Amazônia Centro do Mundo: indígenas, ribeirinhos, cientistas e ativistas redigem manifesto pelo futuro

Em meados de novembro, Altamira, no Pará, recebeu ativistas brasileiros e estrangeiros, intelectuais de universidades e institutos de pesquisa, pensadores, representantes de movimentos sociais e de povos indígenas e comunidades ribeirinhas – todos defensores da preservação da Amazônia e dos direitos dos povos da floresta – para debater o cenário promovido pelo governo Bolsonaro com ataques ao bioma e a seus povos, e para redigir um manifesto. Foi no encontro Amazônia Centro do Mundo.

Um movimento de amor que contou com a presença de inúmeros protagonistas da luta de resistência presentes estavam o cacique Raoni Metuktire (na foto acima), a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, o cientista Antonio Nobre, como também Antônia Melo, do Movimento Xingu Vivo, Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu, Bel Juruna, liderança da aldeia Mïratu e Raimunda Rodrigues, ribeirinha da Reserva Extrativista Rio Iriri. Entre os movimentos, estavam o Coletivo de Mulheres do Xingu, Coletivo de Mulheres Negras Maria Maria, o Conselho Ribeirinho, a Comissão Justiça e Paz e o Movimento dos Atingidos por Barragens.

Foi tão intenso e importante que também atraiu a ira de fazendeiros do Pará, que tentaram interromper os debates, como contou a Agência Pública.

Manifesto do Centro do do Mundo

O encontro foi realizado na Universidade Federal do Pará durante três dias – 17 a 19 de novembro -, iniciado com a performance Involuntários da Pátria, baseada em texto homônimo (uma aula-manifesto) do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, e resultou no Manifesto do Centro do Mundo, um abaixo-assinado que convida todos os brasileiros que querem a Amazônia Viva a participar deste movimento.

O Pará tem sido palco de grandes confrontos e de injustiças – como a que aconteceu em Alter do Chão, com a prisão de quatro brigadistas voluntários e ataques ao Projeto Saude e Alegria, uma das mais reconhecidas ONGS do país – e concentrou o maior índice de desmatamento em setembro. Vivemos um cenário de destruição da biodiversidade do bioma, no qual foi registrado aumento de 80% do desmatamento e dos incêndios, e também genocídio dos povos indígenas praticado por madeireiros, garimpeiros e outros invasores e estimulado pelas declarações do representante maior do governo.

Nacionalizar a Amazônia, amazonizar o mundo!

Ao ler no manifesto que a intenção de seus criadores e signatários é amazonizar o mundo, lembrei de uma frase que Caetano Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria (que teve a sede invadida pela polícia na semana passada), diz há muito tempo e certamente inspirou essa carta linda:

“Nacionalizar a Amazônia e amazonizar o mundo é o caminho para o futuro”. 

Foi o que ele escreveu em artigo para o site da Carta Capital, em outubro deste ano.

Então, amazonizemo-nos, todos… antes que seja tarde. Assinemos este manifesto

Abaixo, reproduzo o texto na integra para você já se inspirar.

O texto na íntegra

Na época da emergência climática, a Amazônia é o centro do mundo. Sem manter a maior floresta tropical do planeta viva, não há como controlar o superaquecimento global. Ao transpirar, a floresta lança 20 trilhões de litros de água na atmosfera a cada 24 horas. A floresta cria rios voadores sobre as nossas cabeças maiores do que o Amazonas. O suor da floresta salva o planeta todos os dias.

Mas esta floresta está sendo destruída aceleradamente pelo desenvolvimento predatório e corre o risco de alcançar o ponto de não retorno em alguns anos. Diante da catástrofe em curso, nós, movimentos sociais e sociedade organizada, povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, cientistas e ativistas climáticos do Brasil e do Mundo vencemos muros e barreiras para unirmos nossas vozes em torno de um objetivo comum: salvar a floresta e lutar contra a extinção das vidas no planeta.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Diante da emergência climática, estamos todos no mesmo barco?

E declaramos:
Não.

A maioria tem um barco de papel, uma minoria um transatlântico. Aqueles que provocaram a crise climática serão os menos afetados por ela. Aqueles e aquelas que não a provocaram já estão sofrendo e são os que mais sofrerão os impactos e também os que sofrerão primeiro. Já sofrem. Deslocaremos o que é centro e oque é periferia, unindo as comunidades urbanas às comunidades da floresta, para que assumam o lugar ao qual pertencem: o centro.

