Alto Comissariado da ONU alerta sobre “redução de espaço democrático” no Brasil

Alto Comissariado da ONU alerta sobre “redução de espaço democrático” no Brasil

*Atualizado em 05/09/19

Em discurso realizado hoje, em Genebra, na Suíça, Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e atual Alta Comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos humanos, mostrou preocupação com o aumento da violência policial no Brasil e mencionou o crescimento de assassinatos em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Entre janeiro e julho de 2019, 1.075 pessoas perderam a vida em confrontos com a polícia carioca, 20% a mais do que no mesmo período do ano passado. Na segunda semana de agosto, em um período de apenas cinco dias, seis jovens foram mortos, atingidos por balas perdidas ou baleados diretamente, no Rio, enquanto aconteciam operações policiais.

“Vimos uma alta na violência policial, em meio a um discurso público que legitima execuções sumárias e a falta de responsabilização”, criticou Bachelet.

Ela citou ainda o alto número de mortes de negros e defensores de direitos humanos no país (este ano o Brasil aparece em 4o lugar no ranking global de países com mais assassinatos a ambientalistas, ativistas e indígenas).

A representante da ONU também afirmou que “houve uma redução no espaço democrático” no Brasil.

Em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro comparou o discurso de Michellet Bachelet com as declarações recentes feitas pelo presidente Emmanuel Macron, em relação aos incêndios florestais na Amazônia: os dois estariam se intrometendo na soberania nacional.

“Ela agora vai na agenda de direitos humanos. Está acusando que eu não estou punindo policiais que estão matando muita gente no Brasil. Essa é a acusação dela. Ela está defendendo direitos humanos de vagabundos”, replicou Bolsonaro.

Assim como já fez em uma ocasião anterior, quando de forma leviana e desumana, falou sobre o desaparecimento nos porões da ditadura do pai do presidente da Organização dos Advogados do Brasil (OAB), Fernando Santa Cruz, o presidente brasileiro atacou a família de Bachelet.

O pai da ex-presidente do Chile foi um opositor ao governo ditatorial do general Augusto Pinochet, e por isso, foi assassinado. Michelet Bachelet também foi torturada. “Se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 73, entre eles o seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Acho que não preciso falar mais nada para ela”, atacou Bolsonaro.

E o insulto continuou. “Quando tem gente que não tem o que fazer, como a senhora Michelle Bachelet, vai lá para cadeira de Direitos Humanos da ONU”.

Difícil dizer o que é mais triste. O presidente do Brasil fazendo comentários como os acima e se portando de maneira tão baixa e desrespeitosa, ou se é nosso país em destaque nas manchetes internacionais devido a posições cada vez mais equivocadas tomadas pelo atual governo.

Dia após dia a sociedade civil perde espaço na composição de importantes agências e órgãos responsáveis pela formulação de políticas públicas no país. Isso quando estes próprios órgãos não são extintos (leia mais aqui). Além disso, a área de educação sofre graves cortes no orçamento (em junho, ex-ministros da Educação se reuniram para debater a crise e divulgaram  nota de repúdio) e o trabalho dos cientistas brasileiros é colocado em xeque.

Tudo muito triste e lamentável.

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*No final de noite, o Ministério das Relações Exteriores divulgou uma nota condenando as declarações de Michelle Bachelet. Não é a primeira vez que a Alta Comissária trata o Brasil com descaso pela verdade factual: recentemente, antes que fossem concluídas as investigações sobre a causa da morte de indígena Wajãpi, precipitou-se em afirmar que se tratava de assassinato, o que mais tarde se revelou inverídico”, diz o texto do comunicado. Apesar da afirmação do ministério, o caso não é simples assim, tanto que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e a Associação dos Povos Indígenas contestaram o laudo da morte do cacique.

Quem se pronunciou também foi o presidente do Chile, Sebastián Piñera, que repudiou as falas do presidente Bolsonaro contra Bachelet. “Não compartilho, em absoluto, com a referência feita por Bolsonaro a respeito de uma ex-presidente do Chile (Michelle Bachelet) e, especialmente, a um tema tão doloroso quanto a morte do pai dela.  É de público conhecimento meu permanente compromisso com a democracia, a liberdade, e ao respeito aos direitos humanos em todo o tempo, em todo lugar, em toda circunstância”, destacou em entrevista à CNN.

*Com informações da Agência de Notícias Reuters

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Foto: domínio público/pixabay

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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