Americano com câncer é primeiro caso contra a Monsanto na Corte Federal dos Estados Unidos

Americano com câncer é primeiro caso contra a Monsanto na Corte Federal dos Estados Unidos

Edwin Hardeman usou o herbicida Roundup no jardim de sua casa durante quase 30 anos. O pesticida, fabricado pela gigante multinacional Monsanto (adquirida pela alemã Bayer em 2018) é o mais vendido do mundo inteiro. O americano aplicava a substância para tentar matar ervas daninhas e fungos nas árvores. Contou que, por algumas vezes, sua pele entrou em contato com o produto.

Em 2015, Hardeman foi diagnosticado com um linfoma não-Hodgkin, câncer que afeta o sistema imune, e agora, ele é a primeira pessoa que consegue levar a gigante fabricante de agrotóxicos para a Corte Federal dos Estados Unidos, instância mais alta da justiça daquele país.

No ano passado, outro americano com câncer processou e ganhou, em uma decisão histórica, uma ação contra a empresa, mas havia sido numa corte da Califórnia. O jardineiro DeWayne Johnson também desenvolveu um linfoma não-Hodgkin, depois de trabalhar anos pulverizando o Roundup em jardins de escolas locais. Com lesões em mais de 80% do corpo, ele foi desenganado pelos médicos, que afirmaram que o câncer está em fase terminal.

Em agosto de 2018, a justiça californiana decidiu que a Monsanto teria de pagar uma indenização de US$289 milhões a ele.

O herbicida Roundup tem como ingrediente principal o glifosato, que segundo relatório publicado em 2015, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pode provocar câncer em animais tratados em laboratório e é um potencial causador de alterações na estrutura do DNA e cromossomos das células humanas.

O herbicida associado com o câncer: milhares de pessoas
querem processar a Monsanto por causa dele

“O herbicida penetra nas células da pele, depois nos tecidos, no sistema linfático e no sangue”, explicou ao júri, um médico, testemunha de defesa de Hardeman.

A Monsanto sempre negou as acusações de que o produto seria cancerígeno, apesar de estudos apontaram tal fato. O glifosato é vendido tanto para uso caseiro, como para aplicação em grandes lavouras. Por isso mesmo, hoje sua contaminação cruzada pode ser encontrada praticamente em todos os alimentos que consumimos, e até, em bebidas (leia aqui pesquisa realizada recentemente com vinhos e cervejas).

O veridito para o caso de Hardeman é aguardado com muita ansiedade, já que o julgamento é considerado um “teste” para futuros processos contra a Monsanto/Bayer. Estima-se que existam mais de 9 mil outros casos similares, de pacientes com câncer, na fila da justiça.

Durante a audiência na Corte Federal, ontem (07/03), o juiz Vince Chhabria fez uma forte acusação à Monsanto. “Há fortes evidências para que o júri possa concluir que a Monsanto não se preocupa se seu produto está de fato provocando câncer nas pessoas, mas, concentrando-se em manipular a opinião pública e minando o argumento de qualquer pessoa com preocupações legítimas sobre o assunto”.

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Fotos: domínio público/pixabay (abertura) e Mike Mozart/Flickr (RoundUp)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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