Alemanha estuda aumentar imposto sobre carne para desestimular consumo e combater crise climática

Alemanha estudo aumentar imposto sobre carne para desestimular consumo e combater crise climática

Ao mesmo tempo em que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), órgão das Nações Unidas, lança um novo relatório em que alerta que a segurança alimentar do planeta depende da redução do consumo de carne e o melhor uso da terra, o governo da Alemanha analisa aumentar o imposto sobre a carne.

Hoje o Valor Agregado (IVA) da carne no país é de 7%, taxa reduzida cobrada na maioria dos alimentos. A proposta feita pelos representantes do do Partido Social Democrata (SPD) e do Partido Verde é que esse porcentual passe para 19%.

O objetivo do aumento seria para desestimular a população alemã a comprar carne e buscar outras alternativas de proteínas para sua alimentação, além de promover o bem-estar dos animais e também – e não menos importante -, proteger o planeta dos efeitos das mudanças climáticas.

Carne x desmatamento

Para atender a voracidade da atual dieta do ser humano, baseada cada vez mais no alto consumo de proteínas, vastas áreas de terras são transformadas em plantações de soja e outros cultivos para alimentar vacas, bois, galinhas, porcos e outros animais, os grandes favoritos em nossos pratos nas últimas décadas.

No Brasil, por exemplo, parte da ampliação do solo cultivado de soja se dá sobre áreas de vegetação nativa da região chamada de Matopiba, que compreende os estados do ​Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Um estudo divulgado pela iniciativa global Trase, no ano passado, revelou que entre 2001 e 2017, o plantio do grão cresceu 310% apenas no Matopiba, sendo que 65% se fez diretamente sobre vegetação nativa, ao contrário do restante das áreas de Cerrado, onde o cultivo foi feito sobretudo em pastagens (70%).  

Cultivo de soja: um dos principais responsáveis pelo desmatamento

Já na região norte amazônica, o desmatamento ocorre porque muitas áreas estão sendo transformadas em pasto para o gado. De acordo com um levantamento realizado pelo WWF-International, 60% das perdas da biodiversidade do mundo são provocadas pela nossa dieta baseada, sobretudo, em laticínios, carne e alimentos processados. Entre as regiões que sofrem a maior pressão estão a Amazônia, a Bacia do Congo e o Himalaia.

O relatório do IPCC salienta que 23% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera da terra são provenientes da agropecuária e outros tipos de atividades ligadas à exploração do solo. Além dos animais (gado) emitirem gás metano, o desmatamento das florestas faz com que as árvores (que não existem mais) deixem de absorver o dióxido de carbono.

Segundo reportagem do jornal Deutsche Welle, só no primeiro semestre de 2019, os abatedouros na Alemanha mataram 29,4 milhões de porcos, vacas, ovelhas, cabras e cavalos.

Diferente do que ocorre em outros países, a carne não é um alimento caro para os alemães.

Enquanto a proposta ainda é discutida no parlamento daquele país, há dúvidas sobre como o dinheiro extra arrecadado seria usado. Os políticos que defendem a nova taxa sugerem que ele seja usado para melhorar a qualidade de vida dos animais. Já o ministério da Agricultura alega que os pecuaristas deveriam ser compensados pelo possíveis futuros prejuízos.

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Marvada Carne

Fotos: domínio público/pixabay

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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