A siderúrgica que virou usina de criatividade


Uma transformação profunda vem acontecendo no Vale do  Rio Ruhr, no coração do que foi o centro da  indústria pesada na Alemanha.

De 1900 a 1985, dali se extraia o carvão que alimentava as siderúrgicas que transformaram a linda paisagem da região e deixaram um legado de altos níveis de poluição tanto na água como no solo. O carvão local foi substituído por petróleo, gás natural ou mesmo pelo carvão importado. Com o declínio veio o alto nível de desemprego e áreas industriais abandonadas.

A cidade de Duisburg foi uma das mais afetadas por essa situação. Herdou uma área de 180 hectares abandonada e contaminada para administrar. E resolveu inovar.

Em 1991, escolheu o projeto do arquiteto Peter Latz (Latz +Partner) que propunha uma abordagem fora do  convencional:  um parque de paisagismo industrial. Foi assim que surgiu o Landschaftspark Duisburg Nord.

Em 2002, várias instalações da antiga siderúrgica se transformaram em áreas para exposições de arte, esportes e gastronomia. Foi assim que o antigo Gasômetro virou um centro de mergulho com 20 mil m3. Antigas áreas de depósito de carvão agora são usadas pelo Clube de Alpinismo da Alemanha como paredes para aulas e competições de alpinismo.

O parque é também a sede da Trienal de Arte que movimenta o turismo regional e internacional. Durante a nossa viagem, demos a sorte de ver a Trienal acontecendo e, entre tantas outras atrações, experimentamos o “Círculo Branco”, uma gigantesca instalação montada onde funcionava a área das caldeiras.

Outro diferencial do projeto é de fitorremediação ou tratamento com plantas para recuperar a água e o solo contaminados por décadas de uso industrial pesado. Os resultados são animadores.

O rio Emscher já está despoluído em diversas áreas. E o projeto não se restringe a Duisburg. Outras 17 cidades adotaram plano diretor regional que segue as mesmas diretrizes. As cidades são conectadas por estarem na mesma bacia. Vários parques surgiram ao longo do rio, criando infraestruturas verdes para a região, gerando novas áreas para plantio e desenvolvimento imobiliário.

O landschpark é aberto 24 horas. À noite, o visitante tem uma atração especial: o projeto de iluminação do inglês Jonathan Park. O cenário lembra o filme Metrópolis, de Fritz Lang. É como se os restos de uma civilização recente estivessem desaparecendo e cedendo lugar para a regeneração da natureza, do esporte da arte e da cultura. Uma usina onde a criatividade é a força motriz.

O maior castelo de areia do mundo

Mesmo sem praia, Duisburg entrou para o livro Guinness com o título oficial de o mais alto castelo de areia do mundo: mede 16,68 metros de altura! Ele foi construído por designers de 10 países na área do Landschaftspark e levou 25 dias para ficar pronto, consumindo 3860 toneladas de areia.

Nossa visita ao parque aconteceu poucos dias antes do castelo ser desmontado. Que sorte! A gigantesca construção lembra uma montanha e tinha ao seu redor alguns dos principais pontos turísticos do planeta como a Sagrada Família (Barcelona), as Pirâmides (Egito), a Torre Eiffel (France), entre outros, e até uma desova de tartaruga tão perfeita. Era impossível não se encantar com a obra e passar um bom tempo tentando entender como foi realizada.

Uli, como um entusiasta arquiteto paisagistapra quem não lembra, ele é meu parceiro na vida, aqui no blog e na iniciativa de mesmo nome – é da região e ficou impressionado com o parque e as soluções urbanísticas desenvolvidas ali. Landschaftspark é considerado um dos dez melhores parques do mundo pelos críticos de arquitetura do jornal The Guardian.

Sem dúvida, um exemplo que pode inspirar vários iniciativas de recuperação de áreas urbanas degradadas no Brasil, especialmente nas metrópoles.

Fotos: Landschaftspark/Thomas Berns & DZT /Mark Wohlrab

Maria Zulmira de Souza, a Zuzu, é jornalista pioneira na área de comunicação sobre sustentabilidade. Criou programas e séries mostrando como viver de forma sustentável no dia-a-dia. Conselheira de várias ONGs e instituições, dirige a Planetária Casa de Comunicação. Ulrich Zens, o Uli, é arquiteto paisagista alemão. Desde 1984, pratica o paisagismo multifuncional em projetos para espaços públicos na Alemanha, Arábia e Brasil. Veio a São Paulo por causa de uma história de amor. Eles formam o Casal Verde, aqui e no YouTube, para tratar de sustentabilidade, arquitetura, maturidade, arte e relações saudáveis.

Maria Zulmira de Souza e Ulrich Zens

Maria Zulmira de Souza, a Zuzu, é jornalista pioneira na área de comunicação sobre sustentabilidade. Criou programas e séries mostrando como viver de forma sustentável no dia-a-dia. Conselheira de várias ONGs e instituições, dirige a Planetária Casa de Comunicação. Ulrich Zens, o Uli, é arquiteto paisagista alemão. Desde 1984, pratica o paisagismo multifuncional em projetos para espaços públicos na Alemanha, Arábia e Brasil. Veio a São Paulo por causa de uma história de amor. Eles formam o Casal Verde, aqui e no YouTube, para tratar de sustentabilidade, arquitetura, maturidade, arte e relações saudáveis.

Deixe uma resposta