A mulher que está abalando a política nos Estados Unidos

Uma mulher jovem, de 29 anos, de origem latina, filha de mãe porto-riquenha, e que até pouco menos de um ano atrás trabalhava como garçonete para ajudar as despesas da família é hoje a maior novidade da política nos Estados Unidos. Seu nome é Alexandria Ocasio-Cortez, a mulher mais jovem a ser eleita para o Congresso americano (o Conexão Planeta já comentou sobre ela, mulheres indígenas e muçulmanas, negros e LGBTs eleitos em novembro)

Ela chegou lá a partir de uma campanha em grande parte impulsionada e desenvolvida nas redes sociais e com uma plataforma baseada em temas considerados “socialistas”, como o aumento de impostos para os mais ricos e
acesso universal ao sistema de saúde.

Alexandria, também conhecida como AOC, desafia o status quo do Partido Democrata, acusado por ela e seus apoiadores de estar por demais dependente dos interesses econômicos e longe do que querem as bases. Mas ela está se tornando, principalmente, uma enorme pedra no sapato do Partido Republicano e, por tabela, do presidente Trump (embora, até o momento, ele insista em ignorá-la).

Nas duas semanas desde que os congressistas assumiram o mandato, Alexandria Ocasio-Cortez literalmente tem dominado o noticiário político, com seu uso permanente e inteligente das plataformas e redes sociais, especialmente o Twitter, para desafiar políticos de ambos partidos. Ela também já abraçou propostas muito concretas, como o Green New Deal, um programa de estímulo voltado para diminuir as diferenças econômicas e combater as mudanças
climáticas.

A quantidade de adversários que ela vem acumulando não é banal. Pelo lado republicano, não há um dia em que políticos ou comentaristas conservadores deixem de lembrar a pretensa inexperiência e desconhecimento de Alexandria. Comentários condescendentes ou de tom claramente machista acumulam-se. A deputada aproveita-se de todos estes ataques para reforçar sua imagem de independência, no que tem sido muito bem-sucedida.

Um caso clássico do tipo de ataque que ela vem sofrendo foi um vídeo no qual aparece, ainda na época de estudante, dançando no teto de um edifício com amigos. A proposta era a de afetar sua imagem pública, mas teve um feito contrário, com milhares de pessoas apoiando nas redes a vivacidade e leveza da deputada. Ela mesma aproveitou e publicou no Instagram outro vídeo no qual dançava na porta do seu gabinete no Congresso, com mais de 3,2 milhões de
visualizações até o momento.

Em seguida, uma foto do que seriam supostamente seus pés enquanto tomava banho em uma banheira apareceu na Reddit, uma rede extremamente popular nos Estados Unidos, e foi replicada em canais conservadores, causando um certo frisson fetichista e machista. A foto logo foi desmentida por outros usuários do Reddit, mas mostra que querem atingi-la por todos os lados.

Fogo amigo

Mesmo entre os democratas, o estilo, apostura e a agenda de Alexandria parecem causar rachaduras. Uma reportagem do site Político levantou muito debate ao indicar que estaria em curso uma tentativa de lideranças do Partido Democrata de “enquadrar” a deputada.

Alexandria chegou à vida pública desafiando um dos grandes “caciques” democratas, o Deputado Joseph Crowley, na época cotado para se tornar líder do partido. Ela venceu-o de forma surpreendente nas eleições primárias, roubando-lhe a indicação para a candidatura ao Congresso. Esta vitória de uma desconhecida parece ainda refletir-se dentro da máquina partidária.

Pela reportagem do Politico, os congressistas democratas mais experientes gostariam que ela tomasse um tempo para conhecer melhor como funciona o Congresso, antes de se posicionar publicamente sobre temas delicados. O fato é que Alexandria parece conhecer muito bem com funciona o Congresso e, por isto mesmo, se posiciona desde o começo pela transformação.

Como ela mesma disse, mostrando-se antenada com o mundo Geek ao usar uma fala do personagem Rorschach, de Watchmen, o trabalho premiado de Alan Moore: “Nenhum de vocês entende. Eu não estou trancada aqui com vocês. Vocês é que estão trancados aqui comigo!”.

