Áreas protegidas: o mais importante instrumento já criado para conservar a natureza

Áreas protegidas: o mais importante instrumento já criado para conservar a natureza

Protected areas, áreas protegidas, areas naturales protegidas, aire protégée. O termo é o mesmo em diversas línguas e em qualquer lugar do mundo ele designa o mesmo conceito: uma área de preservação da natureza.

Para Cláudio Maretti, um dos maiores pesquisadores e cientistas brasileiros, essas áreas são essenciais para a conservação da biodiversidade do planeta. “As áreas protegidas são o mais importante instrumento que a humanidade já criou para conservar a natureza, a sua biodiversidade e para permitir o acesso da sociedade aos benefícios dela, através do turismo, da pesquisa, do uso sustentável de recursos naturais, e sobretudo, dos serviços que os ecossistemas prestam para a sociedade”.

Ex-presidente do Instituto Chico Mendes De Conservação Da Biodiversidade (ICMBio), Maretti é atualmente vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) para América do Sul, e coordenador do III Congresso de Áreas Protegidas da América Latina e do Caribe, que acontecerá entre 14 e 17 de outubro, em Lima, no Peru.

Em entrevista ao Conexão Planeta, Maretti falou sobre como áreas de proteção são uma importante fonte de geração de renda para economias locais e nacionais, deu exemplos de como isso já é realidade no Brasil e ainda, de que acredita que, ao contrário do que a atual governo pensa, nosso país pode ter mais Unidades de Conservação.

“A ciência tem demonstrado que precisamos de mais para a proteção das espécies, da biodiversidade e dos serviços para a sociedade”, afirma.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Muitos governos enxergam áreas protegidas como entrave ao desenvolvimento econômico. Como esta mentalidade pode ser mudada?
As áreas protegidas no Brasil, chamadas de Unidades de Conservação (UCs), têm impacto positivo, e inclusive, já comprovado. Mas há uma sensação de que este impacto é negativo em função de interesses específicos, que são contrariados. O valor da natureza é demonstrado cientificamente, mas quem ganha com isso é a sociedade, de forma dispersa.

Na medida que desmatamos e construímos uma barragem, instalamos um resort turístico em um lugar onde antes havia uma floresta ou um rio, os benefícios são específicos. As áreas protegidas são o melhor instrumento de preservação da natureza. E a natureza precisa ser valorizada pelos serviços ecossistêmicos que ela presta. A mudança de mentalidade depende de usarmos, cada vez mais, comprovações científicas e dados econômicos, mas o fundamental mesmo é o envolvimento da sociedade.

Qual o poder real da sociedade?
Quando se tem a sociedade engajada e envolvida, ela convence as autoridades do contrário. Isso já ocorre em muitas situações e países. Por isso precisamos continuar nessa luta.

Para mim, a resposta para como podemos mudar a mentalidade atual seria: gerir de melhor forma as áreas protegidas – não que sejam mal administradas hoje em dia -, mas há sempre o que melhorar, prestar cada vez mais e melhores serviços para a sociedade, de forma clara, explícita, democrática e com diálogo e desenvolver mais estudos científicos e econômicos.

A tese de doutorado de um colega do ICMBio revela que cada real investido na manutenção para visitação das UCs, gera R$7 reais na economia, sobretudo, local. Então, é um grande distribuidor de renda, já que muitas das Unidades de Conservação não estão situadas em lugares onde existam outras alternativas de geração de renda.

Qual a importância de áreas de proteção à conservação da biodiversidade?
As áreas protegidas são o mais importante instrumento que a humanidade já criou para conservar a natureza, a sua biodiversidade e para permitir o acesso da sociedade aos benefícios dela, através do turismo, da pesquisa, do uso sustentável de recursos naturais, e sobretudo, dos serviços que os ecossistemas prestam para a sociedade.

Como áreas protegidas podem alavancar a geração de renda entre comunidades locais?
Todas as áreas protegidas favorecem uma boa economia, uma economia sustentável e de qualidade, aquela que serve e beneficia a maior parte da população. Há três formas de ver esses benefícios locais de maneira mais tangível. A primeira, que ocorre em locais mais remotos e carentes, é a própria possibilidade de atividades governamentais, científicas e de apoio à conservação feita por diversos setores da sociedade, acaba movimentando um pouco a economia local, gerando renda e empregos, o que pode ser interessante em lugares ermos, principalmente da Amazônia, com poucas oportunidades disponíveis.

A segunda, que é mais direta, são as Unidades de Conservação que permitem o uso sustentável de seus recursos naturais. É o caso das reservas extrativistas, por exemplo, onde a comunidade local quer continuar a ter suas atividades, associadas à preservação da natureza. Entretanto, não basta ampliar o número dessas unidades, não bastam a proteção e a ciência. É importante ter trabalhos ligados à comunidade. Há doze anos o ICMBio, junto com outras entidades, desenvolve ativistas de inserção dessas comunidades dentro de políticas públicas de saúde, educação, transporte e abastecimento de água, ligadas a seu perfil, a sua cultura e seu jeito de ser. Além disso, e talvez o mais importante, é favorecer a comercialização dos produtos dessas populações.

E a terceira forma de promover benefícios nessas áreas é através do turismo. Algumas UCs têm, inclusive, ele como seu principal objetivo. Os parques nacionais devem proteger a natureza e promover a visitação. Mas é possível também promover o turismo em áreas extrativistas, o que pode ser um complemento de renda sensacional. Na região do Parque Nacional do Iguaçu, graças ao trabalho de diversas organizações brasileiras e argentinas, se ampliou muito a venda de alimentos e produtos artesanais feitos por comunidades locais, sempre empregando o conceito de comércio justo e sustentável. Com isso, há favorecimento das pequenas comunidades e não apenas dos grandes empresários proprietários de hotéis e agências de turismo, em Foz do Iguaçu.

