Alta temperatura da água do mar mata mais de 90% de corais-de-fogo no sul da Bahia

Alta temperatura da água do mar mata mais de 90% de corais-de-fogo no sul da Bahia

Apesar de ser uma das espécies mais resistentes, com grande capacidade de crescimento e multiplicação em comparação a outros encontrados no Brasil, os corais-de-fogo (Millepora alcicornis) sofreram muito com o impacto do fenômeno El Niño na Costa do Descobrimento, no sul da Bahia.

A constatação foi feita por uma equipe de pesquisadores do Projeto Coral Vivo, que monitora os recifes da região.

De acordo com os cientistas, em algumas áreas a taxa de mortalidade dos corais-de-fogo foi acima de 90%. “Como as temperaturas se mantiveram elevadas até junho, com uma média de 29,6°C, essa espécie começou a morrer em maio. Para se ter uma ideia, a temperatura chegou a 31,4ºC nos recifes mais rasos”, revela Carlos Henrique Lacerda, zootecnista e coordenador regional do Projeto Coral Vivo.

Os pesquisadores explicam que o El Niño, entre 2018 e 2019, está mais severo do que aquele observado no período anterior, ocorrido entre 2015 e 2016. Eles perceberam também um aumento de quase 15% da radiação solar incidente na região.

Mergulho de monitoramento dos corais no sul da Bahia

Impacto do El Niño sobre os corais

O El Niño é um fenômeno causado pela desaceleração dos ventos alísios, que sopram na região do Equador. Sem eles, o calor se intensifica nos oceanos, já que as águas não se movimentam.

Recifes de corais sofrem muito com o aumento da temperatura do mar. Eles perdem sua coloração, tornam-se brancos, devido à acidificação da água.

E não foi apenas na costa baiana que foi notada a mortandade de corais provocada pelo calor atípico. “Em São Paulo, observamos um branqueamento de 80% das colônias de coral e mortalidade de 2%”, destaca Miguel Mies, pesquisador do Instituto Oceanográfico da USP e membro da Rede de Pesquisas Coral Vivo.

Todos os dados obtidos pelo Projeto Coral Vivo fazem parte de um monitoramento frequente, realizado desde 2016, na Costa do Descobrimento.

Uma série de sensores instalados em pontos estratégicos, incluindo o Parque Natural Municipal do Recife de Fora, em Porto Seguro, e o Parque de Coroa Alta em Cabrália, registram a temperatura da água, a cada 30 minutos, e a incidência de luz solar. “Além disso, os pesquisadores realizam uma avaliação do estado de saúde das colônias de corais por meio de mergulhos, utilizando uma escala de cor internacional, denominada Coral Watch, desenvolvida pela Universidade de Queensland, na Austrália”.

Entre 1998 e 199, recifes de corais de Tamandaré, em Pernambuco, também foram afetados pelo El Niño. “Posteriormente se recuperaram, ainda que lentamente, mas mediante a implementação de várias medidas de manejo e conservação, incluindo legislação específica de proteção com a criação de áreas de preservação e a redução de impactos diretos, com envolvimento da comunidade local”, conta Beatrice Ferreira, bióloga e professora da Universidade Federal de Pernambuco e coordenadora do Programa Ecológico de Longa Duração Tamandaré Sustentável (PELD).

O Projeto Coral Vivo nasceu no Museu Nacional da UFRJ e é realizado por 14 universidades e institutos de pesquisa.

Leia também:
Onda de branqueamento de corais atinge Ilhas Maldivas
Pequeno roedor nativo da Grande Barreira de Corais, na Austrália, entra em extinção por causa das mudanças climáticas
Corais de Abrolhos sofreram impacto de metais pesados da lama da Samarco (Vale)
A beleza nas profundezas dos Corais da Amazônia

Fotos: biólogo do Projeto Coral Vivo Leandro Santos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Deixe uma resposta