As 26 pessoas mais ricas do mundo têm a mesma renda que 3,8 bilhões de pobres

Como sempre faz, na véspera da reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, hoje, a Oxfam divulgou seu relatório com dados atualizados sobre concentração de riqueza.

O fórum reúne líderes mundiais de áreas diversas como chefes de governo, executivos de empresas globais, líderes de organizações internacionais e de ONGs, líderes culturais, sociais e do pensamento, além de jovens e pioneiros da tecnologia. Nada mais propício do que “jogar na mesa” do encontro os dados vergonhosos sobre a desigualdade no mundo.

Intitulado Bem Público ou Riqueza Privada, o documento se refere ao ano de 2018, quando os ricos ficaram ainda mais ricos e os pobres ainda mais pobres. Novidade? Não! Mas essa situação passou do limite da indecência.

Não é possível aceitar que as 26 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo que 50% das mais pobres ou 3,8 bilhões de pessoas! Com um detalhe: em 2017, era necessário reunir 43 super ricos para chegar a esse mesmo montante, e, em 2016, 61 pessoas, o que prova o aumento da acumulação de riqueza.

O dinheiro acumulado por 2.200 bilionários em todo o mundo aumentou cerca de US$ 900 bilhões, o que significa US$ 2,5 bilhões por dia. A riqueza destes cresceu 12% em relação ao ano anterior, enquanto que os mais pobres perderam mais 11% sobre o que tinham.

O relatório revela também que continuamos criando um novo bilionário a cada dois dias, como em 2017. Nos últimos dez anos – desde a crise financeira de 2007/2008 -, o número de bilionários quase dobrou: foi de 1.125 em 2008, para 2.208 em 2018. O Brasil, segundo dados da revista Forbes (usados pela Oxfam), tinha 42 bilionários, que acumulavam cerca de US$ 176,4 bilhões.

O homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, CEO e proprietário da Amazon (entre outros empreendimentos), hoje, tem uma fortuna avaliada em US$ 112 bilhões. Para se ter ideia do quanto esse número é surreal, basta dizer que o orçamento de saúde da Etiópia (que tem 105 milhões de habitantes) representa 1% dessa fortuna.

Pior: parece que Bezos não sabe o que fazer com tanta riqueza, então investe em pesquisas espaciais. É revoltante! Que tal doar boa parte de seu dinheiro para projetos humanitários? Ou liderar uma campanha para que os super ricos como ele paguem impostos justos? A sonegação custa aos governos cerca de US$ 7,6 trilhões no mundo. Esta é a grande bandeira da Oxfam para driblar o resultado do seu novo relatório.

O diretor de campanhas e política da instituição, Matthew Spencer, salientou, ao jornal britânico The Guardian, que “a forma como nossas economias são organizadas promovem o crescimento e a injusta concentração da riqueza entre poucos privilegiados, enquanto milhões de pessoas subsistem. Mulheres morrem por falta de cuidados na maternidade e às crianças é negada a educação, que seria a única saída viável da pobreza”. E ainda afirmou que o cenário não precisava ser esse já que há riqueza suficiente no mundo para garantir a todos oportunidades para uma vida justa.

A grande questão é que os mais ricos não são taxados devidamente, o que colabora para aumentar tal abismo. Segundo Spencer, apenas 0,5% de imposto sobre as fortunas de apenas 1% dos mais ricos seria suficiente para garantir a educação de 262 milhões de crianças que não vão à escola, no mundo, hoje. Também ajudaria a salvar a vida de 3,3 milhões de pessoas com assistência medica. Todos os dias cerca de 10 mil pessoas morrem por falta de cuidados de saúde.

Assim sendo, os governos devem agir para garantir que os impostos sobre a riqueza particular e também os lucros das grandes empresas sejam cobrados e usados ​​para financiar serviços públicos gratuitos e de boa qualidade. No relatório, está provado que muitos governos só pioram a desigualdade porque não fazem nem uma coisa, nem outra.

Nos países ricos, a taxa média do imposto sobre a renda caiu 24% de 1970 (era 62%) a 2013 (38%). Nos países em desenvolvimento, essa taxa é de 28%. No Brasil, proporcionalmente, os 10% mais pobres pagam muito mais impostos do que os 10% mais ricos. “É um dos países mais desiguais do mundo!”, disse Winnie Byanyima, diretora-executiva da Oxfam, que ainda destacou: “A desigualdade está fora do controle. Está enfraquecendo democracias”.

O economista Thomas Piketty, que co-escreveu o relatório da Oxfam, propôs a criação de um imposto sobre a riqueza global como uma das medidas para conter a tendência à desigualdade. Essa poderia ser uma das pautas do Fórum Econômico Social, não? Está mais do que na hora de deixar a hipocrisia de lado.

De qualquer forma, o encontro deste ano não contará com as presenças de Donald Trump, dos Estados Unidos, de Emmanuel Macron, da França, e de Theresa May, da Inglaterra, que desistiram de ir a Davos por conta de problemas internos. Ah, e eles vão aumentar se o mundo continuar tão desigual…

Abaixo, assista ao vídeo da Oxfam, que destaca os principais pontos do seu novo relatório:

Foto: Billycm/Pixabay

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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