Aquela sensação

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Fotografia de natureza é uma daquelas atividades que inunda o imaginário das pessoas. Pelo menos inundava o meu, antes de virar realidade na minha vida. A imagem era sempre da pessoa em um lugar intocado e remoto, superando obstáculos, tirando o conforto físico da lista de prioridades e com um super equipamento para registrar um momento único e especial! Repetidamente, eu fantasiava como seria o privilégio de viver aquele momento e sentir aquela sensação.

O tempo passou, a atividade do desejo se transformou em realidade e, claro, descobri que aquele momento da fantasia é bem mais raro do que imaginava. Juntar todos os ingredientes é difícil e, cá entre nós, precisa muita iluminação para a história de tirar o conforto físico das prioridades.

Já passei por situações onde comecei a xingar em voz alta os mosquitos que não me deixavam fotografar sossegado uma vitória-régia. Ou praguejar mentalmente com uma onça-pintada que, deitada sossegadamente na sombra, me obrigava a ficar num sol infernal para fazer uma foto (que eu sabia que nem ficaria tão boa).

Às vezes, a imagem até parece de um local isolado, mas, na verdade, está cheio de gente e você precisa se inundar de paciência para conseguir passar essa sensação na foto (como já contei, neste blog, no post A onda e os selfies). Só que fotografia de natureza é assim mesmo: apesar de super prazerosa, esses perrengues fazem, constantemente, parte do pacote.

E eis que às vezes há uma conjunção dos fatores! Quando eu participava da primeira expedição para a Serra da Mocidade, resolvi descer um trecho do rio de caiaque, para fazer fotos de uma corredeira encachoeirada. O médico da expedição se juntou a mim mas, como a embarcação era apenas para duas pessoas, precisei usar um dos assentos para colocar a mochila estanque com meu equipamento. Ele acompanhou a descida do rio a nado e, por vezes, usava o caiaque como apoio para descansar, o que tornou a remada mais pesada.

Quando estávamos muito próximos da corredeira, vi um jacaré-tinga grande, em um remanso do rio. Avisei imediatamente meu acompanhante nadador, e acho que nunca vi alguém demonstrar tanta destreza e rapidez para sair da água. Por sorte, algumas rochas da margem o ajudaram a cair fora e, depois, chegar até a cachoeira nadando apenas por pequenos trechos.

O problema é que aquele jacaré, além de ser o maior que havia visto na Serra até então, estava com uma luz e um reflexo fenomenais. Parei o caiaque nas pedras da cachoeira, imediatamente montei a câmera com a maior teleobjetiva no tripé e comecei a retornar pelo caminho feito pelo médico. Claro que, naquela pilha para fazer a foto, nem pensei em colocar um traje de banho. Simplesmente saí caminhando de bota, camisa e calça por dentro da água, segurando o equipamento montado nos ombros, até chegar próximo do bicho.

Fiz alguns cliques de cima das pedras mas, certamente, o melhor ângulo seria mais baixo, para que o reflexo aparecesse melhor. Assim, com paciência fui entrando de novo na água, até quase o pescoço (sempre tomando cuidado com os movimentos do jacaré, claro!), armei o tripé de forma que a câmera ficasse bem próxima da superfície e fiz, finalmente, o registro que queria.

Quando concluí as fotos, terminou aquele transe causado pela concentração. Respirei fundo, olhei em volta, dei um sorriso e contei os ingredientes: estavam todos lá! Além de ter feito uma das imagens de que mais gosto dessa expedição, o processo todo ainda me rendeu “aquela sensação”!

Agora, os dados técnicos da foto:
– Câmera Nikon D810
– Objetiva Nikon AFS 400 f/2.8G VR + teleconverter 1.7x
– Tripé com cabeça Gimbal
– Exposição: ISO 450, Abertura f/5.6, Velocidade 1/30s

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

2 comentários em “Aquela sensação

  • 18 de novembro de 2016 em 8:42 PM
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    Marcos, como sempre, você escreveu um primoroso texto, acompanhado de uma linda foto, transformando o conjunto numa história fenomenal! E sobre suas fotos, uma parte do texto que falo delas …”Suas fotos falam comigo. Elas me fazem sair do meu mundo e também me mostram um pouco da sua face oculta. Elas espelham seu eu e a sua forma de sentir a vida. Enfim, elas me contam um pouco de você. Adoro isso! …”

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    • 21 de novembro de 2016 em 8:15 PM
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      Coisa mais boa ler isso, Silvia querida! É uma alegria imensa quando a gente consegue comunicar ideias e ideais através de imagens, né? Você faz muito isso também! Beijos

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