Amabela: associação reúne mulheres que cultivam seus quintais e cuidam do meio ambiente, no Pará

O cheiro que inebria a cozinha se assemelha ao do café, só que a bebida, quentinha e saborosa, é feita a partir da semente do açaí torrada. O caroço dessa fruta é muito abundante no Pará, e com a inovação do produto, Selma Ferreira da Costa, ou Dona Selma, como é conhecida, reaproveita um resíduo antes desperdiçado e cuida do meio ambiente. Na foto acima, ela está dentro da Kombi.

Mas não é só desse aspecto que ela cuida. Em 2015, Dona Selma criou a Amabela – Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Belterra, hoje com 45 integrantes, que cultivam em seus quintais uma grande variedade de alimentos orgânicos.

A cidade, Belterra, está localizada no oeste do Pará, a cerca de 40 km de Santarém. Tem aproximadamente 17 mil habitantes e é um lugar que tem parte de seu território ocupado pela Floresta Nacional de Tapajós, unidade de conservação onde vivem comunidades tradicionais, e a outra parte é dominada por lavouras de soja, em áreas pulverizadas com agrotóxicos.

No processo do avanço da soja em Belterra, muitos agricultores familiares venderam seus lotes e passaram a habitar terrenos menores, mais próximos da área urbana da cidade. Outros permaneceram em seus terrenos, mas cercados por grandes cultivos da soja. As mulheres da Amabela são a resistência contra o uso de agrotóxicos, atuando no cuidado com o meio ambiente e com o empoderamento feminino.

No coração de toda essa história, encontramos Dona Selma.

Em 2013, ela trabalhava no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Belterra, e entre suas atribuições veio aquela que seria a semente da Amabela. Um edital aberto pelo Fundo Dema (que apoia projetos coletivos de povos indígenas, quilombolas, comunidades extrativistas, ribeirinhas e da agricultura familiar que visam a valorização socioambiental dessas populações, assim como a preservação do bioma amazônico) fez com que Dona Selma buscasse incentivar a inscrição de pequenos projetos elaborados por mulheres no Baixo Amazonas. E, desse processo construtivo, surgiu o Fundo Autônomo de Mulheres Rurais da Amazônia Luzia Dorothy do Espírito Santo. Muitos dos projetos inscritos para este Fundo tiveram como objetivo criar associações de mulheres. E nesse movimento surgiu a Amabela.

Dona Selma visitou as agricultoras nas comunidades locais com a proposta de criar a associação. Para participar, as mulheres deveriam cultivar seus quintais. “A Amabela nasceu pra gente trabalhar com o empoderamento feminino e direitos territoriais, em defesa do meio ambiente e também na coleta e reaproveitamento das sementes da biodiversidade”, define ela. “Quanto começamos o projeto, tudo foi muito desafiador, especialmente por causa do agronegócio no município de Belterra. Diziam pra gente que não era possível cultivar sem uso de agrotóxico. E a gente provou que era. Muitas pessoas adoecem aqui, com problemas respiratórios, por causa dos agrotóxicos. As mulheres não tinham mais estímulo para trabalhar. Criamos a associação e batemos de porta em porta para estimular as mulheres a produzirem em seus quintais e preservarem suas terras”.

Força e inovação

Conheci o Café de Açaí e a Dona Selma pelas mãos de outra mulher: Glinnis da Rocha, empreendedora da Tipiti, negócio social que incentiva a produção local e o comércio justo, sobre o qual já escrevi aqui, no Conexão Planeta. Glinnis se encontrou com Dona Selma, pela primeira vez, em 2018 e, desde então, os produtos do quintal da agricultora são comercializados pela Tipiti.

O Café de Açaí é o produto mais conhecido de Dona Selma, mas a paraense está sempre experimentando coisas novas com sementes. Como o Cupulate, produto parecido com chocolate, só que feito com o cupuaçu, cuja receita, embora não seja originalmente criada por ela, passou por alterações até chegar ao sabor que lhe agradasse. “Sempre que chega semente em casa eu quero torrar, comer, ver o que pode virar. Não gosto de jogar fora. E, assim, surgiu o Café de Açaí. Fui torrando várias sementes, e quando chegou a vez do açaí, da torra subiu um cheiro parecido com o do café. Caroço de abacate, de jaca, qualquer semente eu transformo em alimento”.

Além das inovações de Dona Selma, as mulheres da Amabela produzem chás, bolos, compotas, licores, doces, cachaça, artesanato e muitas outras coisas em seus quintais. “Cada mulher tem seu talento. Vamos trocando nossas experiências, nossos sabores, nossos saberes. Antes, eu trabalhava na roça, só que sozinha, sem mulheres perto de mim. Na Associação, fazemos rodas de conversa e ouvimos o depoimento de cada uma de nós. E é muito bom a mulher ter a oportunidade de falar o que está sentindo, o quanto sofre e o que quer. Por mais que a gente não alcance todos os sonhos e todas as metas, essa expressão do nosso sentimento já é muito boa”.

Foto: Divulgação

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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