A recompensa da espera

Mono Lake, California

A fotografia de natureza entrou na minha vida como a simples extensão de uma paixão que sempre tive: estar em ambientes naturais. E essa ordem dos acontecimentos muitas vezes fez a diferença na hora de produzir algumas das imagens de que mais gosto.

Ficar horas esperando pela melhor luz (que às vezes nem acontece!) nunca foi um processo penoso para mim. Sentar e observar uma montanha, um lago, uma cachoeira ou a vida silvestre me traz imensa satisfação, independente do resultado fotográfico que esse tempo gere.

Há alguns anos eu fotografava o Mono Lake, na Califórnia, na companhia de Sidney Erthal, amigo fotógrafo que vive lá. Esse lago teve seu nível drasticamente rebaixado pelo desvio dos rios que o abastecem para suprir de água a cidade de Los Angeles. Esse processo, além de torná-lo 3,5 vezes mais salgado do que o mar, deixou expostas algumas formações calcárias que se desenvolvem abaixo da superfície, conhecidas como tufa. As torres de tufa proporcionam uma paisagem curiosa e rara, o que motivou nosso interesse fotográfico pela região.

Passamos a tarde toda caminhando por uma trilha circular que percorre as principais formações de tufa. Era um dia de sol com algumas nuvens, o que em geral é bastante adequado para a fotografia de paisagens. Nossa ideia inicial era fazer um reconhecimento do local para decidir onde iríamos fotografar o esperado pôr do sol, quando a luz é mais favorável em termos de cores e contrastes.

No fim dessa primeira incursão, retornamos ao carro para comer algo e descansar um pouco. Mas, vagarosamente, uma grande massa de nuvens começou a cobrir o céu. Em alguns minutos, o tempo estava completamente fechado e uma luz acinzentada deixava a paisagem praticamente sem cores.

Era um momento de decisão: ficaríamos para o pôr do sol ou seguiríamos viagem em direção ao Parque Nacional de Yosemite, nosso próximo destino?

Decidimos partir, organizamos tudo, entramos no carro e, com o motor já funcionando, me ocorreu que, dessa forma, passaríamos o fim do dia no meio da estrada. Desliguei o carro e sugeri que voltássemos ao lago, mesmo que isso não rendesse fotos. Sugestão aceita, retornamos à trilha com nosso equipamento (só para garantir).

Depois de um tempinho jogando conversa fora de frente para uma paisagem toda cinzenta, aconteceu o improvável: com o sol já se pondo, uma pequena fresta se abriu nas nuvens próximo ao horizonte. E o que se seguiu foi uma profusão de cores que poucas vezes vi na vida. Numa correria desesperada, voltamos aos locais que planejamos fotografar para registrar aqueles cinco minutos de luz espetacular.

Para mim, esse é um dos vários casos que expressam bem a importância da paciência e persistência na fotografia de natureza. E cada vez mais percebo que, geralmente, essa dedicação é recompensada (Eu quase usei a palavra esforço aqui. Mas, para mim, não é de fato um esforço ficar sentado na beira de um lago lindo como este).

Veja mais imagens do Mono Lake

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

12 comentários em “A recompensa da espera

  • 19 de agosto de 2015 em 10:06 AM
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    Muito bom Amend! Acompanharei seu blog e suas histórias! ;)

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    • 20 de agosto de 2015 em 7:38 PM
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      Toda realização começa no sonho, Tatiana. Se essas coisas também estão nos teus sonhos, pé na estrada! =0)

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  • 25 de agosto de 2015 em 1:02 PM
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    É isso aê! Confordo plenamenta com o Marcos Amend!

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    • 31 de agosto de 2015 em 9:32 AM
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      Legal Tiago! Eu sei que você é dos que não se incomodam de ficar no meio do mato também. =0)

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  • 26 de agosto de 2015 em 11:22 PM
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    Aquele momento mágico…. “com o sol já se pondo, uma pequena fresta se abriu nas nuvens próximo ao horizonte”. Gostei.

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  • 18 de março de 2016 em 4:38 PM
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    Maravilha de experiência! Alguns fotógrafos conseguem expressar a Natureza de forma tão sublime que me emociona! Fotografia poética! Texto emocionante! Amei!

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    • 21 de março de 2016 em 9:12 AM
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      Obrigado Claudia! É bom demais quando uma imagem consegue mexer com os nossos sentimentos. Melhor ainda ter espaço para contar essas histórias por trás delas! Abraço

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