Combateremos o apartheid climático e o racismo ambiental que tenta cercar o planeta com muros para os mais afetados não poderem entrar. Não permitiremos que este planeta se torne um condomínio. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que soberania é esta em que uma empresa, a Norte Energia S.A., controla a água do rio Xingu para mover a Usina Hidrelétrica de Belo Monte? E, assim, tem poder de vida e morte sobres povos e ecossistemas inteiros?

E declaramos:
– Isso não é soberania, isso é
ecocídio. E é também genocídio. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que nacionalismo é este que pretende entregar a Volta Grande do Xingu para uma mineradora canadense, a Belo Sun, explorar ouro e depois deixar como legado um cemitério tóxico para o Brasil?

E declaramos:
– Isso não é nacionalismo, é submissão. E é crime. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que governo é este que suspendeu as demarcações das terras indígenas, públicas, e pretende abrir as terras já demarcadas para exploração e lucros privados?

E declaramos:
– Este não é um governo para todos os brasileiros, mas uma ação entre amigos. Exigimos que o governo demarque as terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas de acordo com a constituição. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que desenvolvimento para a Amazônia é este, que reduz milhões de espécies a soja, boi, minério, especulação de terras e obras de destruição?

E declaramos:
– Isso não é desenvolvimento. É predação. Lucro de poucos à custa da morte de muitos. Em vez de desenvolvimento, queremos envolvimento. Queremos Consulta Livre prévia e Informada. Queremos salvaguardas para os povos nas negociações climáticas. É a floresta e a economia da floresta que precisam crescer. Agricultores familiares e produtores rurais que respeitam os limites legais e estão buscando modelos de múltiplas espécies para um envolvimento ajustado a tempos de crise climática, devem ser valorizados. Reflorestemos as áreas destruídas. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Como a supremacia branca e patriarcal determinou a violência contra a Amazônia e contra as mulheres?

E declaramos:
– Parte das elites políticas e econômicas do Brasil enxergam a floresta da mesma forma que enxergam as mulheres: como um corpo para violação e exploração. As mulheres lideram as lutas na Amazônia e, como a floresta, são também, junto com a juventude negra e pobre, as que mais sofrem violência. Precisamos barrar a violação dos corpos. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Quem são vocês, os que cortam as árvores e as vidas, os que envenenam os rios e as matas com agrotóxicos, mercúrio e cianeto, os que secam as águas, osque arrancam as crianças da florestas e as jogam nas periferias urbanas destituídas de tudo e também de memória?

E declaramos:
– Vocês veem a floresta e os rios como mercadoria, como recursos a serem explorados. Vocês veem os humanos e os não humanos como descartáveis. Vocês são os que tiveram a alma asfixiada por concreto. Vocês são os que não amam nem mesmo os próprios filhos porque não se importam se eles não tiverem futuro. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Quem somos nós?

E declaramos:
– Nós somos aqueles e aquelas que não possuem a floresta. Nós somos floresta. Nós somos aqueles e aquelas que não destruímos a natureza. Nós somos natureza. Nós somos aqueles e aquelas que temos várias cores e formas e línguas e sexualidades e cosmologias e culturas. Somos também aqueles e aquelas que fazemos das diferenças a nossa força. Os que respeitam todas as gentes, as humanas e as não humanas. Aqueles e aquelas que querem viver e fazer viver. Somos também aqueles e aquelas que sabem que não há os de dentro e os de fora. Somos todos e todas de dentro na única casa que temos. Nós somos aqueles e aquelas que queremos garantir um futuro até mesmo para os filhos daquele que tentam nos destruir.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Qual é a nossa aliança?

E declaramos:
– Nossa aliança é pela descolonização de almas e mentes. Unidos no centro do mundo, somaremos o conhecimento dos intelectuais da floresta ao dos intelectuais da universidade; articularemos a experiência dos mais velhos à potência dos mais jovens; faremos o diálogo das identidades; respeitaremos todos os corpos. Sonhamos uma educação com a comunidade e não para a comunidade. Sabemos que só existirá floresta enquanto existirem os povos da floresta. Estaremos juntos, como múltiplos de um, nas lutas de todas as Amazônias. Onde a floresta sangrar, nós estaremos. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– O que queremos?

E declaramos:
Queremos amazonizar o mundo e amazonizar a nós mesmos. Liderados pelos povos da floresta, queremos refundar o que chamamos de humano e voltar a imaginar um futuro onde possamos viver”.

Fotos: Anderson Souza/Agência Pública

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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