Catrinas: as caveiras prostitutas, benzedeiras, empresárias

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Farei o possível para que seja leve. Mesmo porque caveiras são livres de adiposidades. Se bem, que essa história de morte como personagem hoje já não assusta ninguém. Catrinas, a bem da verdade, nunca assustaram. Mais brincam com a morte do que outra coisa. São uma caricatura, como a do célebre gravador e ilustrador mexicano, José Guadalupe Posada (1852-1913). Ele é o inspirador dessa febre pop de Catrinas espalhadas pelo mundo.

A morte, essa senhora engraçada de chapéu, brinca com o povo mexicano, mas carrega nos ombros mensagens sociais e políticas. Pelo menos, a de Posada. Com a primeira Catrina, o artista entre alfinetava e tirava um sarro da população mexicana, de origem indígena, que tentava imitar o padrão europeu com as roupas e a maquiagem.

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Posada vestiu uma caveira de forma elegante. Essa mesma caveira a quem os mexicanos se referem quando querem dizer que alguém está minguando sem um tostão nem para comer.

No quadro Sonho de uma Tarde Dominical, o pintor mexicano Diego Rivera também encontrou uma Catrina infiltrada. Ela sempre está. Não há como fugir, você sabe. De repente, um encontrão. De contradição em contradição, o artista a imortalizou a morte no seu mural, ao lado da esposa Frida Kahlo.

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Não duvido que tenha flertado com ela. Não sou eu quem diz. É a própria Frida quem reconhece o encantamento provocado pelo marido nas mulheres. “Fosse ele ainda mais feio, o meu Diego, mais ainda elas o amariam. Jamais conheci alguém que manejasse tão bem quanto Diego a arte da contradição, saindo-se sempre bem, como estrela. Artisticamente, politicamente, na vida de todo dia, estava sempre por cima. Pirueta man”, resumia Frida, ela também uma rodopiante que circulava entre a vida e a morte, tonta de anestesias entre uma cirurgia e outra na coluna vertebral. Uma, duas, três… Sete!

Uma politizada Catrina, ouso dizer. Uma Catrina que resgatou o México, que não seguiu padrão imposto, a não ser o da dor e sofrimento. E não teve medo de pintar a morte, espelhada na vida.

As Catrinas de hoje fantasiadas de beleza sem graça me dão um certo tédio. Aquele sorriso esteticamente costurado, aquele colorido padrão, aquelas belas roupas espalhadas pelo comércio que roda por aí a procura de algo para encampar e transformar em lucro…

La Catrina brand had an artist paint the images to be repoduced with digital print on shrink sleeve labels

Curitiba não ia ficar de fora. Também ganhou uma exposição fotográfica sobre Catrinas, no Museu da Imagem e do Som. É a mostra “De Perséfone a Catrina: A Mulher e seu Destino“. Perséfone, deusa da terra e da agricultura na mitologia grega. Reina no mundo infernal e detém os segredos das trevas

São Catrinas com várias profissões. E emoções.

As fotos são de Cida Demarchi. Valem pela proposta e intenção. Falam das imposições que a mulher sofre. Desrespeito, dor e violência. Dados daqueles alarmantes. Coisas que precisam ser repetidas à exaustão: a violência doméstica é responsável pela morte de cinco mulheres por hora no mundo, mostra a ONG Action Aid.

A informação é resultado de análise do estudo global de crimes das Nações Unidas e indica um número estimado de 119 mulheres assassinadas diariamente por um parceiro ou parente. Já se chama de feminicídio, me conta Ludmila Nascarella, que é uma das Catrinas, na foto abaixo.

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A atriz , que se deixou fotografar como prostituta, atua na ONG Liberdade. A instituição defende o direito de mulheres que muita gente prefere, descaradamente, que não tenham direitos. A ONG desempenha um papel difícil: lutar pelos direitos de mulheres que a sociedade dá as costas.

Devem estar fazendo mais para prevenir o HIV nas mulheres do que muito órgão de saúde. São 30 mil prostitutas em Curitiba. Filiadas à Liberdade, 5 mil. Todas tendo que driblar os machos que insistem em transar sem preservativo.

Só mandando a Catrina benzer essa gente que gosta de julgar sem estar na pele. Pode ir na dona Midu Demarchi, benzedeira e uma das modelos da exposição curitibana.

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E no meu último suspiro nesse texto, aproveito para deixar uma mensagem que ajuda a criticar menos e entender mais o próximo.

Termino com uma frase de Posada: “A morte é democrática, já que no final das contas, loira, morena, rica ou pobre, todo mundo acaba mesmo como caveira”.

O que resta de nós bem podia servir de adubo para plantar ideias menos contaminadas pelo padrão moral vigente que reproduz a mesmice preconceituosa, responsável pela violência.

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Exposição “De Perséfone a Catrina: A Mulher e seu Destino”
Data
: até 28 de novembro
Horário: terça a sexta-feira,  9h às 18h. Sábados e domingos, 10h às 16h
Local: Museu da Imagem e do Som do Paraná
Endereço: Rua Barão do Rio Branco, 395, Centro, Curitiba
Entrada:  gratuita

Fotos: Cida Demarchi

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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