Árvores, o que aprendo quando saio para observá-las

Sempre que posso, gosto de sair para apreciar o bairro. Para mim, isso chega a ser uma necessidade, especialmente nos dias em que me sinto meio baixo astral ou preocupada. Apreciar o bairro. Simplesmente olhar, observar, levar os olhos para passear. Mas, olhar o quê?

Outro dia, me dei conta: olhar as árvores! Sim, reparei sem querer que meus olhos sentem uma atração natural por elas. Seguem-nas pelas ruas, praças, bosques. Reparam nas flores, nas copas, nas cores e texturas dos troncos, nos tantos tipos de folhas, no design inteligente das sementes. Meus olhos não param muito diante de edifícios. Também não perdem tempo medindo pessoas, quintais alheios, carros ou coisas quaisquer. Meus olhos vibram mesmo é com as árvores. E são tantas e de tantos jeitos que bastam poucos minutos para me sentir privilegiada, grata, contente, pacificada.

Árvores são como seres mágicos, as grandes senhoras da cidade, matriarcas reinando há décadas, algumas há mais de século. Já pensou se elas pudessem falar? Talvez relatariam com tristeza o descaso pelo verde nas cidades. Diriam, amarguradas, que são meras sobreviventes. Ou, quem sabe, contariam sobre como muitos rios perderam seu desenho natural para grandes avenidas que, não por acaso, enchem d’água nas chuvas de verão.

Mas não. Em vez disso, nas praças, são as árvores que fazem a sombra deliciosa para as crianças brincarem, que deixam o moço do picolé descansar entre uma venda e outra, que fazem os enamorados perderem ainda mais a noção do tempo, mas não o prazer do espaço.

São elas que, com sua majestade, recebem as novas gerações de passarinhos a cada estação, abrigam famílias de esquilos, alimentam abelhas, morcegos e tantos bichos de tantos tamanhos e destinos. São elas, ainda, que atravessam o solo em raízes robustas, que traçam caminhos até o tesouro das águas subterrâneas. Em silêncio.

Elas não saem por aí dizendo ao mundo que são incríveis, fantásticas, fundamentais à vida. Embora sejam. Não fazem discursos nunca, mas chegam a portar, involuntariamente, cartazes de quem promete trazer o amor de volta em três dias, curar vícios, alugar bom imóvel, oferecer emprego bacana ou ser um bom representante do povo nas câmaras governamentais.

As árvores, veja só, têm uma paciência invejável. Ouvem e absorvem tudo com absoluto respeito, sem nunca retrucar. Enfrentam secas e tempestades, podas infames, emaranhados de fios elétricos, ignorâncias e desprezos. Elas têm, sobretudo, uma das qualidades mais lindas e admiráveis de um ser: a capacidade de se manter no mais irretocável prumo, mesmo diante das adversidades, das chateações e frustrações, das falas ofensivas, dos abusos e atrocidades. Têm a coragem de ser quem são o tempo todo, independentemente das ações do outro.

Elas jamais são menos generosas por isso ou aquilo. Entregam-nos benesses o tempo todo! Purificam o ar que poluímos, devolvem abundância onde reina a escassez, refrescam a terra de quem impermeabilizou tudo e todos. Ofertam alimento e abrigo do sol a quem só enxerga folhas sujas nas calçadas.

Ah, as árvores…. Quantos ensinamentos! O mundo despencando e elas, firmes. As pessoas rosnando umas com as outras e elas em total tranquilidade e compaixão. As incertezas se multiplicando e elas distribuindo sementes, sem nenhum sinal de medo do amanhã…

Quando eu, um dia, crescer, quero ser árvore de mim mesma. Quero assistir e agir no mundo sem amar menos, sem vacilar na esperança, sem sofrer o inverno ainda no outono. Porque elas, sim, são majestades inspiradoras. Não os falsos poderosos que reinam para seus próprios bolsos e corjas estúpidas.

É por isso que preciso, com frequência, sair para apreciar a cidade e suas árvores. Para lembrar que, mesmo no aparente caos do trânsito e do vai-e-vem das pessoas que caminham empurradas mais pelo relógio do que pelos sonhos, posso calibrar meu olhar – e meu coração – para enxergar além do que os telejornais (e agora as redes sociais) dizem “ser” o mundo.

Para retirar rótulos das pessoas. Empresários. Refugiados. Banqueiros. Desempregados. Mães. Gays. Menores infratores. É tudo gente. Como os angicos, as sibipirunas, os manacás, araucárias, ipês, jatobás, abacateiros, guapuruvus, tipuanas, amoreiras, samaúmas e jequitibás. E gente pode se inspirar em árvores, por que não: descobrir quando é tempo de germinar, de aquietar, de ter força para encarar a dor, de acolher, de dar suporte ao outro e de expressar a plenitude que a vida de todos nós merece. Hoje, e sempre e tanto.

Foto: Glauber Sampaio/Unsplash

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

4 comentários em “Árvores, o que aprendo quando saio para observá-las

  • 29 de agosto de 2018 em 1:59 PM
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    GIULIANA , LINDO TEXTO! COM ALMA, ALMA DE ÁRVORE. IDENTIFICO -ME COM ESSE OLHAR AMOROSO SOBRE AS ÁRVORES. O DIA NÃO É LEGAL SE NÃO ANDAR PELO MEU BAIRRO E VISITAR AS ÁRVORES AMIGAS. QUISERA EU PODER DAR CARINHO A ELAS, CUIDANDO, VENDO SE NÃO EXISTEM DOENÇAS OU CUPINS. VIVO A VIDA INTEIRA NESTE BAIRRO ARBORIZADO QUE É A LAPA CITY. ERAM MILHARES DE ÁRVORES E A CADA DIA ESTÃO DIMINUINDO. GOSTARIA QUE TIVESSE UMA ASSOCIAÇÃO DE VOLUNTÁRIOS QUE CUIDASSE DELAS. COM CERTEZA, EU FARIA PARTE. OS SERES HUMANOS ESTÃO CEGOS. A VIDA VEM DA NATUREZA E NÓS FAZEMOS PARTE DELA. OBRIGADA. VALEU! ! !

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    • 30 de agosto de 2018 em 3:30 PM
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      Lire, muito obrigada por suas palavras. Que nosso amor pelas árvores possa formar uma rede de proteção cada vez maior e mais forte. Um grande abraço pra você!

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  • 29 de agosto de 2018 em 9:11 PM
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    Suas palavras são tão sincrônicas com o que sinto e tenho vivido ( de ir morar em comunidades…de sair de comunidades…de encontrar nas árvores a lindeza no meio do caos das cidades…). Seus textos são aquela xícara de chá para uma boa noite de sono :) Que sempre tenham árvores pelos seus caminhos.

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    • 30 de agosto de 2018 em 3:32 PM
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      Olá, obrigada! Que você sempre encontre (e possa apreciar) árvores pelo caminho também!

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