A Hora do Sabiá: participe e ajude a monitorar a poluição sonora e a plantar árvores nativas em sua cidade

O Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) é a mais comum e a mais conhecida das espécies brasileiras de sabiá: uma ave facilmente reconhecida pela cor laranja ou ferrugínea de sua barriga ou, pelo seu canto melodioso. É uma das espécies mais populares do país, mas tão popular que, em 1968, foi declarada por lei (Decreto nº 63.234) como símbolo nacional para o Dia da Ave, comemorado anualmente em 5 de outubro.

Mas, apesar de toda sua popularidade, em 2013 o Sabiá foi alvo de uma das maiores polêmicas do mundo das aves. Inesperadamente, populações da espécie residentes em algumas áreas de grandes cidades do Brasil trocaram o dia pela noite e passaram a cantar por toda a madrugada. De um momento para o outro, seu magnífico canto, antes idolatrado em poemas, se tornou o centro de milhares de reclamações por parte de brasileiros incomodados pela cantoria fora de hora.

E qual o motivo dessa mudança de hábito da ave? A poluição sonora gerada pelos veículos, construções, pelo movimento das pessoas, falas, enfim… todos os ruídos que provocamos diariamente. Todas as discussões e reclamações em torno da incrível insônia do Sabiá-laranjeira inspiraram o lançamento da iniciativa a Hora do Sabiá, o maior projeto de monitoramento colaborativo da América do Sul e o primeiro de ciência cidadã genuinamente brasileiro. Ou seja, um projeto científico onde todos os cidadãos podem registrar informações sobre um determinado fenômeno e enviá-los diretamente a um cientista.

Contei sobre tudo isso em outro post, aqui no blog, em 2015 – A incrível insônia do Sabiá-laranjeira -, que este é um dos textos mais lidos do Conexão Planeta.

Os primeiros resultados no estado de São Paulo foram impressionantes e demonstraram que as aves da capital começam a cantar em média 5 horas antes que seus parentes do interior. Enquanto os Sabiás do interior cantam – pela última vez no dia -, em média, 4 horas antes dos da capital.

Além disso, com dados coletados em estações experimentais para registro de ruídos pela cidade, foi possível comparar regiões e até ruas da cidade com alto índice de fluxo de veículos e, consequente, maior poluição sonora, a regiões com baixo índice e correlacionar estes dados com a alteração do horário de canto das aves.

Assim, ficou demonstrado que os Sabiás que habitam regiões da cidade altamente impactadas pela poluição sonora, se adaptaram ao barulho excessivo, deslocando seus horários de canto para o meio da madrugada. Isto porque é somente no silêncio da madrugada de São Paulo que os Sabiás encontram condições ideais para se comunicar, ouvir e ser ouvidos por outros Sabiás.

Os resultados iniciais do projeto foram apresentados em 2014, em uma palestra intitulada A Incrível Insônia Do Sabiá-Laranjeira Investigada Por Mil Cidadãos Cientistas, no Congresso Brasileiro de Ornitologia, o maior e mais importante conferência do país sobre o estudo das aves, se consolidando como um dos estudos mais inovadores da área.

No ano seguinte, em 2015, o estudo integrou o primeiro Simpósio do Brasil sobre o tema, Citizen Science for Citizens and Scientists, no Congresso Neotropical de Ornitologia, a conferência científica internacional de maior importância sobre o estudo das aves dos Neotrópicos.

O projeto A Hora do Sabiá realiza o monitoramento contínuo do Sabiá-laranjeira graças ao apoio de milhares de voluntários por todo o país. Com o apoio de cidadãos como você, o estudo já desvendou parte do mistério por trás do estranho comportamento destas aves e segue em frente.

Agora, ainda em 2017, o monitoramento colaborativo da ave símbolo do Brasil vai gerar um mapa de dados sobre níveis de poluição sonora por todo o pais e correlacionar estas informações com a alteração do comportamento desta ave e dados sobre o bem estar e qualidade de vida dos moradores de cada região.

O Sabiá-laranjeira poderá se tornar um termômetro para esses índices nas grandes cidades, afinal, se humanos e aves sofrem alguns dos mesmos impactos perversos da urbanização, certamente as aves podem indicar problemas que, na correria do dia a dia, não somos capazes de perceber.

Além disso, neste ano, ao contribuir para o projeto e agir em prol da conservação do Sabiá-Laranjeira, todos os participantes cadastrados receberão em suas casas um kit de sementes nativas do bioma ao qual sua cidade está inserida, ou seja, sementes de árvores florestais que atraem aves.

Esta iniciativa marca o lançamento do projeto Floresta das Aves. Todos os participantes também receberão assessoria e apoio técnico ‘inicial’ na implementação de suas próprias florestas urbanas e poderão ingressar na rede de líderes regionais.

Para participar, basta acessar o site do projeto A Hora do Sabiá, clicar em participe agora e preencher o formulário; leva menos de um minuto.

Investigar o Sabiá-laranjeira pode, na verdade, contar um pouco mais sobre a vida e os desafios impostos aos brasileiros nas grandes metrópoles e indicar possíveis soluções.

Agora, fique com dois momentos de Sábias flagrados em uma cidade barulhenta:

 

Foto e vídeos: Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Deixe uma resposta