Almere, uma cidade disposta a zerar seus resíduos

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selo-economia-criativa-especial-XA história da cidade é recente: Almere era parte do Mar do Sul da Holanda até 1959, quando tiveram início os trabalhos de drenagem e aterramento. Em 1968, o solo nu do polder estava pronto para ser ocupado, mas a primeira casa só ficou pronta em 1976 e o município foi oficializado oito anos mais tarde, em 1984. De lá para cá, a cidade mais nova do país cresceu vertiginosamente, chegando aos 200 mil habitantes em 2016. E ainda estabeleceu para si mesma a meta de chegar a 350 mil habitantes até 2030.

Diferente de muitas cidades de fronteira econômica em países em desenvolvimento, porém, todo esse crescimento é planejado e segue regras socioambientais estritas. Quem decide morar em Almere, já se muda sabendo que a municipalidade aposta na sustentabilidade em todos os aspectos da vida urbana e comunitária. As fontes de energia solar e eólica têm prioridade; a produção local de alimentos orgânicos tem preferência no comércio e a meta para os resíduos é chegar a zero, seja reduzindo a produção de lixo, seja reutilizando e reciclando tudo o que for possível e deixando para incinerar o mínimo (e ainda assim com produção de energia).

As regras rigorosas de disposição de lixo foram estabelecidas em 2010, quando a média de produção de resíduos sólidos, por habitante, era de 500 quilos por ano. Em 2 anos, essa média caiu para 300 kg/hab/ano e até 2020 deve chegar a 50 kg/hab/ano, sendo esse total exclusivamente de resíduos passíveis de incineração. Ou seja, zero lixo para disposição em aterros sanitários!

Um primeiro passo importante para alcançar tal meta foi investir pesado na coleta seletiva. Recipientes para os mais diversos tipos de resíduos foram instalados por todo o município, zona urbana e rural. É possível encontrar lixeiras de vários tamanhos para lixo orgânico, plásticos, vidros, metais, papeis, baterias, tecidos, eletroeletrônicos, lâmpadas e até bitucas de cigarros! Os cidadãos seguem as instruções para o depósito apropriado. E quem não souber onde fica a lixeira mais próxima, adequada para seu tipo de resíduo, tem a alternativa de baixar um aplicativo para celular que indica a localização.

Na coleta em domicílio, não se usam sacos plásticos. O lixo é separado em duas lixeiras – uma de orgânicos e outra de recicláveis – e elas são esvaziadas diretamente em um dos dois contêineres do caminhão de coleta, um para orgânicos e outro para recicláveis. Existe uma tabela de dias de coleta para cada tipo de resíduo. Quem errar na hora de dispor o lixo na porta, da primeira vez ganha uma advertência do lixeiro, expressa num cartão pendurado em sua lixeira. Se insistir no erro, o cidadão é multado e quem aplica a multa também é o lixeiro.

Se um resíduo não se encaixa em nenhuma categoria para a qual existem recipientes pela cidade ou para a qual existe coleta em domicílio, a opção é levar para uma grande central, localizada nos limites da cidade. Ali não faltam opções de recipientes para móveis, pneus, eletrodomésticos, brinquedos, madeiras, entulho e uma vasta gama de materiais.

A central ainda abriga uma série de espaços para a instalação de pequenas oficinas de reaproveitamento ou reciclagem de materiais. Alguns moradores de Almere já ganham a vida transformando velhas bicicletas quebradas em versões vintage em perfeitas condições de uso, por exemplo. Outros usam as peças aproveitáveis dos eletrodomésticos para fazer consertos. E outros reciclam móveis, couro, papel e vidro.

Uma segunda central de resíduos está em construção para atender Almere, com o objetivo de se transformar em uma unidade de Upcycling. É um tipo de reciclagem de alta qualidade, na qual os produtos ou os materiais obtidos não são de segunda categoria: têm, no mínimo, a mesma qualidade dos produtos novos e materiais virgens. A central de Upcycling deve começar a funcionar até o final de 2016.

Quanto ao lixo orgânico, é integralmente transformado em adubo, muito necessário em uma terra conquistada do mar. Grandes estufas localizadas em torno da cidade recebem parte do adubo, empregado no cultivo de hortaliças e frutas, destinadas às feiras e aos mercados locais. Criadores de animais recebem seu quinhão, utilizado na fertilização de pastagens. As escolas recebem outra parte e envolvem as crianças no plantio de pequenas hortas. Outra parte vai para associações comunitárias, para o cultivo de jardins urbanos, no qual trabalham muitos voluntários. E os cidadãos comuns podem ter seu quinhão, afinal 86% da população do município vive em casas com jardins e só 14% em prédios.

Em resumo, um bom planejamento e uma boa infraestrutura de coleta seletiva garantem o caminho de Almere rumo à meta Zero Resíduos. Mas uma boa dose de cidadania e senso de bem comum fazem toda a diferença na hora de colocar os planos em prática. É o que mostram, também, as fotos abaixo e o vídeo, no final do post.

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1. Recipientes para todos os tipos de resíduos estão espalhados por Almere

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2. O lixo orgânico também faz parte da coleta seletiva, em recipientes próprios

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3. Lixeiras de diversos tamanhos podem ser encontradas em praças e parques

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4. Até as bitucas de cigarros têm sua “bituqueira” especial

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5. Quem não souber onde colocar seus resíduos conta com um aplicativo de celular

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6. Fora da cidade, uma central também recebe os resíduos maiores, como pneus

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7. Eletrônicos são desmontados para reaproveitamento das partes boas

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8. Mesmo no contêiner da miscelânea tem produtos e materiais reaproveitáveis

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9. Pequenas oficinas montadas na central de resíduos dão conta da reciclagem

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10. Partes de diversas bicicletas servem para a montagem de bicicletas vintage

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11. A remontagem das bicicletas é feita nas oficinas da central de resíduos

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12. Recicladas, as bicicletas vintage saem prontinhas para uso

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13. O lixo orgânico vira adubo para estufas, pastagens e jardins públicos

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14. Quem errar na hora de dispor os resíduos, ganha advertência ou multa do lixeiro

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15. Na coleta em domicílio, não se usam sacos plásticos: orgânicos e recicláveis vão direto para um dos dois contêiners do caminhão

Agora, assista ao vídeo que resume bem as práticas em Almere para que a cidade alcance logo sua meta.

Fotos abertura, 1, 2, 3, 4, 5, 9, 11 e 13: Prefeitura de Almere/Divulgação

Fotos 6, 7, 8, 10, 12, 14 e 15: Liana John

Economia Criativa

Esta reportagem faz parte do Especial que apresenta uma série de 10 reportagens sobre reciclagem de resíduos na Holanda que realizei a convite do Ministério das Relações Exteriores daquele país. Lá, visitei empresas recicladoras holandesas que podem nos servir de exemplo e inspiração para o desenvolvimento de uma Economia Circular brasileira.

Saiba mais no primeiro post que escrevi – É hora de apostar na Economia Circular – e acompanhe os temas que fazem parte deste especial:

1. Reaproveitamento de couro de sofás
2. Novas funções para velhas estruturas de aço
3. Colchões de espuma para isolamento térmico
4. A difícil arte de separar fibras têxteis
5. Os 3Rs no universo das filmagens
6. Lixeiras com eficiência máxima
7. Carga pesada no desmonte de navios
8. Reciclagem de eletrodomésticos
9. Do papel ao papel
10. Almere, uma cidade com meta Zero Resíduos (este post)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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