África enfrenta uma das piores infestações de gafanhotos das últimas décadas

África enfrenta uma das piores infestações de gafanhotos das últimas décadas

As lavouras da Etiópia, Quênia e Somália estão sendo destruídas por uma das maiores infestações de gafanhotos do deserto (Schistocerca gregaria) dos últimos 25 anos. A espécie é tida como a praga migratória mais antiga da humanidade.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) fez um alerta da necessidade urgente de se combater o problema nesses países da África, onde vivem cerca de 19 milhões de pessoas, que já possuem dificuldades em ter acesso a alimentos.

“É uma questão que se tornou uma situação de dimensões internacionais que ameaça a segurança alimentar de toda a sub-região. A FAO está ativando mecanismos que nos permitirão avançar rapidamente para apoiar os governos na montagem de uma campanha coletiva para lidar com esta crise”, afirmou QU Dongyu, diretor-geral da organização.

Segundo as autoridades locais, o tamanho e a ferocidade dos enxames de gafanhotos e seu consequente potencial destrutivo são assustadores. Um dos países mais afetados é o Quênia, onde um cenário de devastação igual só foi visto há 70 anos. O governo já gastou US$5 milhões para tentar combater a infestação da praga.

África enfrenta uma das piores infestações de gafanhotos das últimas décadas

Os gafanhotos do deserto podem voar até 150 km por dia e
se reproduzir de forma assustadora

Especialistas apontam as condições climáticas atípicas no continente africano como uma dos responsáveis pela proliferação dos gafanhotos, propiciando o ambiente ideal para sua reprodução. Entre outubro e dezembro do ano passado, algumas regiões tiveram um volume de chuva acima do normal. Além disso, um ciclone atingiu parte da Somália e do Quênia em dezembro.

De acordo com a FAO, cada enxame contem milhões de gafanhotos, que caso não sejam contidos, podem aumentar em mais de 500 vezes até junho. Esses insetos podem percorrer uma distância de até 150 km por dia e comer o equivalente ao seu próprio peso em 24 horas, aproximadamente duas gramas.

“Se as infestações não forem detectadas e controladas, o impacto dessas pragas devastadoras pode permanecer por vários anos e centenas de milhões de dólares gastos, com graves consequências na segurança alimentar e nos meios de subsistência das comunidades afetadas”, destaca a organização da ONU.

Dada à situação sem controle atual, o melhor método para erradicar os gafanhotos é com operações aéreas.

“Além das atividades de controle de pragas, nossa resposta deve incluir esforços para restaurar os meios de subsistência das pessoas”, diz o diretor da FAO. “As comunidades da África Oriental já foram afetadas por secas prolongadas, que diminuíram suas capacidades de cultivar alimentos e ganhar a vida. Precisamos ajudá-los a se reerguer assim que os gafanhotos acabarem”.

Desde junho de 2019, há uma reprodução crescente também de gafanhotos do deserto na Índia, Irã e Paquistão. Alguns desses enxames migraram para o sul do Irã, onde chuvas fortes recentes permitiram a postura de ovos, que poderiam se transformar em enxames na primavera de 2020. Egito, Eritreia, Arábia Saudita, Sudão e Iêmen também têm registrado uma atividade reprodutiva substancial.

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Fotos: Wikimedia Commons By Iwoelbern – Own work, CC BY-SA 3.0 (abertura) e ©FAO/Carl de Souza

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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