Abraço da morte

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Quando o oxigênio acaba e a água entra no nariz, há uma força qualquer que chama para a superfície, ainda que a água seja límpida, os peixes sejam coloridos e o silêncio seja calmante… Portanto, só pode ser inveja de não conseguir ficar lá, capturando oxigênio pelas brânquias… Não há outra explicação para essa matança indiscriminada dos ocupantes aquáticos contumazes no nadar, detentores daquela rebeldia agitada, mas sem serventia quando capturados nas redes, anzóis e… Abraços. Apertados, delicados, cortantes, firmes, carinhosos. Mortais. Morreriam de qualquer forma no chão do barco, enleados na rede, jogados na areia. Mas, ganharam um abraço do pescador, algoz momentâneo em dilema de sobrevivência.

O artista alagoano Jonathas de Andrade registrou em vídeo esses momentos. O filme está na 32ª Bienal de São Paulo, que tem o tema Incerteza Viva. Parece um documentário genuíno. Mas, na verdade, ele propôs a pescadores que abraçassem e beijassem peixes à beira da morte. Morte inevitável, diz-se.

É uma ficção na proposta inicial transmutada, durante a execução, em realidade. Essas coisas que acontecem quando a história se desenrola sem ensaio ou script. A relação entre pescador e peixe é deles. Somos espectadores da verdade construída. O choque com a morte, que esperava-se, na nossa vã ingenuidade dicotômica, fosse amenizado com um abraço do mais forte no mais fraco, amplifica-se. A dor da morte escancara-se. Mais, bem mais do que quando vemos o peixe morrendo na rede, dentro do contexto padrão… O som da vida sumindo no abraço transforma-se em dilaceramento e dó. Vai dando um enjoo. Uma raiva, uma vontade de gritar: cínico, irônico, doente… Assassino mesmo. Mas, não.

Não estamos no limite do macabro. Tem amor, tem dor.  Tem fome envolvida. Isento o pescador, mas não a grande pesca, as enormes corporações que vivem de ganhar dinheiro à custa da extinção da vida marinha e das pequenas comunidades de pescadores, como as que vivem no Alasca.

Um exemplo é a pesca do badejo, vendido para redes internacionais de “fast food” (que produzem seus sanduíches nada saudáveis), e para alguns restaurantes japoneses na Califórnia. Os corredores de congelados dos grandes supermercados também estão abarrotados do resultado da pesca que se sustenta graças ao prejuízo de 30 mil pessoas na região.

Navios pesqueiros do tamanho de campos de futebol, ao capturar o badejo, pegam também o linguado, que é fonte de alimento e renda para as comunidades. Com a grande queda da população do peixe, os pescadores estão perdendo empregos.

Mas os peixes não estão morrendo somente pelo abraço covarde das grandes redes jogadas pelos imensos navios. Eles são enganados pela quantidade absurda de lixo que circula nos mares. Acabam engolindo o que passa pela frente.

A impressão é que dados tão alarmantes nem surtem mais efeito. Faz diferença eu dizer que são oito milhões de toneladas de lixo plástico lançadas nos oceanos anualmente? Ou que em 2050 pode haver mais plástico no oceano do que peixes? Ou estamos todos anestesiados pelo abraço reconfortante e passageiro do comodismo e o que importa mesmo é o sanduíche de peixe quentinho na hora que quisermos?

Que diferença, pergunto de novo, faz essa outra notícia: o tamanho de alguns peixes está diminuindo, provavelmente, por causa do aquecimento provocado pela conversão da Floresta Amazônica em áreas agrícolas? Tanta pesquisa, tanta informação, tanto alerta… Somente choques momentâneos para alguns. Mas há que continuar tentando, fazendo pressão por mudança, ainda que muitas vezes pareça apenas cócegas para o monstro insano e disforme da destruição ambiental, sempre de braços abertos para você.


Foto: divulgação artista

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Um comentário em “Abraço da morte

  • 8 de novembro de 2018 em 7:32 AM
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    Karen, obrigado pelo seu texto. Por mais que ele não seja um texto animador, ressoam em mim as tuas palavras. Dá raiva sim, dá medo sim, dá tristeza sim, entre outros sims…
    A Karina Miotto, a qual vc deve conhecer, me falou sobre a mudança de rota dela, do ativismo mais ferrenho para a educação e trabalho com as pessoas. Uma tentativa de passar para as pessoas a importância do preservar, que não é só por ser bonitinho…
    Essa frase mexe muito comigo, “A impressão é que dados tão alarmantes nem surtem mais efeito.”, pois é isso que penso em muitos momentos.. Não da mais, é assim mesmo, a ambição e o egoísmo ganharam e é para extinção que estamos indo, fazer o quê?
    Por outro lado, existem milhares de boas propostas, gente, não “do bem’ (moralismo tosco, ordem, controle), mas DO bem, que luta, educa, resiste, acolhe, transforma. Dá esperança, mesmo que pequena.
    Gratidão!

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