Após 100 anos, bugios voltam ao Parque Nacional da Tijuca

bugios na floresta da tijuca

O Rio de Janeiro é uma das poucas metrópoles do mundo a ter o privilégio de possuir um parque nacional bem no meio da cidade. Dentro deste parque, está a Floresta da Tijuca, considerada a maior floresta urbana do mundo. O parque, que se estende por uma área de quase 40 km2, é um importante fragmento da Mata Atlântica. Todavia, está é uma floresta vazia, assim como muitas outras no planeta.

O termo é utilizado por biólogos para se referir à florestas onde não existem mais animais de médio e grande porte. Devido à fragmentação da mata, caça predatória ou desmatamento, os bichos desapareceram. E sem os animais, que possuem papel fundamental para a dispersão de sementes na natureza, a floresta não funciona direito. “Nós somos cercados por florestas vazias. Florestas que todos os bichos grandes já foram extintos pela caça”, afirma Fernando Fernandez, pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A Mata Atlântica é constituída em sua maioria por florestas vazias, assim como boa parte da Floresta Amazônia”.

Esta foi a principal motivação para a realização do projeto que está reintroduzindo animais no Parque Nacional da Tijuca. Entre 2010 e 2014, um grupo de 20 cutias foi levado pelos pesquisadores para a floresta. No mês passado, foi a vez de novos moradores chegarem: quatro bugios.

Os macacos, extintos da floresta há mais de 100 anos, têm uma característica bastante peculiar: uma vocalização que pode ser ouvida a quilômetros de distância. O papel deles ali, assim como os das cutias e outros animais do mesmo porte, é dispersar sementes grandes, já que devido ao seu tamanho, elas não são levadas pelo vento ou pela água (entenda mais sobre o papel do bugio na floresta ao final deste texto).

Sem os bichos, as árvores de grande porte não se reproduzem e a constituição da floresta muda e empobrece.  “A floresta vai se deteriorando e degradando com o tempo. Nossa ideia é reconstruir faunas para ajudar a manter processos ecológicos dentro das florestas”, conta Fernandez.

A reintrodução das cutias e dos bugios faz parte do processo de refaunação do Parque Nacional da Tijuca com espécies nativas. A iniciativa tem o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Os bugios, que viviam em cativeiro antes, passaram por adaptação durante oito meses no centro de pesquisa no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, em Magé. Inicialmente, seriam reintroduzidos cinco macacos, mas um deles foi expulso pelo macho alfa, que domina o grupo. Ficaram então dois machos e duas fêmeas. “A interação é muito importante para a espécie porque os bugios montam grupos sociais, permanecendo juntos na floresta”, explica.

Os animais serão monitorados através de colares colocados nas fêmeas e tornozeleiras nos machos. Segundo o pesquisador, desta forma eles saberão onde os bugios estão na mata, como estão interagindo entre si e com outras espécies.

Desde o dia 4 de setembro, os quatro macacos já são os novos moradores do Parque Nacional da Tijuca. Logo após a primeira semana, os biólogos ficaram apreensivos com um encontro do grupo com macacos-pregos, normalmente mais agressivos, mas felizmente não houve problemas.

A meta é reintroduzir um animal a cada ano, por quatro anos consecutivos, para que a população de bugios se torne autossustentável, dependendo apenas da própria reprodução e não mais de novas ações externas.

Fernandez revela que a escolha dos bugios e das cutias no projeto se deve a estes serem animais de fácil reintrodução, já que têm dieta bastante variada, são resistentes e se adaptam a diferentes habitats.

As cutias que foram levadas para a Floresta da Tijuca viviam numa praça no centro do Rio de Janeiro. Também precisaram passar por treinamento para que, na mata, conseguissem encontrar os próprios alimentos e sobreviver. Cutias são consideradas fantásticas dispersoras. Elas enterram as sementes no solo para escondê-las de outros indivíduos. Com isso, fazem com que as sementes fiquem em condições ideais para germinar.

