A ignorância e a guerra ao politicamente correto alimentam o populismo

Lembro de ter lido, um tempo atrás, artigo no qual o autor defendia que, nos Estados Unidos, estava aumentando o número de pessoas que defendia seu direito a ser ignorantes sobre determinado tema ou assunto. Ou seja, essas pessoas conscientemente não queriam conhecer ou saber mais, embora esperassem que as opiniões decorrentes dessa ignorância, mesmo as mais radicais, de ataque a grupos sociais ou conceitos científicos, como as mudanças climáticas, devessem ser consideradas válidas na sua essência.

Seria um ponto adicional na famosa “guerra cultural”, especialmente naquele país, mas que se espalha pelo mundo ocidental, que opõe conservadores em geral contra “liberais” e “esquerdistas”. Esta disputa de narrativas ganhou força, especialmente no começo dos anos 1990, com a verdadeira cruzada contra o “politicamente correto”.

Outro artigo mostra como a candidatura Trump galvanizou esta percepção pública em quase todos os seus discursos, transformando-o em bandeira de luta.

A questão, segundo o autor, é que o conceito de “politicamente correto” seria na prática uma invenção de intelectuais e líderes políticos de direita para fazer frente às profundas transformações que a sociedade americana vem passando a décadas, com transferência de poder a grupos antes marginalizados, como mulheres, negros, gays etc.

O autor do artigo mencionado explica isso desta forma:

“Se você diz que algo está ‘tecnicamente’ correto, está sugerindo que está errado – o advérbio antes de ‘correto’ implica um ‘mas’. No entanto, dizer que uma afirmação é politicamente correta sugere algo mais insidioso. Ou seja, que o orador está agindo de má fé. Ele ou ela tem segundas intenções e esconde a verdade para avançar uma agenda ou sinalizar superioridade moral. Dizer que alguém está sendo ‘politicamente correto’ desacredita esta pessoa duas vezes. Primeiro, implicando que ela está errada. Em segundo lugar, e de forma mais contundente, que ela sabe disso”.

Por que trago os temas do “elogio à ignorância” e da “guerra ao politicamente correto”? Porque no ambiente em que vivemos, de acesso quase irrestrito às facilidades de comunicação da internet e das redes sociais, a junção das duas coisas vai criando um clima extremamente tóxico para que a verdade e a empatia transpareçam.

Se o outro lado está errado por definição e, além de tudo, eu me recuso a ouvir e conhecer argumentos que possam mudar esta minha visão, então é impossível produzir mudanças que beneficiem o conjunto da sociedade. E isto afeta não apenas o jogo político-ideológico, mas até mesmo teorias e conceitos científicos. Estão aí dos defensores da cruzada contra as vacinas e de ideias mais esdrúxulas, como a “Terra Plana”, que não me deixam mentir.

As técnicas que estimulam a mobilização e facilitam o engajamento de pessoas e grupos são basicamente ferramentas. Devemos lembrar que o martelo que bate um prego pode também matar uma pessoa. Neste sentido, grupos extremistas sempre trataram de mobilizar audiências fora de seus círculos mais próximos pela manipulação descarada, mas estratégica, dos medos e preconceitos de comunidades.

Mas, o que vemos agora é que o “alívio” trazido pela ideia do direito à ignorância e da luta contra o politicamente correto tem levado as pessoas a se sentirem confortáveis e até meio heroicas em expressar publicamente toda a sua visão preconceituosa e unilateral, que antes guardavam para conversas de botequim ou almoço em família.

A toxicidade deste ambiente vai alimentando personagens como Trump e outros líderes demagogos e populistas mundo afora, que encontram o caldo cultural perfeito para que suas visões parciais do mundo floresçam.

Para o nosso campo, das pessoas que acreditam e lutam por um mundo melhor para todas e todos, fica a missão de não alimentar o fluxo de mentiras e “fake news” que alimentam esta guerra cultural. E, principalmente, de usar nossa capacidade de mobilização para abrir espaço e voz para os que não têm. Porque estes são os primeiros a serem calados.

Foto^Photo by Samantha Sophia on Unsplash

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

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