Jacu-estalo: a mais legendária de todas as aves brasileiras ainda sobrevive no Vale do Rio Doce

jacu estalo

No início da Segunda Guerra Mundial, um jovem alemão inspirado pelos mistérios em torno de uma das aves mais enigmáticas do mundo, deixaria a guerra e a Europa para trás para embarcar em uma jornada que alteraria, não apenas os rumos de sua vida como, também, a história e o destino da ornitologia brasileira.

Claro que este não era apenas um jovem em busca de aventuras, mas, sim, um cientista apaixonado por aves e incrivelmente inovador que, já no auge dos seus 18 anos, ingressava como membro em uma das associações dedicadas ao estudo das aves, mais respeitadas da Alemanha, a Verein Sächsischer Ornithologen. 

Muito pouco tempo depois, aos 23 anos, ele se tornaria aluno de um dos mais renomados pesquisadores do seu país Erwin Stresemann, na Universidade de Berlim, aquele que faria o convite que mudaria para sempre a sua vida.

Stresemann convidaria ninguém mais, ninguém menos que Helmut Sick a viajar para a América do Sul para, além de estudar algumas das mais belas aves brasileiras, desvendar os mistérios do jacu-estalo (Neomorphus geoffroyi).

Segundo relatos publicados pelo próprio Sick, foi exatamente este incrível desafio – encontrar e estudar o comportamento e a reprodução de uma ave, hoje conhecida como o “fantasma” da Mata Atlântica – que o motivaram a seguir para o Brasil.

Em um de seus artigos publicados em 1970, na revista científica The Condor, Sick enfatiza que a maior prioridade de suas primeiras viagens no país em 1941, era estudar, de forma meticulosa, os hábitos da espécie.

Curiosamente, esta ave foi descoberta em 1927, no Espírito Santo, na Bacia do Rio Doce, nas proximidades da Lagoa Juparanã, em Linhares (explore a região no mapa abaixo) por uma das mulheres mais revolucionárias do seu tempo Emilie Snethlage, cuja vida de aventuras e contribuições científicas já foram tema de outro texto meu, aqui, no Conexão Planeta.

Hoje, entretanto, as chances de observar a sub-espécie que habita o sudeste do país, Neomorphus geoffroyi dulcis, a mesma descrita por Snethlage e profundamente estudada por Sick, são tão pequenas que, mesmo para um especialista com décadas de experiências, seria mais fácil dar de cara com um unicórnio do que observar o jacu-estalo.

Por este motivo, a espécie encontra-se avaliada como criticamente em perigo pelo Minstério do Meio Ambiente, já sendo considerada como “provavelmente” extinta do Rio de Janeiro e, sem registros até 2011 para os estados da Bahia e de Minas Gerais.

Mesmo que a forma da espécie seja considerada “mais comum”, o Neomorphus geoffroyi é tão raro que entre 1990 e 2011, ou seja durante 21 anos, destacaram-se apenas 4 registros feitos por cientistas e estes só acrescentam mais dúvidas sobre os locais onde a espécie ocorre, o tamanho das populações e sua distribuição pelo país.

Entre estes registros encontra-se o do pesquisador Rômulo Ribon, um dos maiores especialistas do mundo em aves de Minas Gerais, que, após 4 anos de trabalho intenso nas matas de Jaiba, norte de MG, não conseguiu observar nenhum exemplar da espécie, mas encontrou uma pena da cauda da ave perdida na floresta.

Já em 2012, um novo registro fotográfico foi realizado por acaso na Bahia, por armadilhas fotográficas do projeto Conservação da onça-pintada (Panthera onca) no Médio São Francisco: estabelecimento do corredor de fauna no nordeste brasileiro, coordenado pela pesquisadora Claudia Campos.

Os detalhes deste registro foram publicados na Revista Brasileira de Ornitologia, por uma equipe de especialistas liderados pelo ornitólogo Andrei Langeloh Roos. Neste mesmo artigo, Roos afirma que, atualmente, essa localidade é alvo de vários projetos de mineração e implantação de parques eólicos, o que traz uma real ameaça para a biodiversidade local.

O Jacu-estalo, na verdade, é uma ave da família dos cucos (Cuculidae) e não dos jacus, conhecido também como acanati-de-bico-verde, aracuã-da-mata, jacu-estalo-de-bico-verde, jacu-porco, jacu-queixada e jacu-bagunceiro.

