A vida começa aos 82: a reinvenção de Tetê

Quem já não sentiu um vazio no estômago ao pensar sobre o futuro próximo ou distante?

Mudanças nas regras da aposentadoria, as incertezas políticas e econômicas, as novas tecnologias… tudo isso cria um clima de incerteza e instabilidade. E vem a pergunta desafiadora: como vai ser a minha vida depois dos 60, 70, 80, 90…?

Nós também passamos por isso. Mas um acontecimento na família nos fez rever nossos conceitos sobre o que é dado como certo e as surpresas que a vida pode nos trazer. Foi o florescer de Tetê.

Aos 82 anos, Therezinha Brandolim de Souza ainda mantinha vivo um sonho: aprender a ler e escrever. Filha mais velha entre sete irmãos que sobreviveram, ela  nunca teve a chance de se alfabetizar quando criança. Foi tirada da escola para trabalhar na roça. Casou aos 18 anos e continuou trabalhando. Teve cinco filhos. Mudou-se da roça para a grande Ribeirão Preto. E enviuvou, aos 54 anos. Teve que trabalhar ainda mais: limpava casas, bancos e emissora de rádio. Não sabia ler uma palavra e tinha que se virar.

Ao se aposentar por idade, finalmente viu a possibilidade de voltar para a escola frequentando um curso de Educação para Jovens e Adultos. Foram mais de 15 anos de frustração pois não conseguia aprender com o método que trata adultos como crianças grandes e não como pessoas com experiência e conhecimento da vida.

Foi só em 2013 que Therezinha viu sua história mudar de rumo ao encontrar o método Paulo Freire e a professora Jany Dilourdes Nascimento (na foto ao lado), especialista em alfabetização de adultos.

Além de aprender a ler e escrever em três meses, com as dificuldades inerentes à idade, ela revelou seu talento para arte. Bastou ter uma oportunidade. Therezinha colou algumas flores recortadas de chita numa cartolina e o que surgiu foi uma demonstração de criatividade e senso de composição.

Foi assim que nasceu seu primeiro quadro. E ela nunca mais parou. Da cartolina, passou para as painéis e telas que eram cada vez maiores.  O quadro abaixo – Fazenda dos Sonhos (2014), foi destaque da Semana de Portinari do Museu Casa de Portinari, em  2015.


Os primeiros quadros foram para a família, depois os amigos e acabaram ganhando as redes sociais (Facebook e Instagram) e a mídia. E foi, então, que ela passou a assinar as obras como Tetê Brandolim e com dois Ts (TT) que marcam suas telas. Autodidata, ela já produziu mais de 400 quadros catalogados entre colagens, pinturas e desenhos.

Tetê ainda acha difícil acreditar que essa história está acontecendo. Já vendeu obras para muitos lugares do Brasil e do mundo (Austrália, Estados Unidos e Alemanha) e tem, entre seus fãs, artistas e galerias famosas. Faz exposições, foi destaque na Semana de Portinari e se transformou num exemplo de superação e inspiração para pessoas de todas as idades.

A timidez de Tetê aos poucos foi substituída por mais autoestima. A vida dela ganhou novas dimensões: descobriu que ainda tem tempo de realizar muitos sonhos como viajar, se vestir bem, visitar museus e galerias. E até aparecer em um de seus programas de TV preferidos fazendo dueto com Pedro Leonardo (foto ao lado), no programa Mais Caminhos da EPTV.

A incrível história da reinvenção de Tetê já virou livro bilíngue em português/inglês (O Jardim de Tetê) – aprovado pelo ProAC ICMS -, que só precisa de patrocinador para ser lançado ainda este ano.

A fé e a vontade de realizar seu propósito de vida foram os combustíveis para que Tetê resistisse às situações mais difíceis mesmo quando o choro apertava a garganta. Hoje, olha para trás, agradece e diz que começou uma nova vida.

Como genro e filha dela, nós vivenciamos cada momento dessa história de transformação e também ganhamos energia para olhar pra frente. Quando nos deparamos com o vazio, sabemos que ele guarda todos os potenciais para a realização.

Agora, assista ao vídeo As Flores de Tetê, produzido pela Zuzu sobre a história da Tetê logo no começo dessa transformação. E acompanhe nossos vídeos no Canal Casal Verde, no Youtube.

Fotos: Arquivo Pessoal

Maria Zulmira de Souza, a Zuzu, é jornalista pioneira na área de comunicação sobre sustentabilidade. Criou programas e séries mostrando como viver de forma sustentável no dia-a-dia. Conselheira de várias ONGs e instituições, dirige a Planetária Casa de Comunicação. Ulrich Zens, o Uli, é arquiteto paisagista alemão. Desde 1984, pratica o paisagismo multifuncional em projetos para espaços públicos na Alemanha, Arábia e Brasil. Veio a São Paulo por causa de uma história de amor. Eles formam o Casal Verde, aqui e no YouTube, para tratar de sustentabilidade, arquitetura, maturidade, arte e relações saudáveis.

Maria Zulmira de Souza e Ulrich Zens

Maria Zulmira de Souza, a Zuzu, é jornalista pioneira na área de comunicação sobre sustentabilidade. Criou programas e séries mostrando como viver de forma sustentável no dia-a-dia. Conselheira de várias ONGs e instituições, dirige a Planetária Casa de Comunicação. Ulrich Zens, o Uli, é arquiteto paisagista alemão. Desde 1984, pratica o paisagismo multifuncional em projetos para espaços públicos na Alemanha, Arábia e Brasil. Veio a São Paulo por causa de uma história de amor. Eles formam o Casal Verde, aqui e no YouTube, para tratar de sustentabilidade, arquitetura, maturidade, arte e relações saudáveis.

Um comentário em “A vida começa aos 82: a reinvenção de Tetê

  • 1 de junho de 2017 em 2:12 PM
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    Agradecemos a todos os compartilhamentos desse post. O objetivo é esse mesmo: inspirar e abrir os olhos para as perspectivas positivas que todos nos temos por dentro e que estão à espera para sair para esse mundão.

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