A primeira onça-pintada a gente nunca esquece

Não é de hoje que escrevo sobre meus trabalhos com onças-pintadas, afinal já são duas décadas documentando projetos de pesquisa sobre este que é o maior felino das Américas!

E confesso que, apesar de já ter perdido a conta do número de onças que já documentei por todo o Brasil, ter publicado as principais matérias em revistas, colaborado com imagens para artigos científicos e ter produzido dois livros sobre a espécie (Panthera oncae A Onça na Cultura Pantaneira), uma das minhas fotos preferidas foi da primeira onça que vi em minha vida, em pleno Cerrado goiano!

Estava no Parque Nacional das Emas acompanhando uma captura de onça-pintada, que serviria de base para estudos de ecologia, área de vida e análises da saúde do animal. Além disso, este trabalho serviria também para a primeira matéria produzida em território nacional encomendada pela recém-inaugurada National Geographic Brasil.

Naquela época (há exatos 18 anos) não havia a mordomia e a facilidade que existem na região de Porto Jofre, onde turistas e fotógrafos se sentam confortavelmente numa voadeira e têm a certeza de que vão encontrar uma onça nas barrancas do rio.

Eu documentava as onças-pintadas com propósitos científicos, portanto, tudo acontecia a partir de capturas, que eram realizadas com a colaboração de ex-caçadores e seus cachorros. Assim, o dia-a-dia da equipe era uma verdadeira caçada para o bem.

Acordávamos às 5h da madrugada e lá íamos com os cachorros atrás de rastros e odores das onças. Assim que farejavam o bicho, saiam em disparada e nós tínhamos que literalmente correr atrás deles.

Lembro bem de um dos dias em que tivemos que cruzar três vezes o mesmo rio, num espaço de 20 minutos, num vaivém que nada mais era do que a tentativa da onça para despistar os cachorros.

Após 15 dias de trabalho, todos já fadigados ao extremo pelo intenso esforço físico, conseguimos chegar próximos aos cachorros, que latiam desesperadamente. O capim alto encobria nossa visão horizontal, entre as árvores tortuosas típicas do Cerrado.

A sensação de estar próximo da onça, o ex-caçador gritando “Ela está aqui, ela está aqui!!”, e nós sem enxergarmos direito o que estava ao nosso redor, aumentava ainda mais a tensão. Foi quando um dos biólogos da equipe olhou para cima… lá estava ela, camuflada entre a folhagem verde-escuro da copa da árvore!

Lembro que disparei um rolo de filme, ou seja, 36 fotos, com uma sensação que misturava emoção e honra.

Lá estava ela: poderosa e ao mesmo tempo frágil, cansada mas com a valentia de quem realmente era a “dona do pedaço”, considerada símbolo da biodiversidade.

Agora, assista ao documentário que dirigi para celebrar o dia da onça-pintada a convite do Ministério do Meio Ambiente, do ICMBio e do Parque Nacional do Iguaçu:

Adriano Gambarini

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

Deixe uma resposta