Surpreendentemente, esta é uma ave relativamente grande, com cerca de 50 centímetros de comprimento, pernas e cauda longas, um bico robusto e um topete característico. E é em essência terrícola, ou seja, habita o chão das florestas se alimentando no solo de invertebrados, pequenos lagartos, anfíbios e ocasionalmente frutos.

Tais características únicas aumentam ainda mais o mistério em torno desta espécie. Afinal, por que é tão difícil, mesmo para especialistas, observar uma ave de grande porte que vive no chão das florestas e raramente voa? Onde ele se esconderia? Teria a sub-espécie da Mata Atlântica desaparecido?

Em 26 de março de 2014, na trilha conhecida como Porto Capim, no Parque Estadual do Rio Doce, a mesma espécie descoberta pela pioneira Snethlage, aquela que motivou a vinda de Helmut Sick para o Brasil, surgiu novamente para alegria de uma equipe de cientistas.

O relato e as fotos da ave foram publicados em artigo na Revista Brasileira de Ornitologia pelos pesquisadores Fagner Daniel Teixeira, André Aroeira Pacheco e Fernando Cesar Cascelli de Azevedo. Segundo os ornitólogos, a espécie ainda habita matas da região do Vale do Rio Doce, em especial a Reserva Estadual do Rio Doce, e ações prioritárias para a preservação da região devem ser tomadas com urgência. O vídeo acima, disponibilizado no Youtube por Daniel Teixeira, principal autor da pesquisa, registra com detalhes o comportamento das aves.

Já no ano passado, um novo registro foi realizado, por acidente. Isso mesmo, acidente! Pesquisadores do projeto Pró-Tapir, liderados pela cientista Andressa Gatti, instalaram dezenas de câmeras, acionadas por sensores de movimento, na floresta de Linhares, no norte do Espírito Santo.

O objetivo principal dos pesquisadores era detectar a presença de antas mas, inesperadamente, as fotos revelaram a presença do fantasma da Mata Atlântica (Neomorphus geoffroyi dulcis).

Finalmente, na semana passada, no dia 28 de abril, a dupla de fotógrafos Vitor Barbosa e Gustavo Oliveira, integrantes do projeto Expedicionários, que tem por objetivo publicar um livro de fotografias sobre a biodiversidade do Espírito Santo, realizaram um incrível feito inédito: fotografaram um exemplar da espécie descansando sobre um tronco na Reserva Biológica de Sooretama. A imagem de Vitor Barbosa, que ilustra a abertura deste post, será uma das muitas deste maravilhoso livro.

O projeto Expedicionários foi idealizado há pouco mais de um ano pelos fotógrafos Paulo Silva e Fabrício Costa, com objetivo de publicar uma obra extensa sobre as espécies da fauna e flora do Estado, o livro, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2017, conta com o apoio e autorização de órgãos como o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) e o Instituto Chico Mendes (ICMBio).

A verdade é que, embora voe pouco, o jacu-estalo é extremamente rápido e atento a tudo que acontece ao seu redor. Se você não é especialista na área, talvez não esteja familiarizado com as características da espécie, mas é possível exemplificá-la citando um parente distante, conhecido no mundo todo, inclusive pelas crianças, como um simpático personagem de desenho, na TV: o Papa-Léguas.

Talvez você não saiba, mas o papa-léguas foi inspirado em uma ave real que habita a Califórnia, nos Estados Unidos. Seu nome científico é Geococcyx californianus, popularmente conhecido como road-runner. Para compensar a falta de agilidade no voo, o papa-léguas é muito ágil com as pernas, chegando a correr a uma velocidade de até 30 km/h (veja no vídeo abaixo).

Possivelmente, o grande segredo do jacu-estalo, assim como no caso do papa-léguas, seja também sua super velocidade, que proporciona à espécie estratégia única para desaparecer em um piscar de olhos, floresta adentro, ao menor sinal da presença de qualquer visitante inesperado em seu território.

Apesar de todos os mistérios que envolvem a espécie, em especial a sub-espécie da Mata Atlântica, uma coisa os cientistas já sabem – e que, em 1969, o próprio Helmut Sick já afirmava: esta é uma ave tão sensível a perturbações, que até mesmo pequenas modificações no habitat podem levar ao seu desaparecimento. É uma das primeiras espécies a desaparecer em áreas sob pressão do impacto de humanos e animais domésticos como cães e gatos.

