As cores da Mocidade

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Não sou muito chegado em falar das dificuldades de fotografar ambientes naturais. Prefiro falar dos prazeres, para tentar estimular as pessoas a buscarem suas próprias experiências e, assim, se aproximarem mais da natureza.

Por outro lado, quando algum desejo ocupa minha cabeça, não desisto se não sentir que se esgotaram todas as possibilidades. E este causo está relacionado a uma dessas minhas teimosias.

Há cerca de cinco anos, venho conversando com o ornitólogo e grande amigo Mario Cohn-Haft sobre sua vontade de promover uma expedição de pesquisa científica para a Serra da Mocidade. Essa é uma região montanhosa bastante isolada e inacessível no Estado de Roraima, com território dividido entre um parque nacional, uma reserva do Exército e uma Terra Indígena Yanomami. Justamente por seu isolamento, suscita tanto interesse científico, com grande potencial para descobertas de novas espécies.

Apesar da extrema complexidade logística para essa empreitada, há alguns meses uma parceria entre o INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o CMA – Comando Militar da Amazônia, o ICMBio – Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade e a Grifa – produtora de cinema interessada em produzir documentário sobre a expedição, tornou possível este improvável sonho de levar um grande time de pesquisadores para estudar a Serra da Mocidade.

No meio disso tudo, tive o imenso privilégio de ser convidado para fazer a documentação fotográfica da expedição. E por conta da minha quedinha por fotos de paisagens, comecei a elucubrar meus próprios sonhos de como registrar o fantástico relevo montanhoso da região.

Durante os voos no imenso helicóptero Cougar do BAVEX – Batalhão de Aviação do Exército para as duas bases de pesquisa estabelecidas na serra, foi possível registrar algumas imagens interessantes das montanhas. Mas ainda sem ter a luz ideal e a possibilidade de executar a foto com o tempo e o cuidado que eu gostaria.

Quando fomos para a base mais alta, na proximidade dos cumes, iniciei uma busca por algum mirante natural que tivesse vista para o conjunto de picos da área Yanomami, onde está o ponto culminante da serra. Para meu desespero, a floresta alta só expunha algumas pequenas porções da paisagem. Até que encontrei uma fresta um pouco maior numa encosta íngreme, com uma árvore emergente que me chamou a atenção: imaginei que se subisse na altura da sua copa, finalmente poderia fazer a foto desejada.

Pedi ajuda ao Zé Adailton, escalador de árvores da equipe de botânica, e armamos uma corda para a subida. Quando vi que a vista era realmente a desejada, instalamos uma pequena plataforma para poder apoiar um tripé (foto abaixo). Então, esperei por uma noite com clima favorável, iniciei a subida para o mirante às 4h30 e, enfim, ao amanhecer, tive a vista dos cumes com a luz desejada.

De fato, não gosto muito de histórias de dificuldades. Mas é bom demais pensar que foram necessários helicóptero, mateiros, dias de busca, escaladas em árvores e uma caminhada noturna num lugar isolado para que, de alguma forma, eu pudesse realizar o desejo de registrar a Serra da Mocidade nas suas melhores cores.

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A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

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