A arte de seduzir os ramos

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Ou seduzimos ou somos seduzidos. Não há saída neste mundo de entretenimento e atrações.

Entre certezas e dúvidas, até os ditados repetidos pela minha avó caem por terra. E pau que nasce torto pode se endireitar. Se o ramo for bem orientado e enxertado os brotos podem procurar mais do que o sol. Acabam se rendendo a moldes no formato de móveis. Encantam-se com  o ajuste à forma e geram um sem fim de ideias que nos fazem rever conceitos e nos cativam  a procurar  outros caminhos.  A arte de seduzir a natureza a tomar essa direção que pode ajudar a não degradá-la já levou o ambientalista inglês Gavin Munro a plantar três mil cadeiras, mesas, luminárias.

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Isso aí: o processo de fabricação dele é o plantio. Não derruba nada. Essa lógica invertida era arte no começo. E virou negócio. O preço de uma luminária é 4 mil reais, mas Munro espera que os valores caiam quando houver aumento da produção. Ele estima que use 25% da energia necessária para produzir uma cadeira de madeira, comparando-se com os meios convencionais.

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Em vez de cultivar árvores para cortar e reduzir a pedaços menores e, em seguida, colar e juntar tudo nesses processos repetitivos que a civilização atual inventou e que cheiram a neurose e destruição, ele pegou a contra mão da indústria. Questiona esse pessoal que insiste em nem pensar muito sobre a mudança dos seus mecanismos de funcionamento…  Uma vez moldado, conta Munro, o tronco engrossa e amadurece, sem qualquer apoio, por um período mínimo de seis anos.

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O que o artista americano Joseph Kosuth, lá em 1965, diria disso? Uma foto da cadeira na parede. A mesma cadeira ao vivo e em cores. A definição do que é uma cadeira tirada do dicionário e pregada na parede. “Uma cadeira e três cadeiras” é a obra mais conhecida de Kosuth e do movimento de arte conceitual como um todo. O artista falou um óbvio que não se falava…

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Uma cadeira pode ser três coisas: um objeto, sua imagem e sua definição. Qual delas é mais importante? Essa é a questão crucial. Alguma é mais real ou essencial que a outra? Para quem não conhece um objeto que está distante, a foto dele pode ser mais importante do que o objeto. Ou não? A leitura de um verbete que não conhecemos pode ser imprescindível em determinada situação. Tudo tem sei lá quantos lados. Digo até que na dança dos significados e das ideias pode haver mais do que três lados.

Então, que uma cadeira passe a ser um objeto feito de madeira que não foi cortada, nem reciclada. Algum dicionário bem que poderia dizer isso no futuro… E ela até poderia ocupar o lugar de maior importância. Várias dessas cadeiras nas casas, nos escritórios… Tá bom… Leva para praia também… Acho que Kosuth iria gostar dessa minha explanação sustentável. Afinal, quem não hierarquiza voluntária ou involuntariamente coisas, sentidos, objetos e pessoas para conseguir levar a vida? Rever essa hierarquização é que é a chave. Mais do que a chave, é o caminho possível para a terra sobreviver a essa doença que ela contraiu, segundo o Stevecutts.

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Ai. Ai. E agora? Essa sua cara de assustada, Terra querida… Então você está com humanos? Sim. Certo. Com 7 bilhões de humanos reproduzindo-se sem questionar muito tempo e espaço. Sem parar muito para pensar. Sem sentar para refletir que fartura para uns, pode significar fome e miséria para outros que não têm lugar à mesa. E muito menos na dança das cadeiras em que a sedução do jogo político acena com cargos e favores.

Imagens: Divulgação

 

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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