A noite, o sonho e a natureza

Neste mundo cheio de telas em que vivemos, convidamos você a uma reflexão sobre a natureza da noite e dos sonhos. Enquanto o Sol está iluminando do outro lado do planeta, aqui fica escuro, e é noite. A iluminação urbana nos impede quase que totalmente de ver as estrelas, mas elas estão lá e poderíamos vê-las se apagássemos as luzes.

Quando estamos em locais com o céu extremamente limpo, e podemos observá-las nos damos conta de que essa é uma experiência impressionante e encantadora. Poder repeti-la todas as noites seria maravilhoso nos dias atuais, já que andamos tão esquecidos de que flutuamos no vasto Cosmos, junto com outros planetas, outras galáxias e outros sistemas solares.

Mas as crianças estão em contato com esse mundo extenso e, muitas vezes, fazem observações que nos surpreendem, como nesta conversa “colhida” das páginas 138 e 139 do livro Casa Redonda, uma experiência em educação:

– O mundo não acaba?, perguntou Theo enquanto cavava buracos na areia.
– Não, ele vai muito longe, respondeu o amigo.
– Então o mundo é um monstro enorme que, quando está de boca aberta, é dia e, quando ele está de boca fechada, é noite.

E é nesse convívio e nessa interação das crianças com o mundo que seus conhecimentos sobre o próprio mundo são construídos.

De onde vem a matéria dos nossos sonhos? Oras, de onde poderia vir senão da própria natureza? Para viver plenamente o mundo noturno, é imprescindível que as famílias organizem o ambiente em casa com pouca luz forte e, a partir do anoitecer, desligue aparelhos elétricos e, claro, todas as telas!

Computador, celular, table… todos têm telas com luz forte, que nos tira – crianças e adultos – do contato com os fluxos vivos que são o que verdadeiramente importa. E a noite é um momento muito especial para se conectar com esses fluxos.

Há muitos anos, a luz do fogo era o ponto de encontro para trocar experiências, saberes, histórias. Hoje, nossas noites são repletas de luzes artificiais, cada vez mais próximas de nossas faces.

Um amigo nos contou que ele, a esposa e seus dois filhos pequenas resolveram acampar no quintal. E para que a aventura ficasse mais emocionante, apagaram todas as luzes da casa e levaram uma lanterna para dentro da barraca. Percebendo que as crianças continuam agitadas e não dormiriam tão cedo, se sentaram em círculo e cada um começou a contar sobre o seu dia. Quando chegou a vez da pequena, que tem menos de dois anos, ela pegou a lanterna, se concentrou e cantou uma música sobre as estrelas, que conduziu a todos pelo encanto da noite e pelo mistério que é viver plenamente.

Para dormir bem e ter um sono reparador e sonhos que conectem e orientem nosso caminhar, o ideal é reduzir a luz, tirar a luz artificial do ambiente. À luz de velas ou da lareira, quando possível, o encontro familiar fica mais saboroso: o momento de contar histórias, histórias pessoais, sobre as descobertas e aprendizagens do dia a dia, além dos contos de fadas e de tantas histórias que alimentam a alma de todos nós.

O que acham? Vale tentar?

Esta é apenas uma sugestão entre tantas outras que buscamos para nos conectarmos com realidades sutis que todos vivenciamos, mas das quais poucas vezes nos damos conta. 

Foto: Greg Rakozy/Unsplash

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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