Água de beber, água de molhar, água de brincar, sim!


Aquela placa sempre me inquietou. As crianças brincando no tanque de areia e as letras escritas como as da professora dos tempos de escola – redondas e caprichadas: “Parabéns! Uau! Você não brincou com água, hoje”.

Você pode estar aplaudindo também, afinal, quem mora em São Paulo ou em outra capital brasileira se recorda do racionamento de água dos últimos anos e dos longos períodos sem chuva. Ou, dependendo da região onde se mora, longe ou perto dos bairros nobres, ainda vive o racionamento e a insuficiência da água.

No parque que frequento com o meu filho, sob a torneira próxima ao tanque de areia, crianças vão e voltam, advertidas por suas mães, pais, babás: é proibido brincar com água, é proibido brincar com água na areia, é proibido desperdiçar água.

Até 2040, segundo o último relatório da Unicef, 600 milhões de crianças viverão em territórios onde a busca pela água pode não levar a nada. Direito humano essencial, o acesso à água potável é afetado pelas mudanças climáticas que assistimos, e sua escassez acirra as desigualdades, prejudicando especialmente as populações mais vulneráveis.

No Brasil, cerca de 15% dos domicílios não têm acesso adequado à água, segundo o Observatório da Criança e do Adolescente da Fundação Abrinq, o que corresponde a aproximadamente três milhões de lares. No nordeste brasileiro, esta realidade é antiga e se repete ainda mais: a seca, que já dura sete anos, está afetando 24 milhões de pessoas, e isso traz consequências indiretas à saúde, como a zika, a diarreia e a cólera.

Então, isso significa que é correto proibir brincadeiras com água. Certo?

Crianças brincam com água desde sempre. Banho de chuva, brincar de barquinho na água corrente da chuva nas ruas, guerrinha de bexiga d’água. Arminha d’água. Barcos, jangadas, canoas, pranchas. Brinquedos construídos por crianças, brinquedos feitos por adultos. A água faz nossos sonhos correrem, se espalharem, mergulharem e voltarem à superfície.

Brincar com água no tanque de areia é uma alquimia só. Represar a água, deixá-la correr, se espantar quando a terra a absorve; ‘Cadê? ’, revelam os olhos curiosos e de veneração da criança. Molhar a terra novamente e misturar, misturar. Modelar a terra molhada e, ao jogar mais água, vê-la correr escura, terra pelo chão. É mágico.

Encher e esvaziar baldinhos. Lavar bonecas e paninhos. São tantas as brincadeiras com água… O Território do Brincar, programa de pesquisa, intercâmbio e difusão da cultura infantil idealizado por David Reeks e Renata Meirelles e correalizado pelo Instituto Alana, documentou inúmeras delas, inclusive os delicados carrapixos das crianças do litoral cearense ou as jangadas de chinelo velho do Recôncavo Baiano chamadas por lá de tamancas. E você, brincava do que com água?

Não à toa, a água é um elemento tão essencial em brincadeiras: 70% do planeta é composto de água, muitos alimentos e outros seres vivos também se constituem assim. Presente desde a fecundação, na gestação e no decorrer da vida humana, a água está presente em quase 80% do organismo humano.

Em grandes centros urbanos, a desconexão da vida com os ambientes naturais e os elementos da natureza, além da desigualdade de acesso e a iminência da escassez, restringem o nosso olhar para a finalidade prática da água, tratando-a apenas como um bem de consumo.

Por outro lado, no mundo todo, em diferentes culturas, civilizações, tempos e religiões, temos exemplos da água como elemento constituinte da vida simbólica: da ideia de purificação (o batismo, água benta e os líquidos de cura); a criação, o nascer ou renascer das águas; a fecundidade, a morte, o caos (dilúvios e tempestades). Mostra que a compreensão meramente racional deste elemento põe em xeque a integralidade e o desenvolvimento da pessoa humana, desconsiderando as dimensões espiritual, física, emocional, sensorial, entre tantas outras.

Quando vemos meninos e meninas insistindo, persistindo em brincar com água, algo se revela: lutar pelo direito à água deve incluir o direito a tê-la como elemento da imaginação e do sagrado vivido e revivido em cada poça, rio, torneira, baldinho, mangueira.

Foto: Sasint/Pixabay

Raquel Franzim é pedagoga e especialista em educação infantil. Atuou por 14 anos na rede pública de educação infantil na cidade de SP, como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Atualmente, é assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

Raquel Franzim

Raquel Franzim é pedagoga e especialista em educação infantil. Atuou por 14 anos na rede pública de educação infantil na cidade de SP, como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Atualmente, é assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

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