Aparelho auditivo brasileiro com recarga solar é finalista em prêmio internacional

A história de Howard Weinstein poderia estar na tela do cinema. Tem tragédia, obstáculos, reviravoltas e um final feliz. No Brasil! O canadense era um empresário muito bem-sucedido em Montreal, que trabalhava no setor de tubos e conexões. O negócio era tão rentável, que foi vendido por uma fortuna para uma empresa americana, mas ele continuou à frente da administração em seu país.

Todavia, em junho de 1995, sua vida mudou completamente. Durante a noite, a filha Sarah, de 10 anos, teve um aneurisma cerebral e morreu. Weinstein ficou sem chão. Perdeu o rumo. Na época, ficou tão perdido, que foi demitido. Não conseguia se concentrar, não sabia como agir.

Ao tentar dar novo sentido à vida, o empresário decidiu que usaria o conhecimento de negócios para ajudar pessoas necessitadas na África. Partiu então para Otse, uma pequena cidade no interior de Botsuana – apenas 3.500 mil habitantes -, para realizar trabalho voluntário. A missão dada pela ONG World University Service era estabelecer uma empresa que forneceria aparelhos auditivos com preço acessível para pessoas com deficiência auditiva.

Pouco tempo depois, ainda enfrentando muitas dificuldade para fazer o negócio andar, o destino resolveu lhe mandar uma mensagem. Uma professora bateu em sua porta segurando uma menina surda pela mão. Ela precisava de um aparelho. O nome dela? Sarah! A jovem, de 17 anos, teria a mesma idade que sua filha, caso ainda estivesse viva. Weinstein conta que encarou o episódio como um chamado.

Com a energia do sol

Segundo a Organização Mundial de Saúde, existem aproximadamente 360 milhões de pessoas tem algum tipo de deficiência auditiva no mundo, sendo 32 milhões crianças. Dois terços delas vivem em países em desenvolvimento, principalmente em regiões da África e Ásia. Infelizmente, poucos aparelhos auditivos chegam nestes lugares, e quando isso acontece, o valor é alto demais. O pior de tudo é que a troca constante de baterias para fazê-los funcionar torna tudo ainda mais caro.

Em Botsuana, Weinstein arregaçou as mangas. Consultou especialistas em tecnologia, conversou com investidores, pechinchou peças com fabricantes e conseguiu um pequeno apoio de uma fundação americana. Nascia a startup Godisa Technologies. O empresário e sua equipe desenvolveram um aparelho auditivo barato e movido a baterias recarregáveis com energia solar. Sol é um dos recursos mais abundantes nos países africanos. Por que desperdiçá-lo?

Kit da Solar Ear: aparelho auditivo e baterias e recarregador solar

O mais genial do modelo de negócio sustentável do canadense é que os funcionários que fabricam os aparelhos são surdos. Pessoas com deficiência auditiva têm uma coordenação visual e manual excelente, o que as faz perfeitas para trabalhos que envolvem precisão e cuidado.

Funcionária surda fabricando os aparelhos auditivos

A empreitada de Howard Weinstein na África lhe rendeu muitos prêmios, entre eles, World University International Volunteer of Year em 2005, Ashoka Fellow e Humanitarian Award, ambos em 2008. Durante os seis anos em que passou em Botsuana, o projeto criado por ele vendeu 10 mil aparelhos auditivos, 15 mil recarregadores e 20 mil baterias.

Canadense de coração brasileiro

Mas como o destino trouxe o canadense para o Brasil? “O projeto da África ficou bastante conhecido internacionalmente e fui convidado a falar sobre ele em um congresso de audição em Barau”, relembra em entrevista exclusiva ao Conexão Planeta. “Depois da palestra, dois professores de audiologia me perguntaram se eu poderia replicar o programa no Brasil, já que aqui havia mais de 10 milhões de pessoas que precisavam de um aparelho auditivo e não tinham condições para comprar um”.

Os desafios para abrir o negócio social em terras brasileiras não eram poucos. Na África, os aparelhos eram analógicos e a ideia é que aqui fossem digitais e era necessário modificar o carregador solar, já que o Brasil não dispõe de tantos horas de luz como ocorre em Botsuana. E lógico, um último, mas não menos importante desafio. “Eu precisava aprender a falar português”, brinca Weinstein.

Hoje, apesar do sotaquê francês, ele domina totalmente nossa língua. Não é para menos. Apaixonou-se por aqui e tem esposa e filhos brasileiros.

Novamente, o empreendedor contou com parcerias para abrir a Solar Ear, uma organização sem fins lucrativos. Engenheiros da Universidade de São Paulo (USP) ajudaram no desenvolvimento da tecnologia e parte do financiamento veio de organizações internacionais e nacionais. Depois de algum tempo, o negócio deslanchou. “Uma bateria normal de aparelho auditivo custa cerca de 4 reais e dura uma semana. Desenvolvemos um modelo recarregável que custa o mesmo preço, mas que dura de três a quatro anos”, afirma Weinstein.

Howard Einstein, à direita, e a equipe da Solar Ear

A Solar Ear não patenteou seus produtos. Baterias e recarregadores se encaixam em 90% dos aparelhos auditivos disponíveis no mercado. Weinstein quer que outras empresas possam usar a mesma tecnologia gratuitamente. Os produtos fabricados no Brasil são vendidos para organizações filantrópicas do mundo inteiro.

Em 2011, empresa entrou no ranking das dez brasileiras mais inovadoras, feito pela revista americana Fast Company. Estava ao lado de gigantes como AmBev e Petrobras. Em junho último, foi a vez da Solar Ear estar entre as finalistas do Bright Minds Challenge, desafio global que identifica soluções inovadoras em energias limpas. Ficou com o terceiro lugar.

“Uma criança que pode ouvir tem a oportunidade de frequentar uma escola. Infelizmente, para aquelas que não conseguem, existem poucas escolas para surdos no Brasil”, destaca Weinstein. “E, como todos sabem, é apenas por meio da educação que é possível quebrar o ciclo da pobreza. Na realidade, a Solar Ear é exatamente sobre educação e como quebrar o ciclo da pobreza”.

O empresário canadense, que hoje já tem um coração brasileiro, lembra também que a perda da audição pode impactar seriamente a vida de adultos. “Tenho certeza que cerca de 70% das pessoas que leem esta matéria têm um tio, pai ou avô que está perdendo a audição. Esta pessoa torna-se excluída das conversas familiares e fica deprimida. A perda auditiva afeta pessoas de diferentes maneiras, provocando impactos econômicos e psicológicos enormes na vida delas”.

Se depender de Howard Weinstein, tudo voltará ao normal. E estas pessoas vão poder escutar, novamente, o cantar dos pássaros, o barulho da chuva nas árvores e amigos e parentes chamando seus nomes.

 



Fotos: divulgação Solar Ear

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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