Antas ganham coleiras luminosas para evitar atropelamentos no Cerrado

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As antas vivem em constante ameaça no Cerrado por conta do desmatamento e das queimadas que atendem o desenvolvimento do agronegócio (especialmente por causa de culturas como a da cana de açúcar e da soja), mas também dos atropelamentos nas rodovias do Mato Grosso do Sul, que só crescem.

De acordo com pesquisas da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB) do Instituto Ipê, em dez trechos de estradas nesse estado – nas rodovias BR-163, 262, 267, 040, 080, 134, 145 e 395 – foram registrados 162 atropelamentos desde março de 2013, que incluem também filhotes. Isso significa uma média de quatro por mês, em uma extensão de pouco mais de 1.450 quilômetros. Os trechos campeões são a BR-267 (Nova Alvorada do Sul/Casa Verde), com 60 atropelamentos, e a MS-040 (Campo Grande/Santa Rita do Pardo), com 49.

“Os históricos anteriores de atropelamentos de antas em diversas regiões do Brasil já indicava que o número de animais mortos por essa razão seria grande. Especialmente por se tratar de uma região com um ambiente muito alterado e paisagem extremamente antropizada e cortada por rodovias muito movimentadas e totalmente sem sinalização para a presença de animais. Entretanto, o dado é assombroso!”, alerta Patrícia Médici, pesquisadora que se dedica há 20 anos aos estudos de conservação das antas no Brasil e é coordenadora da INCAB/Ipê, referência no país.

“Vale ressaltar que as 162 antas mortas são apenas a ponta do iceberg, uma vez que certamente outras mortes não foram detectadas por nossa equipe. E não devemos esquecer que ainda houve a perda de vidas humanas nesses acidentes: até junho, registramos 14 óbitos de pessoas envolvidas em colisões com antas em rodovias do MS”, acrescenta Patrícia.

E foi após longo tempo acompanhando a espécie e vendo tantas mortes que, numa conversa informal entre Patrícia e sua equipe, veio a ideia de acoplar refletores luminosos às coleiras usadas para fazer o monitoramento, a fim de reduzir os atropelamentos. Afinal, as colisões acontecem porque os motoristas não enxergam os animais na pista. Os pesquisadores se inspiraram nos refletores dos caminhões e também na roupa e acessórios dos ciclistas e motociclistas que frequentam as rodovias e os grandes centros urbanos.

Essa iniciativa foi implantada no meio do ano passado, quando foram capturadas 14 antas. Dez delas usam coleiras (com validade de três anos) equipadas com GPS e refletores e, até agora, todas estão vivas. A tensão é constante, claro, mas, a priori, parece que esta ação é eficaz e tem ajudado a reduzir o risco de atropelamentos desse tipo.

Por terem hábitos noturnos, elas começam suas atividades ao entardecer, quando buscam alimento. Atravessam áreas antes ocupadas pela vegetação nativa, mas que agora estão cobertas por plantações de soja e de cana, que são cortadas por rodovias. Daí, sua vulnerabilidade. Com mais um detalhe: como são da cor cinza, as antas se confundem facilmente com o asfalto. Ou seja, os motoristas só as enxergam quando estão muito próximos delas e o acidente é inevitável.

Torcemos para que esta iniciativa engenhosa ajude a proteger as antas do Cerrado e se espalhe como prática para salvar outros animais da realidade desenvolvimentista que assola o Cerrado.

Agronegócio: ‘oceanos’ de soja e cana no Cerrado

E, por falar em desenvolvimento, há quase um mês, a pesquisadora Patrícia Médici fez um relato emocionado em sua página no Facebook, no qual contou sobre a morte de um filhote de anta, vítima de queimadas no Cerrado.

O texto me comoveu demais e convidei Patrícia para reproduzirmos o relato, editado, aqui no Conexão Planeta para ajudar divulgar a triste realidade dos animais que vivem nesse bioma, com o qual ela se depara frequentemente. Vale a leitura: No Cerrado, antas e outros animais tentam sobreviver em fragmentos de habitat e ‘oceanos’ de soja e cana.

Foto: Patrícia Médici

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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