O senhor poderia me dar exemplos bem sucedidos de localidades, no Brasil, onde áreas de proteção têm gerado resultados incríveis?
Existe um caso, muito interessante, do desenvolvimento de um ecoturismo planejado, baseado nas belezas naturais. É o caso de Bonito, no Mato Grosso do Sul. É um exemplo de sucesso. E o importante é que ali se teve um cuidado em proteger, de alguma forma, parte significativa desses atrativos naturais, mas permitindo a visitação. É um dos destinos turísticos mais importantes do país.

Outro exemplo completamente diferente é o da Reserva Extrativista do Médio Juruá, que fica no meio do Amazonas, e que permitiu a várias comunidades dessa área se organizarem e a partir dessa aliança, com órgão gestor e várias organizações e inclusive, empresas, colocar seus produtos no mercado de uma forma muito competente. Eles vendem açaí para a indústria de bebidas, o pirarucu que vai para Manaus e estados do Sudeste.

Um outro caso, que é importante a gente reconhecer, como já falei há pouco, é o de Iguaçu. As Cataratas estão protegidas dentro do parque nacional há umas sete décadas. Foi a primeira unidade de conservação do Brasil a ser reconhecida como sítio do Patrimônio Mundial Natural (pela Unesco). E a visitação de brasileiros e estrangeiros ao local acabou gerando um polo turístico muito forte e uma economia vibrante, originadas de uma beleza natural.

Podemos citar, ainda, Lençóis Maranhenses, que passou a ser mais conhecido e apreciado, depois de se tornar parque nacional.

É importante a parceria de governos com organizações do terceiro setor na gestão dessas áreas? Qual o papel que essas entidades podem exercer nelas?
São fundamentais as parcerias de governos com vários setores da sociedade, que eu prefiro chamar de ‘organizações da sociedade civil’. E elas não são apenas as ONGs internacionais, como WWF, Greenpeace ou Conservação Internacional, que ajudam e muito. Mas incluem também as associações de moradores e vizinhos, no meu caso, da cidade onde moro, em Atibaia. Todas são essenciais, mas têm papéis diferentes. As internacionais trazem, muitas vezes, assistência técnica e dinheiro. Já as nacionais e locais podem complementar tarefas, além daquelas que o governo faz, além de contribuir com algum apoio financeiro, com menor expressão. Eu defendo uma visão mais ampla, que é a conservação colaborativa.

E o que ela significa?
O que a gente nota é que, praticamente nenhum caso de sucesso, de uma Unidade de Conservação ou Área Protegida, no seu sentido mais amplo, é devido exclusivamente ao governo. Os casos de sucesso têm uma multiplicidade de atores sociais contribuindo, muito deles já foram citados na minhas falas anteriores: parcerias com universidades ou pesquisadores, associações locais, grupos de voluntários, apoios da sociedade civil. E esse conjunto de múltiplos atores beneficiados e contribuindo com a gestão das áreas protegidas – essa rede, essa teia – , é o que chamo de conservação colaborativa.

O atual governo brasileiro acredita que já temos áreas de proteção em demasia. Qual sua opinião sobre isso?
O Brasil tem um volume significativo de áreas protegidas, considerando as Unidades de Conservação e Terras Indígenas, principalmente concentradas na Amazônia brasileira – quase 30% dela está protegida em Unidades de Conservação e mais de 20% em Terras Indígenas. Como é uma região muito grande, enorme, esse volume é muito significativo e fez com o que o Brasil, em determinados períodos, liderasse o ranking de criação de terras de conservação.

Todavia, se levarmos em conta as metas globais e nacionais de se ter 17% dos ecossistemas terrestres e de águas interiores e 10% dos marinhos protegidos de forma eficaz, integrada e equitativa, essas metas não são alcanças quando a gente olha para o Pantanal, Pampa, Caatinga e vários trechos dos nossos ecossistemas marinhos e alguns da Mata Atlântica.

Então, há uma consideração equivocada, pois há um desbalanço entre a Amazônia e o resto do país, que está muito atrás.

A ciência tem demonstrado que precisamos de mais para a proteção das espécies, da biodiversidade e dos serviços para a sociedade. Por isso é importante que trabalhemos para mais áreas protegidas, bem escolhidas, naqueles locais onde há ecossistemas que ainda não foram protegidos ou que oferecem serviços para a sociedade que precisam ser mantidos.

A única coisa positiva que esse governo já fez, no discurso ou na prática, é dar continuidade ao processo de concessões a parques nacionais e outras categorias de unidades de conservação para que o setor privado possa ser concessionários de serviços turísticos.

Quais suas expectativas com a realização do Congresso de Áreas Protegidas no Peru?
Nossa primeira expectativa é que possamos fazer bons diagnósticos, desenvolver propostas e estratégias e fortalecer nossas redes de trabalho e esforços, como meio para gerar mais e melhores serviços para a sociedade. Também buscamos, chegar em 2020, com os melhores resultados possíveis em termos de alcançar os objetivos e metas de proteção da natureza para conseguirmos mitigar os efeitos das mudanças climáticas e também dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Esperamos sair do evento com uma Declaração de Lima, em que estejam traçadas estratégias para os próximos dez anos de gestão das áreas protegidas na região, além de fortalecer a integração entre governos por um melhor alcance de resultados nacionais e internacionais

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Foto: Flávio André – MTUR/Flickir (vista aérea de Bonito, MS) e arquivo pessoal

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Áreas protegidas: o mais importante instrumento já criado para conservar a natureza

  • 13 de outubro de 2019 em 3:18 PM
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    Parabéns pelo material apresentado.

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