A indústria do plástico e o brincar no Brasil

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Não faz muito tempo, a Lego, grande fabricante de brinquedos, anunciou que, até 2030, irá substituir o plástico em seus produtos por materiais sustentáveis. Desde 1958 desenvolvendo peças de acoplagem, a decisão da empresa dinamarquesa não é à toa: a imagem do plástico como vilão ambiental vem ganhando força nos últimos anos.

Fama merecida: o plástico leva em média 400 anos para se desintegrar e representa 70% do lixo encontrado nos oceanos.  As empresas e associações do setor se defendem, alegando que o problema não está no plástico em si, mas na destinação que se dá a ele. Para disseminar esta ideia e se desresponsabilizar frente aos danos causados pelo material, já investiram, somente nos EUA, mais de US$ 15 milhões em publicidade.

Utilizado há mais de 100 anos como alternativa a madeira, metal, marfim, entre outros materiais, o plástico no Brasil apresenta um consumo modesto comparado a outros países – 46 quilos (kg/habitante), número em plena ascensão.

Fortemente vinculada ao entretenimento (personagens e marcas) e ao marketing, a indústria de brinquedos de plástico dissemina o ideário de brinquedo seguro, higiênico e econômico. Dados da Xalingo, uma das dez maiores empresas do setor no Brasil, mostram que o plástico foi a matéria-prima de 81% dos produtos do setor nos últimos 30 anos, contra 19% de brinquedos de madeira.

Uma rápida visita aos parques e estantes de brinquedos de escolas públicas e privadas do país revela a predominância do plástico. A entrada desse tipo de material ocorre por meio da gestão de recursos financeiros das próprias escolas, entretanto, é endossada por pregões e atas de compra de materiais realizadas pela autarquia responsável na execução de políticas educacionais do Ministério da Educação (MEC), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

A última edição do pregão de compras de brinquedos para área externa de parques escolares das regiões sul e sudeste (pregão eletrônico nº40/2013) retrata bem esse cenário. No catálogo de produtos, a maioria é de polietileno, um dos plásticos mais comuns e baratos comercializados no mundo. O fato é no mínimo curioso, pois contraria as referências legais do próprio MEC, que apontam para a importância das experiências de bebês e crianças com materiais de origem natural como terra, madeira, água, areia, pedras, plantas, folhas e sementes.

Um pouco de história

A presença de elementos da natureza faz parte do brincar das crianças brasileiras, desde antes da chegada dos portugueses por aqui. Durante todo o período colonial, do Império e República, o brinquedo era a natureza. Feitos com cascas de frutas, seixos de madeira, ossos de animais ou conchas.

O brinquedo manufaturado, inicialmente miniaturas de objetos utilizados por adultos, é trazido ao Brasil por famílias ricas da Europa e, no final do século XIX, passa a ser fabricado por pequenas indústrias instaladas no país. Com o passar do tempo, o conceito de progresso atrelado à industrialização e à urbanização da população brasileira coloca os materiais naturais como algo de menor valor. A natureza passa a ser vista como algo a ser domesticado e afastado das crianças por seus supostos perigos.

Transformar o mundo

No brincar das crianças, os elementos da natureza proporcionam a experiência de transformar o mundo pelas mãos. Dedos ágeis que estalam um fruto rígido e oco na disputa de pião; mãos que dão vida às figuras de animais entrelaçando fios; o achado de uma pequena pedra redonda para ser lançada no bodoque – exemplos das marcas deixadas pelas crianças brasileiras ao longo da história. E você, leitor, quais brinquedos construiu na infância com materiais da natureza?

A natureza oferece, também, outra qualidade de experiência sensorial, diferente da uniformidade do brinquedo de plástico – são pesos, texturas, resistências, profundidades, formas, cores, características que ampliam a possibilidade de imaginação e criação.

Em um mundo fortemente marcado pelo consumo não consciente de materiais vendidos como educativos, cabe a pais, educadores, órgãos públicos e toda sociedade civil a reflexão contínua sobre os materiais que oferecemos às crianças. Discussão que vai muito além do que as empresas de brinquedos vendem com o selo de“infantil”.

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Foto: mufiidpwt/Pixabay

Raquel Franzim é pedagoga e especialista em educação infantil. Atuou por 14 anos na rede pública de educação infantil na cidade de SP, como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Atualmente, é assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

Raquel Franzim

Raquel Franzim é pedagoga e especialista em educação infantil. Atuou por 14 anos na rede pública de educação infantil na cidade de SP, como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Atualmente, é assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

3 comentários em “A indústria do plástico e o brincar no Brasil

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  • 29 de janeiro de 2016 em 3:18 PM
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    Gostei muito deste artigo, pois nos leva a pensar como a escolha dos materiais que escolhemos para as crianças também é uma forma de educação. Quando optamos por trabalhar com os pequenos materiais da natureza, estamos resgatando a própria natureza, que temos enterrado ao longo dos anos, através do uso de materiais que estão cada vez mais destruindo o nosso planeta.

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  • 30 de janeiro de 2016 em 12:52 PM
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    Parabéns pela reflexão que o texto nos propõe, como educadores e pais somos dotados de escolhas, estas que precisam estar embuidas de valores e ações conscientes de não transformar a infância num período de muito consumo e pouca pouca vivência…

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