A primavera que nasce com a gente

Já plantei muitas árvores. Na terra, para a Terra, para a minha filha, para todos nós. Mas, destas todas, uma árvore, certa vez, me fez chorar de beleza. E é esta a história que hoje quero contar pra você. Sempre tive uma ligação muito forte com as árvores. Sinto-as como seres extremamente especiais e com uma inteligência que talvez nunca possa ser inteiramente desvendada pelas ciências.

Quando eu era criança, havia uma árvore em frente à minha casa. Uma Pata de vaca de flores brancas, de tronco e galhos convidativos. Subia sempre nela e passava longos períodos sentada no galho mais forte, apenas balançando as pernas e observando suas folhas, as formigas, os cheiros, tudo. Como se ela fosse minha casa, meu casulo. Às vezes, dava preguiça de subir e, então, eu sentava na terra e me recostava em seu tronco. Sempre, sempre conversávamos pelo tato, num silêncio tão rico de falas e trocas que não era preciso palavra alguma.

Anos depois, desenvolvi afeto por outra árvore. Ficava no pátio da escola. Imensa. Sibipiruna. Sob sua sombra eu me sentava entre uma aula e outra, para relaxar ou trocar segredos com amigos, ou para apreciar os bem-te-vis e sabiás que estavam sempre por perto.

No último ano do ensino médio, teve um concurso de redação na escola e o ganhei com um texto que contava a história de uma árvore. Uma árvore que ficava no pátio e testemunhava o desenvolvimento de uma criança, que cresceu, foi embora e, anos depois, voltou para levar a filha à escola. Ciranda da vida. A história, despretensiosa, deu ideia à diretora: minha turma plantou uma árvore (um Ipê amarelo) no jardim da escola para marcar aquela etapa que estávamos cumprindo em nossas vidas. Era, enfim, hora de voar, mas com raízes fortes.

Depois da faculdade e do vazio que senti nos primeiros trabalhos em São Paulo (faltava-me natureza!), fiz um curso que me mergulhou no mato, por meses. Dessa imersão, uma intuição muito forte aflorou em mim. Um dia, durante uma caminhada por uma trilha de mata bem fechada, passei por uma árvore e senti um profundo arrepio. Parei. Olhei para ela e percebi algo de errado. Comentei com quem estava comigo, mas ninguém deu bola. Voltamos a caminhar e, minutos depois, veio o estrondo. Voltei correndo em direção àquela arvore. Sabia que era com ela. Sim, ela estava no chão.

Daquele dia em diante, passei a observar as árvores com mais atenção. Como quando notei que a Amoreira na calçada da minha casa precisava de cuidados. Foram meses de carinho e dedicação, adubo orgânico do minhocário, podas e reiki. Ela retribuiu com amoras doces para mim e para a vila inteira.

Árvores são assim. Lindas, generosas, abundantes de vida e amor. Talvez venha daí o termo árvore genealógica. Tão bonito. Acho que temos muito de árvore dentro de nós. Acho, não. Tenho certeza. Vou te contar.

Quando minha filha nasceu, descobri algo que pouco se comenta por aí. Para quem não sabe, em um parto natural, primeiro nasce o bebê e, logo depois, a placenta. Quando a minha placenta “nasceu”, eu estava de cócoras e pude ver e imprimir sua primeira imagem na memória dos meus maiores afetos: o órgão misto, mágico, que é da mãe e do bebê ao mesmo tempo, e que depois de cumprir sua missão é expelido do corpo da mãe para ser devolvido à terra, tem a forma… de uma árvore. Sim! É uma árvore! O desenho é incrível e não há dois iguais em lugar algum. Vasos sanguíneos fortes desenham raízes, tronco e galhos absolutamente lindos. Inesquecíveis.

Naquela noite, renasci. E chorei diante de tanta beleza. Fiquei por longos minutos, talvez meia hora, apreciando com deslumbramento aquela árvore que servira de abrigo para minha filha durante quarenta semanas. Aquela árvore que nasceu dentro de mim para me fazer nascer de novo. Metáfora da vida, dos ciclos naturais, das transformações, da resiliência. Não, não. Pensando bem, não é uma metáfora! Árvore é vida! Vida que nesta semana chega com graça para anunciar a primavera. Que a primavera possa entrar em todos nós! Que possamos sentir gratidão e ser guardiões dessas árvores lindas que abençoam nossa terra. Que possamos, por fim, sempre e cada vez mais, ser raiz, semente, folha, flor, fruto, gente.

Foto: Jamie Taylor/Unsplash

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

2 comentários em “A primavera que nasce com a gente

  • 21 de setembro de 2018 em 9:15 AM
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    Chorei também, só de ler seu texto. Lindo!!!

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  • 21 de setembro de 2018 em 9:59 PM
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    Muito obrigada por esse texto, Giuliana! Lindo, verdadeiro e inspirador. Sempre tive amor pelas árvores e cada vez mais eu me impressiono e aprendo com elas. Em 2016, numa aula do curso de Ciência Holística, analisando uma folha de árvore, ela se revelou para mim como uma casa, um abrigo. Numa outra aula, tive a mesma impressão analisando uma árvore, mas com uma sensação bem mais forte de casa, lar, aconchego. Embrace. Senti que a árvore me abraçava, com seus ramos, folhas, flores e raízes. Desde então criei o costume de abraçar árvores. A troca de energia é mágica. Como falaste, um “silêncio tão rico de falas e trocas”. Elas nos ensinam tanto, só precisamos saber ver, ouvir e sentir.

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