A responsabilidade do instrutor


Organizar treinamentos de fotografia – em especial, workshops – é, para mim, uma mistura de prazeres e pavores. Como eu continuo fazendo isso, pode-se supor que os prazeres seguem superando os pavores. Mas ambos devem, sempre, ser igualmente considerados.

Me juntar a um grupo de pessoas interessadas em dedicar tempo à documentação das belezas da natureza está entre as coisas de que mais gosto na vida. Essas oportunidades de compartilhar conhecimentos, visões, expectativas, alegrias e frustrações sempre me proporcionam momentos especiais. Até agora, o resultado final foi um mix de lindas imagens, boas lembranças e novos laços de amizade estabelecidos.

Mas o pacote completo inclui uma série de incertezas, que me causam um nó no estômago antes de cada evento. Penso em como integrar as pessoas do grupo (às vezes, todos desconhecidos) que, durante um período de tempo, irão dividir o mesmo espaço. Cada um com seus próprios objetivos, expectativas, interesses, conhecimentos, equipamentos, limites, medos e tolerâncias, que deverão compor uma receita, temperada por pitadas de fotografia, que resulte em coesão e harmonia.

Junte isso aos caprichos da mãe natureza e comece a entender a intensidade do embrulho gástrico. Vai chover o tempo todo? Vai estar calor ou frio demais? Os mosquitos vão infernizar a vida de todos? Aquele bicho esperado vai aparecer (já falei disso no post A onça do alívio)? Durante aquele esperado nascer ou pôr do sol, vai estar nublado? A cachoeira – até a qual você levou três horas caminhando – vai estar seca?

Apesar dessa conjunção quase explosiva de fatores, até hoje, a natureza agiu magicamente. Mesmo já tendo encarado com grupos todos os perrengues que mencionei, creio que meus companheiros e eu voltamos sempre com a feliz sensação de que tudo valeu a pena.

E aí você me pergunta: e que raios isso tem a ver com a foto do arco-íris deste post? Explico: ao mesmo tempo em que a mãe natureza pode criar uma série de atropelos no desenrolar de uma expedição fotográfica, ela pode também nos proporcionar esse tipo de momento.

Essa foto foi feita no meio de uma estrada da Península Valdez, na Argentina. Minha querida amiga Lia Barros e eu voltávamos de uma tentativa de ver as orcas na Punta Norte quando se formou esse espetáculo que, para mim, simplesmente redefiniu o que entendo por arco-íris.

Em breve, vamos levar grupos para fotografar essa região e aqueles motivos de pavor voltarão a transitar por minha mente. Garanto que todos os cuidados serão tomados para que as viagens transcorram da melhor forma possível. Mas me desculpem: é só até aí que vai a responsabilidade do instrutor. Infelizmente, não dá para garantir que esse espetáculo estará lá nos esperando. Para isso, sempre vamos depender de muita sorte e dos bons caprichos da natureza.

Agora, ficam aqui os dados técnicos da foto mágica que ilustra este post:
– Câmera Nikon D810 + objetiva Nikon AFS 14-24 f/2.8G @ 14mm
– ISO 64, abertura f/5.6 e velocidade 1/20 s

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

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