Para sobreviver livres na natureza, estas aves necessitam, quase que impreterivelmente, de áreas extensas de florestas primárias, ou seja, que nunca sofreram perturbações significativas nem foram exploradas ou influenciadas direta ou indiretamente por nós.

Diferente do papa-léguas do desenho animado que, para sobreviver, precisa apenas escapar das armadilhas de um coiote bobalhão, o nosso jacu-estalo precisa superar obstáculos tão gigantescos como a destruição em massa de nossas florestas e o impacto de desastres ambientais como o das barragens de Mariana, que podem afetar não apenas o Rio Doce como toda a dinâmica dos ecossistemas da região, colocando em risco um dos últimos refúgios da mais lendária de todas as aves da Mata Atlântica.

Créditos Foto (N. geoffroyi dulcis): Vitor Barbosa e Gustavo Oliveira, equipe Expedicionários
Créditos Vídeo (N. geoffroyi dulcis): Daniel Teixeira, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

11 comentários em “Jacu-estalo: a mais legendária de todas as aves brasileiras ainda sobrevive no Vale do Rio Doce

    • 23 de junho de 2016 em 12:47 PM
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      Obrigado pela visita João Sergio, continue acompanhando meus textos por aqui, Grande Abraço.

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  • 9 de Maio de 2016 em 1:50 PM
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    Muito legal, bem elaborada a matéria nos trazendo muitas informações. Uma significativa área do Vale do Rio doce está sujeito a sofrer grande colapso ambiental, devido o rompimento da represa da SAMARCO próximo da cidade de Mariana. Descobrir que aves tão raras ainda sobrevivem nessa área, aumenta a responsabilidade de todos nós em cuidar que coisas como o que aconteceu com aquela represa, não volte a acontecer mais, e, para que os responsáveis daquela empresa, acelerem providências para regeneração do ambiente sofrido…principalmente o rio, que é o que dá vida as florestas ao redor.

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    • 23 de junho de 2016 em 12:50 PM
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      Olá Carlos Alberto, seu comentário é perfeito, conservar o patrimônio ambiental, fiscalizar e compartilhar informações com tomadores de decisão e empresas é uma responsabilidade de todos nós. Obrigado por sua excelente contribuição.

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  • 29 de Maio de 2016 em 3:53 PM
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    Os presentes relatos acerca do Jacu-estalo: os registros científicos da sua ocorrência em habitats tão ameaçados; o seu desaparecimento e a surpreendente constatação do seu ressurgimento, nos levam a refletir sobre os riscos a que estão expostas outras numerosas espécies que compartilham este e outros habitats pelo Brasil afora. Penso no fato de que, muitas vezes, projetos monumentais do ponto de vista do impacto avassalador causado ao meio ambiente são deliberadamente autorizados tão somente por serem considerados “estratégicos” para o desenvolvimento do país. E então indago: que projeto tão grandioso poderia justificar ou compensar a extinção de uma espécie?

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    • 23 de junho de 2016 em 12:57 PM
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      Olá Nivaldo, sua opinião sempre agrega informações relevantes ao meus textos, obrigado. Precisamos lembrar que não apenas empreendimentos voltadas a infraestrutura e aumento de empregos são importante para a população brasileira, a conservação da natureza também é muito relevante até mesmo para a nossa sobrevivência. A extinção de uma espécie, não significa apenas a perda de um animal ou planta, mas sim a perda de dezenas de processos e serviços ecossistêmicos imprescindíveis para a manutenção de grandes biomas responsáveis por diversos bens de consumo indispensáveis para a vida nas cidades, assim como os alimentos e a própria água, sem falar dos medicamentos que são produzidos graças a compostos encontrados nas espécies que habitam nossas florestas, como o Captopril que beneficia milhares de brasileiros.

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      • 23 de junho de 2016 em 7:04 PM
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        Obrigado Sandro Von Matter, seus comentários alimentam a esperança da existência de pessoas mais esclarecidas e preparadas para cooperar pela existência de uma natureza mais preservada.

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  • 27 de Abril de 2018 em 12:04 AM
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    Parabens pelos registros preciosos dessa ave rara,Devemos todos cooperar pela preservacao da natureza.

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