A liberdade da Funai e da imprensa termina onde começa a do indígena


No final de julho, a Fundação Nacional do Índio (Funai) divulgou imagens de um indígena da Terra Indígena Tanaru, na Amazônia, que vive isolado há 22 anos. Ele é o último sobrevivente de sua etnia. A história é triste.

Ocupação e colonização desordenadas no estado de Rondônia geraram invasões de fazendas e exploração ilegal de madeira na região. Até que, a partir de 1995, restou apenas um pequeno grupo de sobreviventes dos Tanaru. E, do grupo todo, hoje existe apenas um homem, apelidado pela instituição como índio do buraco.

Diz o órgão governamental que, durante todos esses anos, técnicos têm seguido o indígena. E, de repente, por alguma razão, o filmaram e a instituição divulgou suas imagens, que rodaram o mundo todo.

Agora vamos desmembrar essa notícia? Vamos falar dela em etapas?

Vamos nos colocar no lugar desse homem

E não importa se você é homem ou mulher, se nasceu na zona rural, numa praia, na floresta ou na cidade, se já viu ou não um indígena na vida. Use o poder de sua imaginação:

Você nasceu em um lugar da floresta. O mesmo em que seus tataravós, seus avós, seus pais. Nesse lugar você viu entes queridos morrerem, viu nascer muitas pessoas, que aprendeu a amar e a chamar de família.

Você vivia em paz com a natureza. Aprendeu a ler os sinais do tempo, a plantar e a colher conforme a temperatura das duas estações do ano de sua região (chuvosa e não chuvosa). Aprendeu a reconhecer os alimentos na floresta, a caçar. Compreendeu, pelas histórias contadas por seus avós e seus pais, a espiritualidade de seu povo. Praticou-a, conforme quis e pode.

Vivia em comunidade, entre trocas, entre dar e receber. Até que um dia… gente de outra cor de pele, que você nunca tinha visto antes, invade sua casa dizendo pra você que ela não é sua, mesmo você sabendo que era. Portavam umas coisas estranhas que cuspiam fogo e faziam um barulhão danado. Quando direcionadas aos seus parentes, matavam em poucos minutos. Suas flechas, diante dessas máquinas que cuspiam fogo, nada ou muito pouco podiam fazer.

Esses homens de outras cores de pele chegavam em coisas grandes sobre rodas que faziam barulho, desciam delas e pareciam poderosos, só podiam estar doentes e fora do juízo porque invadiam a sua casa e matavam sua família e não pareciam sentir nenhum remorso. Foram tantos dias de dor e mortes… até que só sobraram você e mais uns poucos, porque vocês souberam se esconder e lutar.

Foi duro, muito duro ver toda sua família morrer, suas casas destruídas. De repente você precisou fugir com a dor pulsando no peito sem nunca poder olhar para trás. Olhar para trás poderia significar morrer também. E você escolheu viver. Abandonou sua terra, terra de tantas lembranças preciosas, lar de todos os conhecimentos que você adquiriu. Partiu.

E aí terminou o seu viver e começou a sua sobrevivência. Assim você está por 22 anos. Não tem sido fácil.

Agora vamos para a outra parte da história

A Funai tem, por obrigação, proteger os indígenas deste país, não vulnerabilizá-los para ganhar notoriedade.

Como você se sentiria se filmassem a sua vida, a sua dor e a propagassem, sem sua autorização, para o mundo inteiro ver e comentar?

Nós, os que têm mídias sociais, muitas vezes nos sentimos feridos em nossa privacidade mesmo sendo usuários dessas ferramentas. Imagine esse indígena. Será que a Funai sequer se perguntou como ele se sentiria com essa exibição toda? Funai, você tirou proveito disso e porquê? Para mim, não está claro. Absolutamente desrespeitosa a divulgação das imagens.

Índio do buraco. Esse apelido não me soa bem. Esse homem é um verdadeiro guerreiro e, por todas as razões possíveis, óbvias e não óbvias, merece nosso mais nobre respeito. Sua privacidade e o local onde mora devem ser totalmente protegidos.

Sinto muito, irmão indígena, pela sacanagem de divulgar a sua vida. Te honro e admiro e te envio meus melhores sentimentos. Que você siga acompanhado pelos seres da floresta e protegido por todas as forças.

Sinto muito, Funai e todos os meios de comunicação que compartilharam o vídeo dele de forma sensacionalista, para gerar notícias e likes. Lamento.

Por mais humanidade nesta nossa humanidade!

Por razões óbvias, escolhi não divulgar nem a imagem e nem o vídeo desse guerreiro, aqui. A foto que ilustra este post foi cedida por Renato Soares, fotógrafo indigenista que também é colaborador do Conexão Planeta, com o blog Ameríndios do Brasil.

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

Karina Miotto

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

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