A visita das borboletas monarcas no meu jardim

A visita das borboletas monarcas no meu jardim

Lembro dos meus pais cuidando do jardim de nossa casa durante horas e horas. Para eles aquilo era um ritual. Plantavam flores, árvores. Minha mãe tinha um banco bem baixinho, em que sentava, para tirar os matinhos indesejados. Ficavam exultantes cada vez que uma nova flor brotava, fruto de tanto amor e dedicação.

Havia ainda as tardes deliciosas no quintal enorme da casa da minha tia Vânia. Com um sorriso largo no rosto, a irmã da minha mãe sempre estava debruçada sobre os canteiros, com a mão suja de terra. Foi ali, em meio àquele paraíso verde, que aprendi que dava pra chupar o mel das pétalas da alegria-de-jardim ou que, não se devia esfregar os olhos depois de tocar na pimenta… Coisa que meu primo Paulo fez! Também tinha o pé de ameixa amarela (nêspera japonesa). Eu simplesmente adorava! Carnuda, com aquela semente gigante…

Mas o tempo passou e com ele, os dias inesquecíveis, em que o relógio parecia parar, nos quintais da minha infância.

Meus pais perceberam que era hora de mudar para um lugar menor e mais seguro, pois todos os filhos já tinham saído de casa. Decidiram por um apartamento, em uma região mais central de Curitiba. Sei que o maior sofrimento deles com a mudança foi a ausência do jardim. Sentiam falta de tocar na terra, cultivar, zelar pelas plantas.

Um novo adiantar do tempo e minha mãe e minha querida tia Vânia se foram.

Mas ao longo dos anos, mesmo com partida delas, depois que formei minha própria família, aos poucos, parece que uma sementinha foi brotando dentro de mim. Todo aquele carinho da minha família com seus jardins não tinha, afinal, passado despercebido na minha alma.

Comecei com as plantas dentro de casa: orquídeas e violetas. Regando com cuidado, usando água morna como minha avó costumava fazer. Depois, decidi enfeitar minha varanda. Foi a vez dos gerânios, coloridos, dando mais alegria à sacada.

Em seguida vieram as ervas – hortelã, alecrim, manjericão. O tomatinho cereja foi um desafio. Precisa de água frequente e está muito sujeito a fungos. Mas quando ele dá frutos, é maravilhoso. Não há sabor igual ao do alimento cultivado em casa.

Em 2016, pela primeira vez, após me casar e me tornar mãe, fui morar em uma casa com minha nova família. E ali, ganhei um jardim de verdade. O meu primeiro. Um quintal só para mim.

Sentada em um banquinho, como minha mãe, plantei bulbos de tulipa, narcisos, lavandas e roseiras. Acompanhei o crescimento, reguei com cuidado.

E na primavera, recebi a recompensa pela dedicação. Nossa casa ficou cheia de flores, cores e abelhas que vinham a ela em busca de alimento.

Há cerca de um ano, mudamos de país e aqui estou em uma nova casa. E com um novo jardim. Da janela em frente à mesa onde fica meu computador, fico vigiando cada mudança que ocorre nele.

Nos últimos meses, eu e meu marido plantamos duas ameixeiras, uma diversidade enorme de flores e fizemos uma hortinha.

Mas tenho uma ajuda valiosa. O meu segredo é que encontro, no meu celular, as dicas do melhor especialista em plantas que conheço. Meu irmão é agrônomo e também corre no sangue dele a paixão por tudo que é verde (esqueci de contar … meu tio, irmão do meu pai, e meu padrinho, também era agrônomo).

Então, toda vez que tenho alguma dúvida sobre que espécie plantar, qual o melhor lugar – sol ou sombra -, ou como tratar algum fungo, mando um WhatsApp para o meu irmão Ricardo. Prontamente ele me responde e dá todas as dicas.

Mato?! Mas as borboletas adoram!

Há alguns meses, no início da primavera, começou a aparecer no meu quintal uma plantinha desconhecida. Tirei uma foto e enviei uma mensagem pro Ricardo. “O que é isso? É mato?”

“É mato, mas atrai borboletas. Chama-se milkweed. Tem gente que costuma deixar no jardim”, explicou.

Milkweed é uma flor silvestre, nativa dos Estados Unidos e do Canadá. Surge pequena, mas pode chegar a mais de um metro de altura.

Decidimos deixar o “mato” crescer. E foi a melhor decisão que fizemos. Há uma profusão de borboletas em seus buquês de flores de cor rosa e branca. Durante o dia todo elas estão ao seu redor. Nem se importam com a minha presença. Entre as espécies, está a borboleta monarca (Danaus plexippus).    

Anualmente, milhares de monarcas fogem do frio do Canadá e migram para o clima mais ameno das florestas do México, passando antes pelos Estados Unidos em seu caminho. Elas voam mais de 4 mil quilômetros até chegar, em novembro, na reserva mexicana.

Agora, penso eu, que privilégio saber que alguma dessas borboletas fazem uma pequena parada em meu jardim.

Esses dias tirei várias fotos delas e as postei no Facebook. Horas mais tarde recebi uma mensagem do meu irmão.

“Valeu a pena deixar o milkweed, não? Bem bonitas as borboletas”.

A visita das borboletas monarcas no meu jardim
A visita das borboletas monarcas no meu jardim
A visita das borboletas monarcas no meu jardim

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Fotos: domínio público/pixabay (abertura) e demais arquivo pessoal

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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