Nestes pouco mais de cinco anos de projeto, a presença das cutias no Parque Nacional da Tijuca já pode ser sentida. Nas áreas que os animais vivem, os pesquisadores encontraram mudas de diversas árvores crescendo. “Mostramos que as cutias conseguiram restaurar o processo de reprodução de várias espécies de árvores”, ressalta o pesquisador.

A equipe da UFRJ têm planos de reintroduzir outros bichos no parque nacional. Espécies ameaçadas de extinção, como a preguiça-de-coleira ou o mico-leão-dourado e ainda, animais como o jupará (conhecido como macaco-da-noite, não é um macaco, mas um parente do quati) ou gatos silvestres nativos, poderiam ser os próximos. Mas para isso, será necessária a aprovação do Instituto Chico Mendes (ICMBio), responsável pela administração do parque. Além disso, o processo de refaunação segue uma ordem adequada para a reintrodução dos bichos.

O Parque Nacional da Tijuca é a unidade de conservação mais visitada do Brasil. Por ano, passam por ali mais de três milhões de turistas. Para Fernandez, existe uma percepção errada sobre parques nacionais, em que se acredita que a presença de visitantes pode atrapalhar a preservação da fauna. “Isso é uma percepção completamente errada porque a finalidade de um parque nacional é a visitação”, afirma. “Os bichos vão enriquecer a Floresta da Tijuca e torná-la uma atração mais interessante, ainda mais com a voz do bugio”.

O pesquisador só faz uma recomendação. As pessoas podem – e devem – observar, mas não interagir. Ou seja, não alimentar e nem estressar os animais.

O papel dos bugios no Parque Nacional da Tijuca

O bugio (Alouatta guariba ) é um mamífero de porte grande, que pode pesar entre 8 e 9 kg. É o segundo maior primata da Mata Atlântica. Vive no topo de árvores mais altas.

Os machos têm pelos marrom avermelhados, com tons de dourado, enquanto as fêmeas possuem tom mais escuro, quase preto. Seus ruídos são altíssimos e servem, entre outras coisas, para espantar o inimigo. O período de gestação dos filhotes é de aproximadamente 140 dias. Após o nascimento, o filhote fica agarrado às costas da mãe durante os primeiros meses de vida.

Vegetarianos, os macacos desta espécie alimentam-se de frutos, folhas, brotos e sementes. Suas fezes são importantíssimas para a fertilização do solo da floresta. Elas são usadas por besouros – conhecidos como rola-bostas – , que fazem pequenas bolas com elas, levando nutrientes para a terra.

bugios na floresta da tijuca

Os bugios, novos moradores do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro


Fotos: Luísa Genes/Fundação Grupo Boticário

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Um comentário em “Após 100 anos, bugios voltam ao Parque Nacional da Tijuca

  • 18 de agosto de 2016 em 12:12 PM
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    Moro em Teresopolis RJ, na zona rural, em uma montanha, bem no meio da mata. Essa área faz parte do Parque Nacional dos Três Picos, que abrange várias localidades da área rural de Teresopolis.
    Em determinadas épocas do ano podemos ver e ouvir os bugios, que vêm, provavelmente, em busca de frutos silvestres sazonais.
    É uma experiência magnífica ouvi-los! O som é tão forte que chega a assustar, embora sejam animais pacíficos.
    Ainda temos alguns animais da fauna nativa nessas matas, mas bem menos que há 10 anos atrás.
    A natureza vem sendo muito desrespeitada com elementos que o homem introduz.
    Vários sitiantes criam os cães soltos nos sítios, sem cercas, permitindo que entrem na mata à noite para caçar.
    O movimento de carros e motos barulhentas (até de helicópteros) dos donos e dos caseiros são de uma total falta de respeito aos sons da natureza.
    Tudo isso faz com que os animais morram atacados pelos cães ou fujam, procurando outro lugar para viver, sem tanta interferência humana!
    É uma lástima constatar o declínio da fauna ao longo de tão pouco tempo!

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