A viagem

Sou um contador de histórias nato. E deu vontade grande de contar neste blog, no Conexão Planeta – que hoje (Dia do Índio) completa um ano! -, uma história que vivi em 1991. Mas, como ela é muito longa, a dividi em três partes: viagem, floresta e retorno porque creio que foi desta forma que a vivi, com total entrega. Este post retrata o início desta entrega, a viagem. No próximo texto, escreverei sobre a floresta e mostrar a dureza de um dos lugares mais isolados do Brasil. No terceiro e último texto – retorno – falarei das ameaças de morte que sofri, a maneira como me safei delas e as sequelas dessa experiência em minha vida. Quando saí da selva, eu era outra pessoa. Então, vamos lá!

Viagem ao Vale do Javari

No ano de 1991 rumei para o Amazonas. Mais precisamente para a região isolada do Vale do Javari, na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru. Fui a convite da Diocese do Alto Solimões para fazer uma reportagem que chamei de “A missão franciscana na Amazônia”. Um projeto editorial que acabou não indo adiante porque peguei outro rumo.

Numa pequena praça da cidade de Tabatinga, ao lado da Diocese do Alto Solimões, conheci um jovem índio Marubo. Ele estava indo à igreja para conversar com Frei Ciro, um franciscano ousado e brincalhão que me ajudou de forma brilhante. Frei Ciro me apresentou ao grupo de índios que acabara de chegar do Vale do Javari e, ali mesmo, no saguão da igreja, decidimos juntos os caminhos da nova viagem. “Renato, você vai ao Vale do Javari acompanhar esta turma, e lá vai realizar seus sonhos que me contava quando menino!”, disse o franciscano. Frei Ciro era meu tio-avô, irmão de meu avô materno.

Na saída para o Vale do Javari, pegamos um pequeno barco chamado Santa Maria (muito melhor do que o do Colombo, quando descobriu à América!) e rumamos para Atalaia do Norte, município mundialmente conhecido por abranger grande parte da Terra Indígena Vale do Javari, área de 8,4 milhões de hectares, considerada a maior reserva de índios isolados do mundo. De lá daríamos início à nossa grande aventura.

Na partida, um tanto inexperiente já que eu tinha apenas 25 anos, troquei alguns alimentos que achei desnecessários por outros que julguei mais interessantes. Meus olhos cresceram diante de uma grande tartaruga cabeçuda oferecida por um caboclo na beira do rio. Ofereci a ele alguns pacotes de macarrão, arroz e açúcar. Logo no primeiro dia de viagem, a tartaruga era apenas uma lembrança. Comemos todinha, quase que na mesma hora. Mas percebi, pelo estômago, que numa viagem dessas, os quilos de alimentos deixados na troca fariam muito mais fartura durante a jornada.

No passadio, posso resumir assim: logo ao amanhecer, peixe com farinha e banana. No almoço, farinha, peixe e banana. E, no jantar, banana, farinha e peixe. Esta dieta nada animadora foi se repetindo por quase dez dias, enquanto subíamos o Rio Javari. Já tinha saudades da tartaruga cabeçuda e do macarrão, mas o que importava mesmo era a viagem. A paisagem da floresta, esta sim, era cada vez mais impressionante. Um dos lugares mais isolados e encantadores em que já estive.

Quando chegamos  à aldeia dos índios marubo, no Pia Curuçá, fomos recebidos por toda a comunidade. Estavam felizes com nossa chegada e logo prepararam um almoço de recepção. Mas eis que, novamente, mais uma ‘surpresinha’ acontece: o menu incluía peixe, farinha e banana! Tive um acesso de riso e todos, solidários, riram também, mesmo sem entender porquê. Não foi à toa. Os índios, de norte a sul do Brasil, são felizes. Essa é uma característica comum a todos. E sorrir e rir é, sem dúvida, é o que define o estado de espírito natural dos povos ancestrais.

Foi lá, em 1991, nessa viagem, que se desenhou minha trajetória como fotógrafo dedicado aos índios. Foi como se eu tivesse nascido novamente. A foto do menino Matsé, que abre este post (e que ilustra, também, o primeiro post que escrevi neste blog, em abril de 2016), simboliza isso. Ele parece nascer das águas, como eu nasci, nessa viagem, para a fotografia indigenista. Foi uma viagem que transformou minha vida.

Até os próximos posts! Neles, falarei sobre a travessia do varador dos Matis, no meio da grande floresta. E também do encontro com os Maiorunas e as descobertas neste novo caminho. Até breve!

A pequena índia Marubo brinca de pescar às margens do Rio Javari, na região de Pia Curuçá.
Ela estava totalmente absorta em sua atividade e eu me encantei demais com a cena

Aqui, a garota Marubo, em Pia Curuçá, paramentada para uma cerimônia revela seu encantamento
pela boneca encontrada.
É a infância se manifestando, seja lá qual for o lugarA mesma menina da foto anterior brinca com um Picapau da cabeça vermelha

Interior da tradicional casa grande na aldeia dos Marubo, que é moradia do cacique e também
onde se realizam reuniões e outros encontros dos integrantes da tribo.
Se parece um pouco com as ocas do Alto Xingu, mas seu formato é sextavado

Este é o barquinho no qual naveguei. Seu nome: Santa Maria. Bem diferente do barco com o
qual Colombo descobriu a América -, mas tão eficiente quanto, ou seja,
bem de acordo com os objetivos de nossa expedição

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de “Diário de Campo”. É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

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