Adriana Ramos: “Sociedade e natureza são uma coisa só!”


A carioca Adriana Ramos começou a trabalhar com a Amazônia quando foi morar em Manaus, mas a floresta é sua velha conhecida desde os tempos de infância quando seu pai, que foi morar na cidade, voltava com fotos para compartilhar com a família.

Talvez ela não imaginasse que a vida já a estava preparando para que encarasse, ela própria, Manaus como lar. Ao se casar com o antropólogo Henyo Barreto, foram ambos parar lá. Tempos depois Adriana estava à serviço da Fundação Vitória Amazônica. O trabalho do marido, tão próximo dela, e o novo emprego uniram o conhecimento que Adriana tinha sobre “o ambiental” com “o social”, aproximando-a da questão indígena.

Hoje, ela é secretária executiva do Instituto Socioambiental (ISA), organização que vem se destacado positivamente na missão de aproximar os brasileiros da Amazônia e dos povos que a habitam. Por isso, ela é minha primeira personagem de uma série de entrevistas que lanço hoje, aqui, no blog Reconexão Amazônia, em homenagem às pessoas que trabalham duro – e de maneira inspiradora! – em prol da floresta e de sua gente.

Como você vê a relação dos brasileiros com a Amazônia, de modo geral?
Sempre tive uma relação positiva com a Amazônia, mas me chamava a atenção, na época em que me mudei de lá, o fato de que boa parte dos moradores de Manaus sentia rejeição pela mata. A floresta precisava ser vencida e retirada para a cidade crescer, deixando-a para trás como se ela fosse um símbolo de atraso. Essa ideia de atraso – seja relacionada à floresta ou aos povos indígenas -, têm muito a ver com o que a gente aprende na escola. Índios são lembrados e estudados no contexto do Descobrimento do Brasil. A maioria das pessoas ainda pensa neles como passado e na floresta como algo ligado à lógica primitiva. As pessoas gostam de passear em lugares exuberantes, mas não conseguem conceber a vida coexistindo com essa natureza. Sem dúvida nenhuma. é urgente reverter esse quadro e fazer com que as pessoas compreendam a importância da Amazônia e da diversidade cultural que temos nesse país.

Que caminho provocaria essa reaproximação?
Estamos vivendo uma grande crise econômica, política, ambiental, pois trilhamos caminhos limitados que nos colocam nas encruzilhadas que vivemos hoje. Essa lógica de acumular, do capitalismo, coloca nossa humanidade em cheque. Olhar para essas diversas sociedades – sejam indígenas, ribeirinhas, quilombolas -, que experienciam suas relações com o território de maneiras diferentes da nossa, trazem um repertório de experiências que pode nos ajudar a encontrar as respostas que precisamos. Basta que cada um se coloque no lugar de aprendiz mesmo, temos que ter uma certa humildade e abrir mão da arrogância da sociedade moderna e urbana, como se todo mundo que vivesse na comunidade tivesse como sonho viver em um edifício da cidade de São Paulo. Essa é uma visão arrogante da qual precisamos abrir mão.

No caminho da reconexão, gerar empatia e aproximação é super importante, não?
Sim! É claro que trazer as pessoas para essa visão é mais fácil se as envolvermos, fazendo com que sintam empatia, sentimentos positivos. Pesquisas apontam como a natureza nos dá satisfação, nos afasta do stress. É um desafio fazer com que as pessoas compreendam essa conexão que temos com a natureza e como uma relação de humildade e aprendizado podem colaborar com nosso crescimento e satisfação pessoal.

O Instituto Socioambiental tem iniciativas ótimas nesse sentido…
O ISA fez um planejamento estratégico entre 2014 e 2015 que definiu a missão de aproximar a sociedade brasileira da realidade socioambiental como um de nossos objetivos estratégicos. Sociedade e natureza são uma coisa só, a diversidade faz parte dessa riqueza do mundo que vivemos e todos precisam compreender essa perspectiva para colaborar com a conservação das florestas e da sociedade. Temos desenvolvido iniciativas nesse sentido. Lançamos a campanha Menos Preconceito, Mais Índio, que fala sobre a presença dos índios no presente e como precisamos abrir mão de certos esteriótipos para compreendê-lo. Também fizemos um filme de realidade virtual chamado Fogo na Floresta e temos lançado outras iniciativas para melhorar a proximidade com o público geral. Por meio de nossas experiências, esperamos que as pessoas saibam um pouco mais do que acontece nas regiões mais remotas de nosso país.

A seu ver, qual é o maior problema que a Amazônia enfrenta hoje?
O maior problema da Amazônia hoje é o fato de que as atividades econômicas que dependem da floresta são muito mais lucrativas. Como as pessoas estão pautadas fundamentalmente pelo lucro, é difícil trazer valores que elas consideram muito subjetivos e pouco palpáveis, para fazer essa diferença. A biodiversidade desconhecida, o repertório de práticas culturais, enfim, uma riqueza toda que sequer temos a dimensão não reverte diretamente para benefício das pessoas que hoje lucram com o desmatamento e a transformação da floresta em outras atividades econômicas.

Entre 2004 e 2012, o Brasil desestimulou o desmatamento, mas isso se desmobilizou fortemente nos últimos anos, por isso o desmate tem aumentado. Temos visto uma grande sanha de alguns setores sobre os direitos dos indígenas e quilombolas, querendo desmontar o arcabouço legal que protege e assegura esses direitos em benefício do desenvolvimento de atividades que pressupõem a retirada da floresta e das comunidades.

No que nossos esforços devem focar para que, unidos, possamos cuidar melhor da Amazônia e dos povos que a habitam?
Todos os nossos esforços têm que ser, por um lado, para gerar empatia, entendimento positivo e conexão das pessoas com a Amazônia e, por outro lado, ainda temos muito a resistir em relação a essa sanha sobre a os territórios e as comunidades, esse preconceito que está muito presente em nossa classe política que não consegue conceber o desenvolvimento de uma forma diferenciada e a diversidade como parte de nossa riqueza cultural.

Foto: arquivo pessoal

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

Karina Miotto

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

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