro manifestante: dizendo palavras de ordem em alto e bom som. Frases que elas criavam enquanto carregavam cartazes com mensagens também elaboradas por elas.

Naquele dia, o presidente da Câmara não estava, mas a assessoria do parlamentar cuidou de fixar os cartazes nas paredes do gabinete para que ele os visse assim que voltasse.

As crianças voltaram da experiência com uma sensação de escuta e de visibilidade. Mais que falar sobre o assunto, eles vivenciaram a presença em um espaço publico, que é a Casa do Povo, onde se decide o destino da Nação. E esse sentimento foi notável entre as crianças. O vídeo abaixo revela alguns momentos dessa visita.

Nossa reflexão, neste post, é sobre como a leitura do mundo – que necessariamente passa pelas atitudes dos adultos que as cercam – leva as crianças pequenas a desejarem participar da construção desse mundo. É preciso haver espaço para que isso aconteça, para que as questões sobre como atuar no mundo estejam presentes nos adultos. E que a percepção de que somos parte do problema e também da solução seja vívida.

Questão delicada para nossa sociedade, essa, porque, ao mesmo tempo, a expressão das crianças precisa ser espontânea, verdadeira e não induzida pelos adultos. 

Rita Mendonça, uma das autores deste blog, se lembra, por exemplo, de quando a professora do 3º ano do Fundamental 1 levou sua filha e os colegas ao Jardim Zoológico de São Paulo. Natualmente, as crianças saíram indignadas da visita, comentando sobre o sofrimento dos animais obrigados a viver em espaços tão apertados e sobre o comportamento de alguns visitantes que, muitas vezes, afetavam a dignidade dos animais.

De volta para a escola, decidiram redigir uma carta ao diretor do zoológico, que a recebeu muito bem e respondeu para que as crianças pudessem ter certeza de que estavam contribuindo para a melhoria das condições dos animais e, consequentemente, para a melhoria da relação da sociedade como um todo com eles.

No âmbito mundial, temos o exemplo de Greta Thunberg que, no ano passado, aos 16 anos, iniciou sozinha um movimento de ativismo na porta do parlamento sueco, que ficou conhecido como Fridays for FutureSextas-feiras pelo Futuro – e se espalhou pelo mundo, agregando milhares de crianças, jovens, adultos e outros movimentos.

Em meio a esse cenário, nós, do programa Ser Criança é Natural, queremos saber: como estão as crianças próximas de você? Elas têm demonstrado preocupação com este assunto?! Como você está mediando conversas sobre esse tema na escola?

Quem vai se envolver participando de alguma ação na semana da Greve do Clima? O que você, educador/a pretende fazer para participar deste movimento? Como vai expressar seu desejo de que suas crianças tenham um futuro saudável, equilibrado e feliz, ajudando a garantir a existência de um planeta saudável, equilibrado e feliz?

O que você faz para se certificar de que você está sendo um bom ancestral?

Fotos: acervo da Escola da Árvore, Brasilia/DF

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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