A natureza, a criança e seu poder criador e transformador

Estar na e com a natureza nos ensina muito, e nos inspira. Essa relação somada a nossa capacidade de observar e criar pode também transformar elementos. Foi assim que seguimos, até hoje, no desenvolvimento da espécie humana.

O fato é que. quando a criança brinca, desenvolve a capacidade de observar, criar e transformar. Isso pode acontecer em diversos níveis, como na aproximação com os adultos. Exemplo: crianças indígenas que brincam enquanto os adultos trabalham.

O documentário Waapa, do Território do Brincar – sobre o qual a Raquel Franzim, do Instituto Alana, falou aqui no Conexão Planeta conta muito dessa brincadeira-trabalho, desse trabalho-brincadeira. Lá está a tribo Yudjá, estão os meninas e as meninos, a natureza e suas descobertas: dos bebês que dão seus primeiros passos ao redor das mulheres que estão em seu ofício ralando e preparando a mandioca, às meninas que se preparam para tecer e os meninos que se preparam para caçar.

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Assista ao trailler do documentário no final deste post. Você também pode organizar uma exibição em sua casa, escola, condomínio, rua, bairro, usando a plataforma VídeoCamp.
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E tudo isso pode se manifestar pelo brincar livre e intergeracional, quando as crianças mais novas adquirem repertório na brincadeira com as crianças mais velhas enquanto fazem suas próprias brincadeiras.

Criar seus próprios brinquedos é um processo que faz parte da cultura da infância. Faz parte de experimentar, testar, imaginar.
Em uma das nossas oficinas, construímos gravetos. Entre tramas e galhos surgem formas, histórias, personagens, instrumentos. As crianças não acostumadas com esse ofício recebem apoio dos adultos, especialmente na amarração. O importante é que a criança participe de todo o processo de alguma maneira.

O que vem nos preocupando ultimamente é o tempo de fazer, de criar, de transformar. A indústria do brinquedo quebrou esse processo de construção. Precisa de uma panela? Nós vendemos. Precisa de uma boneca? Também temos. Precisa de um carrinho? Deixa com a gente! Adeus carrinhos de toquinhos de madeira, bonecas de sabugo de milho, panelinhas de barro.

A indústria do brinquedo te faz ganhar tempo e te entrega o brinquedo pronto. Do jeito que eles, na indústria, imaginaram, do jeito que eles querem que seja, do jeito que eles determinaram que seja para todas as crianças. As cores, as formas, os materiais, tudo segue um padrão pensado por adultos.

O resultado desse consumo industrializado é que, nas oficinas, enquanto construímos um boneco com gravetos e folhas ou um arco e flecha, ouvimos algumas crianças dizerem: “Mas por que demora tanto?”, “Não tinha que ser mais rápido?”, “Precisa de tudo isso?”. Mas fazer, usar as mãos, criar e planejar exige tempo, dedicação, envolvimento, disponibilidade, presença.

Um outro filme, também do Território do Brincar que nos traz essa reflexão do fazer, criar e brincar é o Bambeia, de 2003 (assista no final do post). Ele é uma mostra do fazer dos meninos, que constroem peões.

Este filme me faz pensar muito sobre ‘onde’ começa a brincadeira. E onde ela termina. Enquanto transforma os elementos e imagina novas possibilidades, a criança está muito presente em sua produção, criando e recriando a todo momento.

Por isso, convido você a sair de casa com as crianças! Vá a uma praça ou parque. Leve material que possa ajudar na criação do que quer que seja: barbantes, cordas, tesouras… e não esqueça do tempo!

Pelo espaço natural, procure elementos que podem ser outras coisas, outros seres, terem história, fazerem história. Quando criança e natureza se encontram, a relação é forte e potente e elas já sabem o que fazer.

Que as crianças descubram e exercitem seu poder criador e transformador.

Agora, abaixo, assista ao trailler do curta-metragem Waapa e também ao filme Bambeia, que tem pouco mais de quatro minutos.

Foto: Renata Stort

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

Ana Carol Thomé

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

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