Afinal, de qual protagonismo infantil falamos?

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O protagonismo infantil tem sido tema de discussão tanto entre profissionais da educação, quanto pais e adultos cuidadores. Porém, para compreendermos esse conceito, precisamos rever o modo como enxergamos as crianças.

Numa relação em que o adulto coloca-se como superior, negando a capacidade da criança e menosprezando seus saberes e linguagens, dificilmente esse protagonismo poderá se revelar. Neste sentido, é importante refletir sobre o que entendemos por ‘autoridade’ do adulto. Autoridade não é uma relação de submissão ou silenciamento, requer uma abertura para novas formas de viver experiências e construir narrativas.

O protagonismo infantil revela-se quando reconhecemos a criança como sujeito de direitos, participante, capaz de aprender e de construir conhecimento, além de ser produtora de cultura. Sua construção do conhecimento é muito distinta da forma do adulto. Para a cultura da infância ser legitimada é preciso que os adultos reconheçam as linguagens, os saberes e a expressão das crianças e que deem a elas espaços e tempos para que o brincar livre ocorra, possibilitando construções autorais das quais são protagonistas.

O protagonismo da criança acontece em função de uma relação, seja com adultos ou com pares, ora no papel de protagonista, ora de coadjuvante. Ser coadjuvante significa criar meios para que o outro possa ser o ator principal, numa relação de reciprocidade e sintonia. Neste movimento, o adulto também cria possibilidades para que as crianças possam construir suas narrativas.

Um exemplo desta relação em que o adulto coloca-se como coadjuvante para dar tempo e espaço à criança, pode ser reconhecido na Escola de Infância Andersen, localizada na cidade de Reggio Emilia, ao norte da Itália. Em uma de suas propostas de projetação intitulada “As muitas faces da assembleia”, as crianças refletiram sobre as diferentes formas de registro de identidade nos crachás, que normalmente acontece por meio de fotos 3×4 do rosto.

As crianças foram convidadas a refletir a partir de questionamentos propostos pelos professores:

  • Há outros modos de se representar nos retratos fotográficos?
  • Como as crianças gostam de se representar?
  • Somente o rosto fala sobre nós?

Dessas perguntas surgiram muitas outras perguntas. As crianças tiraram fotos descobrindo algo de si e de outras crianças: uma trança grossa, uma sobrancelha fina, lábios vermelhos, cotovelos, ou seja, uma investigação fotográfica com diferentes pontos de vista.

É neste protagonismo que acreditamos: um diálogo entre as dimensões ética, política, cultural, social. Um protagonismo que respeita o tempo da criança de brincar, de experimentar, de pesquisar, de imaginar, de perguntar e de encontrar respostas para suas teorias e hipóteses, ou seja, aquilo que surge de suas necessidades e curiosidades, mesmo que estas pareçam estranhas aos adultos.

Para conhecer outros exemplos de protagonismo e se inspirar nas experiências de crianças e jovens acesse o site do programa Criativos da Escolaque encoraja estudantes a transformarem suas realidades, colocando-os como protagonistas de suas próprias histórias de mudança.

Foto: Lara Queiroz/Projeto Quintal Infâncias (Feira de Santana/BA)

Pedagoga, mestranda em educação e pesquisadora da Infância, Vilma atuou na rede pública e privada de educação infantil como professora, coordenadora pedagógica e diretora. É consultora em formação de educadores na empresa Travessias Educacional e assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

Vilma Silva

Pedagoga, mestranda em educação e pesquisadora da Infância, Vilma atuou na rede pública e privada de educação infantil como professora, coordenadora pedagógica e diretora. É consultora em formação de educadores na empresa Travessias Educacional e assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

2 comentários em “Afinal, de qual protagonismo infantil falamos?

  • 11 de outubro de 2016 em 4:10 PM
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    O que eu fico pensando é que a ideia de protagonismo infantil, deixa de lado toda a autoridade do Pai e da Mãe, o que me parece é que temos que nos colocar como crianças, não no sentido de nos colocarmos no lugar do outro buscando saber qual as suas necessidades e interesses, o que me parece é que os pais, temos que nos colocar no mesmo nível de autoridade das crianças e mais até com menor autoridade, parte-se da premissa que toda a experiência infantil é favorável, é aceitável, faz parte, é possível, é normal, há que se discutir melhor, pois não vejo a palavra dever em canto nenhum dos discursos oficiais, o que me parece é que estão estudando o comportamento infantil dentro de uma lógica de liberdade incondicional, onde tudo pode e o que importa é ser feliz, independente do que se faça, não se pode repreender as atitudes de ninguém, tudo é aproveitável, tudo é possível, toda a experiência é válida, tudo pode, é uma interferência sem precedentes na criação dos filhos, nas relações de pais e filhos. Desde a década de 80, venho escutando teorias e modismos comportamentais, mas antes de me criticarem, quero deixar claro que a família cada vez mais, está fragilizada e cada vez mais muitos estão desautorizando os pais que sem saber onde se amparar (em decorrência das inúmeras restrições e afirmativas das chamadas autoridades e grupos sociais com poder de interferência), são desautorizados por muitos e o restante da sociedade está inerte e inócuo a esta realidade. Reparem, não há dever para as pessoas só direitos, direitos e deveres devem sempre andar de mãos dadas em direção a plena cidadania para o bem de todos eu falei de todos, inclusive para o bem dos pais e da família.

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    • 25 de fevereiro de 2018 em 10:37 AM
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      Penso que protagonismo é respeito em relação a criança, é um exercício constante que requer olhar, observar, paciência e tempo. No meu ver protagonismo não deixa de lado a autoridade de pai e de mãe. Autoridade imposta não há respeito, mas autoridade observada identifica expressão, comportamentos que sinalizam o momento de agirmos em relação aos nossos filhos. Acredito que é uma troca de saberes, reflexões e diálogos dentro da família, se ainda não damos tanta importância para isso é porque não queremos mudar e sem mudança não há avanço, ficaremos sempre estanques. Vamos ensinar nossos filhos a respeitar o outro, sem preconceitos, a fazer o bem para se tornarem cidadãos éticos tanto cultural, político e social.

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