As árvores e o universo em suas cascas

Lisas, rugosas, frias, mornas, grossas, finas, com espinhos, descamantes, coloridas, tom sobre tom, esverdeadas, avermelhadas, macias. Estas são algumas características sentidas e observadas em diversas espécies de árvores diferentes. As cascas são como a “pele” das árvores e dizem muito sobre a relação de milhares de anos construída com o ambiente natural onde vivem. Na casca acontecem muitas trocas e interações das árvores com o meio onde vivem. Nela podemos encontrar outras plantas, insetos, outras árvores, parasitas, líquens, mamíferos, aves, musgos.

Como humanidade, por meio das cascas das árvores temos obtido uma grande diversidade de subprodutos: úteis na forma em que se encontram ou processados para se obter compostos mais essenciais e servir como base de medicamentos. As cascas realmente são como o universo.

Você já sentiu ou observou a casca de uma árvore? Qual foi a última vez que você tocou e observou com proximidade esse incrível microcosmo?

É nítida a diferença de vida encontrada em uma casca de árvore habitante de uma floresta ou de uma reserva natural em comparação com a grande maioria das cascas de árvores em ambientes urbanos. Nas árvores de casca rugosa, é mais fácil perceber a resistência da natureza mesmo em ambientes menos biodiversos como os das cidades. Por manterem mais umidade e acumularem mais resíduos por entre as frestas, é comum encontrar – nas árvores com esta característica – samambaias-grama e também musgos em sua face menos ensolarada.

E quer ver? As pessoas que vivem nas grandes cidades têm se envolvido cada vez mais no processo de enriquecimento da diversidade do universo dessas cascas. Elas recolhem orquídeas doadas pelo comércio e moradores da região para fixá-las em árvores nos jardins dos prédios ou nas calçadas. São diversas espécies epífitas que não prejudicam as árvores em nenhum sentido e adaptam-se com facilidade fixando suas raízes aos poucos.

Na parte do universo correspondente aos animais, passarinhos cuidam da disseminação de sementes de outras árvores como as chefleras (Schefflera arboricola) ou as figueiras, mais comumente encontradas crescendo nos troncos. Mas também a famosa erva-de-passarinho, uma hemiparasita – retira seiva bruta da planta hospedeira, mas faz sua própria fotossíntese. A disseminação desta espécie é um reflexo inclusive da pouca diversidade de alimento que há para as aves nas cidades. Outras aves passam boa parte do tempo se alimentando de insetos presentes nas cascas, como o pica-pau e a corruíra. Diversas espécies de primatas e também as lindas preguiças, aqui no Brasil, são os mamíferos que mantêm relação mais íntima com as árvores, principalmente por viverem agarrados em suas cascas.

Reparar nas cascas com atenção e abertura para a inspiração na natureza! Pode ser uma viagem criativa muito especial. Tem casca que lembra as camuflagens de roupas, composições de tonalidades incríveis, em outras você consegue notar linhas e marcas de crescimento. Onde os pontos de esforço e adaptação são formados para sustentar a estrutura dos galhos, percebemos um enrugado que lembra dobras da nossa pele. Bem perto da casca flui a seiva da vida da árvore, por isso, quando há uma ferida ou ponto de entrada de inseto, vemos a seiva escorrer.

Por meio de sua casca, a árvore também troca gases e, estimulada pela temperatura do ambiente, marca o período para sua floração e frutificação. Observar a casca de uma árvore é conectar-se com o estado natural da espécie. Então, muitas vezes me pergunto por que as pessoas querem ‘vestir’ as árvores da mesma maneira que vestem animais domésticos? Vejo muitas árvores na cidade de São Paulo, por exemplo, ‘vestidas’ de crochê. É bonito de se ver, sim! Mas alguém já se perguntou se isso interfere na existência da árvore? Ele poderia ser aplicado em inúmeras outras superfícies…

Eu mesma tive a oportunidade de notar essa influência. Era começo do inverno, ocasião do ano quando os ipês começam a perder suas folhas e a florescer. No ciclo anual da árvore, esse momento é estimulado pelo clima diretamente, tanto que observamos florações mais ou menos intensas, dependendo de como tem sido o clima: quanto mais seco, mais frio, mais flores.

E não é que, naquela rua, com um ipê ao lado do outro formando uma alameda linda, encontrei uma das árvores coberta de crochê? E foi fácil perceber a diferença entre ela e os demais ipês. Todos já estavam sem folhas e com brotações de novas flores, enquanto que a árvore ‘vestida’ não. Ela estava totalmente folhada, como se não estivesse captando os dados daquele momento climático da mesma maneira que suas irmãs da mesma espécie.

E este relato pode ser o ponto de partida para diversas reflexões. Por que queremos ver as árvores vestidas? De alguma forma. queremos tirar a naturalidade da sua existência, assim como era muito comum passar cal na base dos troncos e pedras.

A diversidade e a relação única de cada casca de árvore com o ambiente é um reflexo da relação profunda do indivíduo com o local que habita. Denota particularidades do tempo de sua existência, exibe marcas e expressões naturais, traumas ou, até mesmo, lembranças de um encontro com outra espécie. Então, faça questão de sentir e apreciar a casca das árvores no seu próximo encontro com elas, depois me conte.

Fotos: Juliana Gatti

Mestranda na área de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, sua pesquisa dedica-se a avaliar a influência da natureza na qualidade de vida de crianças e sociedade. Idealizou o Instituto Árvores Vivas em 2006, onde promove ações de conexão com a natureza por meio de apreciação, restauração e fomento da cultura ambiental.

Juliana Gatti

Mestranda na área de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, sua pesquisa dedica-se a avaliar a influência da natureza na qualidade de vida de crianças e sociedade. Idealizou o Instituto Árvores Vivas em 2006, onde promove ações de conexão com a natureza por meio de apreciação, restauração e fomento da cultura ambiental.

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