Política em rede

Os votantes do distrito 14 de NY, que engloba partes do Queens a do Bronx, e que elegeram Alexandria para o Congresso, além dos milhares de apoiadores e entusiastas que vêm rapidamente se acumulando, parecem entender bem o que ela quis dizer.

Existe evidentemente um desejo de renovar a política. Este desejo esteve por trás da vitória de Donald Trump. Mas a chegada do empresário ao poder não conta toda a história e nem resume o que as pessoas realmente querem.

Tal como Trump, Alexandria faz um uso incessante das redes sociais – e esta é, inclusive, uma das críticas a ela -, mas diferentemente do empresário, ela efetivamente está conectada com o que pensam e querem a novas gerações.

Mais do que isso, ela traz profundas raízes na comunidade – tanto sua comunidade local, tanto com o universo virtual, que lhe abre espaço para o mundo. Ou seja, é o sonho do “glocalismo” na política – do local como sentido ético que abre margem para um canal de entendimento e solidariedade globais.

Nova forma de fazer política

Alexandria é fruto direto das mobilizações que quase levaram Bernie Sanders a ser o candidato democrata à presidência em 2016. Insatisfeitos e profundamente desapontados com as maquinações que a estrutura de poder, incrustada na liderança democrata, fizeram para dar o lugar a Hillary Clinton, alguns dos líderes da campanha de Sanders criaram estruturas e organizações para renovar o partido por dentro.

As organizações mais conhecidas são a Justice Democrats, que defende plataformas como o acesso universal à assistência médica, regulamentação de Wall Street, paralização da “guerra às drogas” e reforma do sistema eleitoral. Como estratégia advogam o apoio a candidatas e candidatos fora do mainstream para substituir os chamados “democratas corporativos”, que devem grande parte de suas vidas políticas ao apoio de grandes empresas.

Em 2016, a Justice Democrats lançou uma convocatória pública pedindo aos americanos que indicassem líderes comunitários para concorrer ao Congresso. Alexandria Ocasio-Cortez foi uma destas pessoas. Na época, ela ainda trabalhava como garçonete e, apesar de vir de uma família acostumada a falar sobre política, nunca havia participado das estruturas formais partidárias. O movimento lhe deu o estímulo, as conexões e o apoio necessários para que ela seguisse a carreira política em tempo integral.

A segunda organização é a Brand New Congress, iniciativa que busca especificamente apoiar candidaturas que estejam ligadas às bases nas comunidades e desafiem o status quo que domina ambos partidos. Para isso, mobilizam doações individuais para apoiar um conjunto de candidatos alinhados com a ideia de renovação.

Ambas organizações apoiaram candidatos comuns nas últimas eleições. O que elas fazem é usar todos seus conhecimentos de mobilização em rede para levantar recursos que permitam às candidaturas apoiadas prescindir de dinheiro das corporações. Elas também criam canais de comunicação direta entre candidatos e apoiadores.

Nem todos os candidatos apoiados pelas organizações foram bem sucedidos nas eleições de 2018, mas a emergência de Alexandria mostra que este caminho tem um potencial extraordinário. Não é sem razão que ela está montando sua equipe no Congresso com vários membros que vieram direto do Justice Democrats.

O Partido Democrata dificilmente será o mesmo e seus líderes terão de aprender rapidamente a lidar com esta realidade, ou serão literalmente atropelados por ela.

Quanto à Alexandria Ocasio-Cortez, há pelos menos dois polos envergando narrativas distintas sobre ela: aqueles que torcem publicamente, ou na moita, para que ela seja uma Supernova e que exploda logo. E há aqueles – e são milhares – que acreditam que ela será, um dia, Presidente dos Estados Unidos.

Alexandria ainda tem um longo caminho a seguir, já que sequer poderia se candidatar antes de completar 35 anos, mas, neste momento/ a Casa Branca parece mesmo ser o seu destino.

Fotos: Jessy Korman (no destaque) e Corey Torpic / Divulgação 

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

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