Após dez anos de queda, fome volta a crescer no mundo, alerta ONU


Por mais de uma década – e até 2015 -, a fome caiu de forma constante no mundo, mas a nova edição do relatório anual da ONU sobre segurança alimentar e nutricionalThe State Food Security and Nutritions in the World -, lançado no mês passado, não trouxe boas notícias: aponta que ela está, de novo, em ascensão e, em 2016, atingiu 815 milhões de pessoas ou 11% da população global.

São mais de 38  milhões de pessoas em relação ao ano anterior!! O aumento de conflitos violentos e as mudanças climáticas (que, por sua vez, também agravam os conflitos) são apontados como os principais motivos. E é bom não esquecer que ambos são responsáveis pela explosão das migrações e de refugiados.

Esta é a primeira vez que a ONU promove uma avaliação global sobre esses dois temas depois de implementada a Agenda 2030, em 2015, reunindo cinco de seus órgãos: FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), do FIDA (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola), do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), do PMA (Programa Mundial de Alimentos) e da OMS (Organização Mundial da Saúde).

A Agenda 2030 apresenta os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e tem, como prioridade, a erradicação da fome e de todas as formas de má nutrição. E tem relação direta com a Década de Ação sobre Nutrição – 2016 a 2025 – estabelecida em Assembleia Geral no ano passado e estabelece o esforço dos governos em fixar metas e investir em medidas para vencer tais males.

Por isso, o relatório foi remodelado para se adaptar aos ODS, incluindo melhores medições para quantificar e avaliar a fome, a inclusão de indicadores sobre a segurança alimentar e seis indicadores sobre nutrição. Assim, o documento destaca, também, inúmeras formas de má nutrição que ameaçam a saúde de milhões de pessoas.

As crianças menores de cinco anos são as principais vítimas: cerca de 155 milhões têm estatura baixa para a idade e 52 milhões estão abaixo do peso ideal. Por outro lado, estima-se que 41 milhões de crianças estão com sobrepeso. Além disso, também chamam a atenção: a anemia entre as mulheres e a crescente obesidade em adultos. Tais fatos podem ser também consequências dos conflitos e das alterações climáticas, mas principalmente dos péssimos hábitos alimentares e da crise econômica, que aumenta o acesso ao fast-food (mais barato, menos nutritivo e com altos índices calóricos, que provocam inúmeras doencas).

Conflitos e mudanças climáticas
O ressurgimento da fome e da má nutrição está intimamente ligado à proliferação dos conflitos no mundo, que têm sido agravados pelo aquecimento global e as mudanças climáticas provocadas por ele. Cada vez mais isso fica evidente e incontestável. Por isso, os membros da FAO, do UNICEF, FIDA, do PMA e da OMS declararam: “Não vamos acabar com a fome e com todas as formas de má nutrição até 2030, a menos que abordemos todos os fatores que prejudicam a segurança alimentar e a nutrição no mundo. Garantir sociedades pacíficas e inclusivas é uma condição necessária para atingirmos esse objetivo”, declararam.

Eles destacaram que a fome atingiu partes do Sudão do Sul, na África, no início deste ano, por vários meses, e que ela pode se repetir, além de surgir em outros locais que também sofrem com conflitos como o nordeste da Nigéria, a Somália e o Iêmen.

Importante ressaltar, ainda, que, além da violência que abate algumas regiões, secas, inundações e a crise na economia mundial, também colaboraram para o agravamento da fome, da desnutrição e da má nutrição mundiais.

No Brasil, a crise política e a onda conservadora – que ganharam ainda mais força após o impeachment e favorecem as elites econômicas em detrimento da maioria da população – também têm colaborado para o crescimento da pobreza e da miséria. Tanto no Congresso Nacional como nas cidades, por intermédio de prefeitos, secretários e das Câmaras Municipais – e governadores, claro! -, os direitos dos cidadãos vêm sendo cada vez mais usurpados, o que obviamente intensificará essa realidade. Basta observar a quantidade de pessoas que moram nas ruas ou em ocupações, hoje.

A fome, a má nutrição e o impacto dos conflitos, em números 
Cerca de 815 milhões de pessoas têm fome no mundo:
– 520 milhões na Ásia;
– 243 milhões na África;
– 42 milhões na América Latina e no Caribe.

11% são vítimas da fome. Desse montante:
– 11,7% está na Ásia;
– 20%, na África (na África Ocidental são 33,9%);
– 6,6% na América Latina e Caribe.

Quanto à má nutrição….
– Crianças menores de 5 anos que sofrem com atraso no crescimento (estatura baixa para idade): 155 milhões;
– Dessas, as que vivem em países que sofrem com níveis de conflitos: 122 milhões;
– Crianças menores de 5 anos que estão com o peso abaixo do ideal para a estatura: 52 milhões;
– Adultos obesos: 641 milhões (13% do total de adultos do planeta);
– Crianças menores de 5 anos com sobrepeso: 41 milhões;
– Mulheres em idade reprodutiva que apresentam anemia: 613 milhões (cerca de 33% do total).

Como os conflitos impactam a vida:
– Das 815 milhões de pessoas que sofrem com a fome, mais da metade – 489 milhões – vive em países atingidos por conflitos;
– A fome prevalece em países onde há conflitos entre 1,4% e 4,4% a mais do que em outros países;
– No contexto de conflitos agravados pela fragilidade institucional e ambiental, essa prevalência aumenta: fica entre 11% e 18% a mais;
– Pessoas que vivem em países que passam por crises econômicas e políticas prolongadas têm quase 2,5 mais chances de padecer com a subnutrição do que as que vivem em outros lugares.

Abaixo, vídeo de divulgação do relatório da ONU, no qual Stéphane Dujarric, porta-voz do Secretário Geral da ONU, destaca que a volta da fome e da má nutrição no mundo pode prejudicar os esforços para que alcancemos a fome zero em 2030.

Foto: H. Caux/Acnur

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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