Artista denuncia crimes contra LGBTs

   

Minha mãe, concentrada nas palavras cruzadas, atira essa:

– Filha, quem protege o papa?

– Ai mãe… Deus? A máfia?

– A guarda suíça.

Perguntas que, nós, jornalistas, não conseguimos responder – não adianta disfarçar – nos deixam sempre um tanto indignados. Gente dessa nossa laia sempre acha que precisa saber tudo. E quando não sabe, tenta algum comentário inteligente para garantir o patamar da não ignorância.

E lá fui eu garantir o meu, levando a discussão para algo mais profícuo, na minha opinião…

Quem deveria ser protegido pela guarda suíça – já que a brasileira nem com reza brava faz o seu papel – deveriam ter sido os pobres brasileiros, como aqueles lembrados pelo artista paulista, residente em Curitiba, Eduardo Barbosa na sua obra LGBTFOBIA/CALENDÁRIO.

Ele pesquisou casos de assassinato e violência contra a população de Lésbicas, Gays, Bissexuais Travestis e Transexuais (LGBT) no Brasil. Esse nosso Brasil cordial e carnavalesco que hoje ocupa o amargo e vergonhoso título de país que mais mata pessoas LGBTs no Mundo.

Ele fez um triste e doloroso calendário que pendurou, primeiramente, nas paredes do MusA – Museu de Arte da UFPR, e agora, no Solar do Barão, ambos na capital paranaense.

A intenção é dar visibilidade ao número estarrecedor de mortes. De janeiro a outubro de 2017, foram contabilizados 335 assassinatos de pessoas por Lgbtfobia. É cruelmente absurda a maneira como essas mortes acontecem. Tortura e mutilação (Sim! Tortura e mutilação!), antes da morte, não são raras.

Em cada gravura, Edu colocou as iniciais do nome da vítima, a idade, orientação sexual ou identidade de gênero, a causa da morte, o local onde ocorreu o crime e a data do assassinato.

“Este trabalho é um panorama triste da realidade brasileira, em que, em média, uma pessoa LGBT é assassinada a cada 25 horas. É também uma resposta ao levante conservador que contamina a população com discursos impregnados de ódio, que a todo custo quer calar nossa voz. Nós, pessoas LGBT, resistimos e não nos calaremos frente à violência e a injustiça. Que esse trabalho seja recebido como um grito de denúncia, em meio à mancha de sangue que aumenta a cada dia no solo brasileiro”, afirma Edu, no seu texto sobre o trabalho.

A obra faz parte das exposições do Circuito Universitário da Bienal Internacional de CuritibaCUBIC 3.

A proposta era que, para cada LGBT assassinado no Brasil no ano de 2017, uma gravura fosse feita. As informações foram colhidas do banco de dados online “Quem a homotransfobia matou hoje/ Quem a homofobia matou hoje?”, que reúne casos de LGBTfobia no país e os disponibiliza para a população.

Algumas gravuras, o artista fez com base na foto do assassinato, outras, sem fotos, foram construídas a partir do relato da cena do crime.

Cada gravura foi concebida a partir de uma matriz de isopor. Nem gosto de isopor porque a reciclagem é um problema, mas, nesse caso, o uso está mais do que justificado. Você nem imagina como ele trabalhou o isopor… Nem foi com buril, por exemplo, aquela técnica que os estudantes aprendem na faculdade… Ele preferiu usar agulha de costura. Agulha, diz ele, para conseguir efeitos mais delicados na gravação dessas cenas tão brutais. Agulha, acho eu, para deixar gravado, para não contornar a memória da dor de tantos que sofreram na carne a opção. Agulhas enfiadas no frágil isopor rasgam como facadas, doem como punhais, dilaceram como navalhas.

Edu escolheu o isopor por várias razões: as principais são o custo e a razoável facilidade de trabalhar a imagem na matriz. Ele teve apenas um mês pra realizar o trabalho. O material foi determinante para que tudo acontecesse. Além do mais, esteticamente, o isopor tem uma visualidade que agrada o artista. Ele acredita que seria impossível fazer um trabalho tão grande numa matriz mais tradicional em curto período. Algumas obras foram feitas em embalagens recicladas que ele reuniu por aí. Depois da impressão, todas as matrizes foram descartadas.

“Joguei tudo fora porque cada gravura pretende-se única, elas representam uma vida tirada, então, não gostaria de que fossem reproduzidas posteriormente.”

Vidas únicas, manchadas de sangue, esquecidas pelas guardas protetoras do céu e da terra. Nomes quaisquer. Gente qualquer. Que não dá enunciado de palavra cruzada. Só recebe mesmo fogo cruzado, de todo lado.


CIRCUITO UNIVERSITÁRIO DA BIENAL IINTERNACIONAL DE CURITIBA – CUBIC 3

Data: até quarta-feira, 25/02
Horário:
terça a domingo, 9h às 12h  e 13h às 18h
Local:
Museu da Gravura, Solar do Barão
Endereço: Rua Carlos Cavalcanti, 533 Curitiba
Ingresso gratuito

Fotos: divulgação/Felipe R. Pacheco

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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