Amazônia, sem barreiras


Li Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, aos 17 anos, em 1982, presente da minha tia Graça, bibliotecária e leitora compulsiva. A história do jovem que ficou tetraplégico e cuja família foi vítima da ditadura militar pelo desaparecimento do pai, me comoveu e, de certo modo, ajudou a transformar minha vidinha de burguês paraense. Na época, já andava interessado por temas progressistas e começando a me envolver na luta pelas Diretas Já, a leitura me deu um belo incentivo.

Sete anos mais tarde, no início de 1989, recebi um telefonema da amiga Adriana Azevedo, que estava organizando a chegada da imprensa para o I Encontro das Nações Indígenas do Xingu, realizado em Altamira, Pará, para protestar contra a construção da, então, hidrelétrica de Kararaô, que veio a ser construída quase 30 anos depois com o nome de Belo Monte.

– Oi Roca, tudo bem? Vou fazer um jantar em casa para jornalistas de São Paulo que estão vindo pra cobertura de Altamira. Quer vir? Vem até aquele escritor que tu gostas, o Marcelo Rubens Paiva.

– Claro! Pode contar comigo.

Nesse dia, conheci duas pessoas a quem já admirava e que viriam a se tornar grandes amigos: o Marcelo e o grande fotógrafo Jorge Araújo, com quem tive o prazer de trabalhar anos depois. Eles foram juntos à Altamira para cobrir o tal encontro para o jornal Folha de S. Paulo.

No dia seguinte, ainda meio ‘ressaqueados’ do jantar que acabou virando festa, pegamos o vôo Belém-Altamira. Marcelo estava super empolgado, afinal, um tetraplégico desbravando a Amazônia poderia ser, de fato, uma grande aventura.

Antes dessa viagem, eu nunca tinha convivido com um deficiente físico, então, não fazia a mais remota ideia de como proceder. Como se empurra uma cadeira de rodas? Como sobe com ela na calçada? E como ele faz pra tomar banho? Como faz xixi? Como entra no carro? E como sai? Ainda bem que tinha o Marcão, um enfermeiro acompanhante que cuidava de todas essas questões. Foi com ele que aprendi quase tudo.

A semana em Altamira foi intensa, mas além de um banho de igarapé, nenhum grande percalço para atrapalhar a experiência do meu novo amigo escritor.

Menos de dois meses depois dessa viagem, Marcelo me recebeu em sua casa, em São Paulo. Eu estava de volta à cidade, onde já tinha morado por três anos. Fui lá com meu portfólio debaixo do braço já que iniciava minha carreira como fotógrafo. A hospitalidade que seria provisória, acabou se tornando uma hospedagem, uma amizade e, por fim, acabamos dividindo um apartamento por quase 2 anos.

Um tempo depois, já estabelecido e trabalhando na Folha de S. Paulo, fomos escalados – eu e Marcelo -, para uma longa reportagem sobre o Pará, para o caderno de Turismo. Uma viagem de dez dias entre Belém, Ilha do Marajó e Alter do Chão. O Marcão – o enfermeiro que acompanhava Marcelo quando nos conhecemos – era passado, então seguimos apenas os dois para essa verdadeira aventura amazônica.

Claro que a gente já imaginava que os barcos regionais, as fazendas marajoaras e muito menos as praias e matas santarenas, não são adaptados para pessoas com deficiência física. Mas a solidariedade, a generosidade e o entusiasmo do povo local deixam qualquer rampa ou elevador de acesso ‘no chinelo’. O que mais poderíamos querer?

Nesta viagem, fizemos de tudo! Os limites a princípio ‘impostos’ pela condição física do Marcelo não foram obstáculo em momento algum. E nossa aventura foi incrível, por motivos diversos: pela história que fomos buscar, a paisagem, as pessoas, as oportunidades, mas muito mais, na verdade.

Para o Marcelo, foi incrível poder desfrutar de toda a beleza e astral que a natureza da Amazônia oferece. Sem limitações. Pra mim, que nasci e cresci nesse ambiente, aprender ainda que não há barreiras que possam impedir as experiências. A menos que elas estejam na sua cabeça.  

Abaixo, estão imagens que fiz, na ocasião, em 1994, da travessia do Marcelo na cadeira de rodas pelo Rio Tapajós. Os originais não existem mais. As imagens foram escaneadas, por isso as fotos estão granuladas, mas achei que valia mostrá-las pra ilustrar esta história, aqui.

Iniciou sua carreira em fotografia, documentando os costumes e a cultura dos índios brasileiros para o Museu Emílio Goeldi. Trabalhou para agências de notícias, grandes jornais, fotografou, editou e logo descobriu sua paixão pela fotografia documental (ministra workshops com o maior prazer). Teve editora (Mandioca) e revista (Pororoca) pra falar só de temas relacionados à Amazônia. Hoje, desenvolve projetos editoriais – entre os quais se destaca o livro sobre os índios Zoé – e colabora com as ONGs Greenpeace e Instituto Sociambiental (ISA), cobrindo principalmente a realidade dos povos originais. E, assim, voltou às origens: aos índios.

Rogério Assis

Iniciou sua carreira em fotografia, documentando os costumes e a cultura dos índios brasileiros para o Museu Emílio Goeldi. Trabalhou para agências de notícias, grandes jornais, fotografou, editou e logo descobriu sua paixão pela fotografia documental (ministra workshops com o maior prazer). Teve editora (Mandioca) e revista (Pororoca) pra falar só de temas relacionados à Amazônia. Hoje, desenvolve projetos editoriais – entre os quais se destaca o livro sobre os índios Zoé – e colabora com as ONGs Greenpeace e Instituto Sociambiental (ISA), cobrindo principalmente a realidade dos povos originais. E, assim, voltou às origens: aos índios.

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